Ivo sobre a Mangueira: ‘Não posso sentir saudade daquele inferno’

Por Leonardo Lupi e Luiz Felippe Reis

Ex-presidente da Mangueira, Ivo Meirelles foi no mínimo um dos dirigentes mais comentados do Carnaval nos últimos anos. Entre inovações e polêmicas, o sambista deixou amigos e rivais dentro da verde e rosa, de sua eleição em 2010 até a saída, três anos mais tarde.

Nascido e criado no morro que batiza a agremiação, o músico foi de tudo um pouco dentro do “Palácio do Samba”. Da infância pobre ao poder maior da escola, o artista trilhou toda sua história de vida em terras de Cartola e Carlos Cachaça (dois históricos ídolos mangueirenses). Mas, após seu desligamento, no início de 2013, Ivo não apareceu mais por lá e, desde então, evita falar sobre a atual administração, comandada por Chiquinho da Mangueira, que recentemente revelou ao Sambarazzo que a agremiação tem hoje a pior situação financeira dentre as escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval carioca.

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Em 2015, Ivo voltou à cena do Carnaval como produtor do CD das escolas de samba da Série A em parceria com a Lierj, a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – Foto: Felipe Araújo

É de se imaginar que o Ivo sinta falta de comandar a Estação Primeira, certo? Errado. Embora admita sentir saudades dos amigos que deixou na comunidade mangueirense, o percussionista não tem qualquer lembrança positiva “daquele inferno”, como o músico se refere à Mangueira ao quebrar o silêncio e soltar o verbo para o Sambarazzo.

– Eu nasci na Mangueira, eu não cheguei lá, como todo mundo. Quando eu digo que tenho saudade da Mangueira, as pessoas confundem. Eu tenho saudade do morro da Mangueira, das pessoas, dos amigos. A escola, se eu sentir saudades, vou estar sentindo saudades do inferno. Num dia, se essa nuvem que paira sobre a Mangueira passar e a paz voltar a reinar, espero fazer parte de alguma coisa lá dentro da Mangueira, a escola de samba. Mas eu não posso sentir saudades daquele inferno político que eu passei. Dependendo da atmosfera que eu falei, volto até pra varrer o chão – desabafa Ivo, que à frente da escola teve como melhor resultado um 3° lugar em 2011, quando a verde e rosa fez desfile em homenagem ao compositor Nelson Cavaquinho.

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Com a saída de Ivo da presidência, a bateria da Mangueira deixou de lado o antigo apelido “Surdo Um”, para virar a “Tem que respeitar meu tamborim” – Foto: Reprodução/Facebook

Um por todos e… ninguém por Ivo. É mais ou menos assim que o ex-dirigente resume a sua passagem ao longo de quatro anos na presidência da Mangueira. Sem apoio na época, o músico reforça a ausência total de saudades dos tempos de presidente:

– Fiquei quatro anos na Mangueira com o mundo contra mim, o mundo da crítica, da imprensa, dos pseudo-mangueirenses. Fiz quatro carnavais sozinho, eu e Deus, e mais uns poucos. Não posso sentir saudades disso.

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Quebrou o silêncio! Ivo Meirelles resolveu falar ao Sambarazzo: “Não posso sentir saudades daquele inferno” – Foto: Arquivo pessoal

*Foto de capa: Reprodução/Instagram