Por Luiz Felippe Reis

O Carnaval 2017 teve que esperar até julho deste ano para conhecer todos os enredos que estarão na Avenida em fevereiro. Enquanto o público apaixonado esfrega as mãos para saber quem vai chegar com força aos desfiles, as escolas e, especialmente, os carnavalescos, começam a tocar os trabalhos para o desenvolver dos temas, que se apresentam com leituras bem distintas entre si.

Apesar da variedade, que navega por enredos que falam de religião, personalidades, movimentos culturais, histórias e outros bichos, algumas narrativas vão se esbarrar na Avenida, e darão aquela sensação de déjà vu nos espectadores em determinados momentos dos desfiles. É o caso de Imperatriz e Beija-Flor, que prometem usar e abusar das cores e da leveza da estética indígena. A verde e branco homenageia os índios do Xingu, já a representante de Nilópolis conta a história de Iracema – a virgem dos lábios de mel -, que largou tudo por um grande amor.

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Dia do Índio! No Domingo de Carnaval, Imperatriz e Beija-Flor vão exaltar a cultura indígena, cada uma a seu modo – Fotos: Divulgação

Os artistas das duas únicas tricampeãs da Era Sambódromo concordam que a possível comparação nos dias de desfile pode trazer uma motivação extra. Carnavalesco da Imperatriz, Cahê Rodrigues, que há três temporadas seguidas vive essa mesma coincidência, acredita que o enredo da Beija-Flor deve oferecer mais liberdade para a comissão utilizar o expediente da linguagem indígena e aproveita para diferenciar as duas propostas.

– O interessante é que não tenham temáticas parecidas para não haver a comparação. Mas quando acontece acaba te aguçando a fazer melhor, a buscar caminhos diferentes. Já tive experiência assim. Em 2015, anunciei tema afro, a Beija-Flor logo depois anunciou tema afro. Este ano, apresentei um tema indígena, e Beija-Flor lançou um tema indígena. No último, a Tijuca tinha momentos próximos ao meu. Mas os caminhos são diferentes. Falo de um Xingu, que é uma região muito centralizada, onde as etnias são peculiares, eu tenho uma doutrina a seguir. A Beija-Flor é um romance, existe uma liberdade maior para abraçar a plástica indígena. São dois belos enredos, mas com caminhos diferentes – explica Cahê, que vai para o quinto ano seguido na Imperatriz, dona do enredo “Xingu – O clamor que vem da floresta”.

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Em 2015 e agora para 2017, Imperatriz e Beija-Flor tiveram semelhança na temática dos enredos; em 2016, quando homenageou os sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano, foi a vez de Cahê Rodrigues encontrar pontos em comum no desfile da Tijuca, que falou sobre a vida no campo – Foto: Leandro Ribeiro

 

“Não me incomoda a comparação… serão índios diferentes”, pondera Fran Sérgio, da Beija-Flor

Pelas bandas de Nilópolis, o carnavalesco e integrante da comissão de carnaval da Beija-Flor, Fran Sérgio, curte a comparação direta com outro enredo e opina que os estilos diferenciados das escolas ficarão bem claros na pista de desfiles.

– Não me incomoda a comparação. Na verdade, serão índios diferentes, tenho certeza. São escolas com estilos distintos. É legal porque vai ter aquela coisa: ‘Qual índio vai ser mais bonito?’ Cria uma expectativa. Gosto disso. E que bom que dois enredos vão ter essa temática indígena, acho ótimo. A história da Iracema é um anagrama da América, ela abre um leque muito grande pra gente usar da leveza e as cores, abrange muitas coisas – comenta Fran, que desenvolve ao lado da comissão o enredo “Iracema – A virgem dos lábios de mel”

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Um dos carnavalescos da Beija-Flor, Fran Sérgio gosta das comparações: “Cria uma expectativa”

Tijuca e Vila vão de música, e carnavalesco lamenta: ‘Fiquei chateado, queria que fosse inédito’

Unidos da Tijuca e Vila Isabel se inspiraram na musicalidade da América para desenvolver os temas para o Carnaval do ano que vem. Enquanto a escola do bairro de Noel vai riscar o mapa do continente americano, passando por Norte, Sul e Caribe, desvendando os legados musicais deixados pelos negros, a azul e amarelo foca na cultura musical dos norte-americanos e parte de um encontro acontecido em 1957 entre Louis Armstrong e Pixinguinha para unir Brasil e Estados Unidos.

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A música vai dar o tom nos desfiles da Vila e da Unidos da Tijuca – Fotos: Divulgação

O carnavalesco da Vila, Alex de Souza, confessa que ficou contrariado, pois esperava marcar pelo ineditismo. Apesar da chateação pela semelhança dos temas, ele adverte que as visões são diferentes e que essa coincidência já ocorreu em alguns momentos da história do Carnaval.

– Esse meu enredo era pra ter sido o do Carnaval 2016, mas a escola buscou um patrocinado. E neste ano, mais uma vez, a escola tentou um enredo patrocinado, não conseguiu, e definiu que seria esse meu. Quando eu vi o da Tijuca, fiquei chateado. Porque queria que o meu fosse uma coisa inédita, mas paciência, aconteceu. E cada um tem uma visão, tem um jeito de fazer. Na verdade, o enredo deles é uma parte do meu, não é igual. Isso aconteceu diversas vezes no Carnaval. O Mauro (Quintaes, carnavalesco da Tijuca) mesmo fez o carnaval sobre a loucura em 1997 pela Porto da Pedra, e o Salgueiro falou sobre loucura também no mesmo ano. A Rosa em 1994 na Imperatriz tinha o enredo ‘Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e Tabajeres’, que era baseado do livro ‘Festa Brasileira’, e o Império Serrano tinha o mesmo enredo, com outro nome. Em 1978, o Pamplona (Fernando, consagrado carnavalesco que morreu em 2013) no Salgueiro tinha um enredo sobre a criação do mundo, e o Joãosinho Trinta, na Beija-Flor, teve um outro sobre a criação do mundo, segundo o povo Nagô. Então, isso acontece – argumenta Alex, partindo para a segunda temporada seguida na Vila Isabel, dona do enredo “O som da cor”.

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#Chateado! Carnavalesco da Vila, Alex de Souza esperava lançar o enredo “O som da cor” e ter o ineditismo como parceiro no Carnaval 2017, mas a Tijuca foi mais rápida e divulgou um tema sobre a musicalidade – Foto: Sambarazzo

“Não dá pra se preocupar”, minimiza Mauro Quintaes, da Tijuca

Mauro Quintaes, um dos quatro carnavalescos da Tijuca, encarou com mais naturalidade a similaridade temática e, assim como Alex, citou alguns casos de coincidências em enredos aproximados.

– Não vejo problema, acaba sendo normal. Não dá pra se preocupar. Mas os olhares são diferentes, você pode retratar o mesmo assunto de maneiras diversas. O nosso é algo mais específico sobre música americana. A única vez que tive esse problema mesmo foi quando fiz reedição, mas é assim mesmo, as coincidências acontecem. Teve um ano (2014), que a Imperatriz e a Ilha trouxeram um carro com um totó-humano. É o inconsciente coletivo, né? Pode acontecer. Nós lançamos o enredo, e o Alex tem todo direito também e fez muito bem por sinal. E até a Portela também, que vai falar do Rio Mississippi, e a gente fala também, então são três escolas falando sobre esse rio. Vai aguçar a curiosidade das pessoas – completa Mauro, que divide a comissão na escola com Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo. Juntos, eles desenvolvem o enredo “Música na alma, inspiração de uma nação”.

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Numa boa! Um dos carnavalescos da Tijuca, Mauro Quintaes vê com normalidade a proximidade entre os enredos – Foto: Irapuã Jeferson

Imperatriz e Beija-Flor se encontram no Domingo de Carnaval. A verde e branco é a terceira a desfilar, e a azul e branco é a última. A Vila Isabel será a quarta também no dia de abertura dos desfiles do Grupo Especial. A Tijuca é a única das quatro que se apresenta na Segunda-feira, como quarta a entrar na Sapucaí.