Amor que não se mede! Sambistas estampam na pele amor por artistas e agremiações

Por Thales Calazans

Há quem procure eternizar, em forma de tatuagem, romances, amizades, laços familiares, mensagens e símbolos repletos de significados. No mundo do samba, as marcas da paixão também são muitas na hora de demonstrar aquela admiração por um ídolo ou pela escola do coração.

O Sambarazzo reuniu alguns adeptos corajosos que encararam as agulhas em nome do amor.

Torcedora da vermelho e branco mais conhecida da região da Tijuca, na Zona Norte, Elisinha Salgueiro, de 40 anos, dedica tanto afeto à agremiação que até incorporou o nome da escola ao sobrenome. Ela é presidente de uma torcida organizada (“Amigos do Salgueiro”) há quatro carnavais e tatuou o brasão salgueirense no ombro direito. E não parou por aí: também fez questão de homenagear o mestre-sala Sidclei, que conduz o pavilhão da “Academia do Samba” há oito carnavais.

— O Sidclei é o amor da minha vida, meu grande ídolo. Fiz questão de escrever ‘Sid’, para que ele tivesse certeza da homenagem. Na época, meu namorado perguntou: ‘Você vai tatuar o Sidclei? Não vai fazer nada da gente?’. E eu disse, ‘Não, Sidclei é muito mais importante’. Graças a Deus, não tatuei, né? Ele se foi e o Sidclei ficou. Ele é eterno — declara Elisinha, que ainda tatuou um casal de mestre-sala e porta-bandeira junto das três primeiras letras do nome do dançarino.

Elisinha Salgueiro é fã do mestre-sala Sidclei e, além do brasão da escola, tatuou a silhueta de um casal de dançarinos defendendo o pavilhão da vermelha e branca. No chapéu panamá do homem, ela registrou ‘Sid’, em homenagem ao ídolo| Fotos: Arquivo pessoal

Tempos depois, o filho da sambista, João Pedro, de 18 anos, também ganhou espaço privilegiado entre as tatuagens.

— Falei para ele: ‘Não é que mamãe não te ame, mas o Salgueiro foi o meu primeiro amor’ — conta.

‘Me faz sentir privilegiado e orgulhoso’, diz Sidclei

É claro que a homenagem de Elisinha não teria a mesma graça se não chegasse ao conhecimento do mestre-sala. Sidclei não esconde a felicidade ao comentar o mimo, visto com bons olhos por ele. Todo bobo, o profissional agradece à admiradora.

— É uma emoção imensa. Muito especial saber que tem pessoas que amam o seu trabalho. Perpetuar o meu nome assim me faz sentir privilegiado e orgulhoso. Tenho gratidão eterna por ela, graças ao carinho que ela tem por mim — afirma o parceiro de dança da porta-bandeira Marcella Alves, que também é paparicada com frequência por Elisinha.

Sidclei, que é parceiro de dança de Marcella Alves, adorou a tatuagem feita pela fã: ‘É uma emoção imensa’, diz o sambista | Foto: Raphael David/Riotur

Pés de mestre-sala da Ilha também viraram tattoo

Conhecido pela simpatia, Phelipe Lemos, que hoje defende o pavilhão da União da Ilha, ganhou uma tatuagem de presente da admiradora Ana Messerde. Ela acompanha o mestre-sala desde que ele dançava pela Imperatriz Leopoldinense.

— Quando conheci o trabalho, fiquei encantada. Depois, comecei a admirar a pessoa. Como gosto de tattoo, a ideia foi amadurecendo e acabei chegando à conclusão de que, além do Phelipe merecer, eu queria o bailado divino dele pra sempre junto de mim — lembra Ana.

A fã de carteirinha tatuou não só os pés do mestre-sala (registrados num dos momentos principais das apresentações, quando ele se equilibra na ponta dos pés), como também a assinatura dele. Um autógrafo “vivo”, registrado no antebraço de Ana.

Ana Messerde é fã do mestre-sala Phelipe Lemos, da Ilha, e tatuou os pés e a assinatura dele | Fotos: Arquivo pessoal

Phelipe ficou sem reação: ‘Não imaginava’

Antes acostumado a surpreender a fã pela receptividade com que costuma acolhê-la, Phelipe foi quem ficou muito surpreso quando soube da tatuagem.

— Quando vi a primeira vez, fiquei sem reação, porque, além do passo, ela também tatuou a minha assinatura. Você nunca vai imaginar que alguém vai fazer uma marca com o seu nome e com os seus pés no próprio corpo. Fiquei muito feliz, a Ana é muito especial, uma grande amiga — conta o parceiro de Dandara Ventapane na União da Ilha do Governador.

Phelipe Lemos ficou surpreso com a homenagem feita pela admiradora | Foto: Leo Cordeiro/Divulgação

Em família de sambistas, sobra homenagem em forma de tatuagem

Para lembrar sempre da arte da filha porta-bandeira, Guiomar Teixeira desenhou uma dançarina nas costas. Uma baita homenagem à primeira porta-bandeira da Renascer de Jacarepaguá, Thainá Teixeira. Primogênito da mãe coruja, Pedro Paulo (toca tamborim na Viradouro), também ganhou destaque na pele dela.

— Amo meus filhos, eles nasceram no Carnaval, me acompanhavam quando eu desfilava. Hoje em dia, meu filho é ritmista, depois de ter passado por comissão de frente, e minha filha começou a dar os primeiros passos como porta-bandeira aos 4 anos de idade — relembra a portelense, orgulhosa da prole.

Amor pela família e pelo samba: Guiomar Teixeira tatuou os filhos, Thainá e Pedro Paulo. Eles atuam, respectivamente, como porta-bandeira e ritmista | Fotos: Arquivo pessoal

Torcedor da Viradouro morre de amores pela escola de Niterói

“Na alegria e na tristeza”. A frase é clichê, mas sintetiza o que Gui Ferreira sente pela Unidos do Viradouro, que está de volta ao Grupo Especial nesta temporada, após ficar um tempo no grupo de acesso (2016 a 2018).

— A escola passava por um momento difícil e eu sempre fui muito apaixonado pela Viradouro e resolvi marcar esse amor na pele, tatuando o brasão da agremiação, mostrando minha paixão independentemente do momento ruim da escola. Eu nem desfilava, assistia da arquibancada, porque morava um pouco longe — comentou o hoje integrante da bateria comandada por mestre Ciça, radiante com a volta por cima da vermelho e branco de Niterói.

Gui Ferreira, torcedor da Viradouro, gravou o amor pela escola de Niterói na própria pele | Foto: Arquivo pessoal

Preparando um desfile em comemoração aos seus 70 anos de história, trajetória que fez surgir inúmeros componentes apaixonados, a Beija-Flor tem no jovem Mateus Pranto, de 22 anos, um dos fiéis escudeiros da azul e branco. O símbolo da atual campeã do Carnaval, um beija-flor, ganhou forma de poesia no antebraço do rapaz.

— A ideia de fazer uma tatuagem surgiu em 2017, só que eu não queria fazer uma qualquer. Procurei representar a ave do pavilhão da escola de maneira única, assim como o meu amor pela agremiação. É um beija-flor no infinito azul aquarelado — detalhou o integrante do projeto social “Sonho de um Beija-Flor”, onde participa como aluno de percussão.

Matheus Pranto tatuou um beija-flor no antebraço: a ave é símbolo principal da azul e branco de Nilópolis, na Baixada Fluminense | Fotos: Arquivo pessoal

Coração gigante: apaixonado pela Unidos da Tijuca e pelas coirmãs

Gabriel Vidal, de 22 anos, é fã de carteirinha da Unidos da Tijuca. Mas o componente da escola não puxou sardinha só pro lado da agremiação nascida no Morro do Borel. Pra não deixar de fora as demais estrelas da festa, ele marcou na costela algo bem genérico: a palavra Carnaval.

— Achei justo representar no meu corpo aquilo pelo qual sou conhecido e que é a minha essência. O Carnaval é a minha terapia emocional — finalizou o folião apaixonado.

‘Carnaval’: o folião Gabriel Vidal resolveu tatuar a síntese do chamado ‘maior espetáculo da Terra’ | Foto: Arquivo pessoal

E você, tem alguma tattoo carnavalesca?

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