Por Kaio Sagaz

Dia desses, Laíla já tinha batido um papo revelador com a reportagem do Sambarazzo. Mas, ao esbarrarmos com o diretor de carnaval da Beija-Flor nesta terça, 16, ao lado de fora do barracão da escola na Cidade do Samba, no Rio, eis que o rumo da prosa acabou virando matéria.

Um dos mandachuvas da azul e branco, ele aproveitou para dar um basta na ala virtual que anda espalhando comentários nas redes sociais de que haja uma briga de egos na escola de Nilópolis. Chateado com o que tem lido e ouvido, foi enfático ao garantir que não há espaço para desavenças. Com 74 anos de idade, 61 deles dedicados à festa, ele fez questão mandar um recado para o mundo do samba.

– Vou deixar bem claro: não perco a minha liderança pra ninguém, e não perco a maneira de solucionar. Se tivéssemos em crise, resolveríamos tudo depois do carnaval – garantiu.

Laíla garante: ‘Não perco a minha liderança pra ninguém’ – Foto: Irapuã Jeferson

“Não tem nova fase porra nenhuma”

A tal vaidade começou a virar assunto fora das dependências da Beija-Flor com a ascensão do jovem Gabriel David (20 anos), herdeiro de Anísio Abrahão David (presidente de honra) dentro da agremiação. Pra turma que adora uma especulação, a juventude e a tradição não teriam chegado a um denominador comum. Mas os dois, em diferentes entrevistas ao site, deixam claro que aliança ainda pode render bons frutos através de um indispensável respeito mútuo.

Mescla entre juventude de Gabriel e experiência de Laíla pode render bons frutos na escola de Nilópolis: ‘Gabriel tem ótimas ideias, lógico que surgem debates’ – Foto: Irapuã Jeferson

– Não tem nova fase de Beija-Flor porra nenhuma, é isso que está todo mundo achando, não tem nada disso. Quando acabou o carnaval do ano passado, eu me reuni com o Seu Anísio e falei pra ele que a criação chegou no limite alegórico, que o povo reclama, a escola reclama e não estamos conseguindo sair disso. Foi quando tentamos contratar o Paulo Barros e o Renato Lage (carnavalescos da Vila Isabel e Grande Rio, respectivamente), e não deu certo. Eu busquei os caminhos. O Gabriel tem ótimas ideias, mas que precisam estar dentro daquilo que a gente sabe fazer. É lógico que em um grupo de pessoas novas, com ideias novas, e eu sendo tradicionalista, surgem debates. Queria mudar, mas mudar com inteligência, e nós tínhamos encontrado o caminho. Houve resistência e algumas coisas nós achávamos que não estava certo. Agora, tudo foi tomando um caminho normal – explicou Laíla, que ainda conta no time que integra a comissão carnavalesca com o experiente Cid Carvalho e o coreógrafo Marcelo Misailidis, que passou a atuar na parte de criação do conjunto alegórico.

“Essa nova forma de fazer harmonia foi obra do papaizinho aqui”

Em 2017, a principal aposta de Laíla foi a reconstrução da dinâmica das alas. Numa iniciativa inédita, ele transformou todos os componentes em parte de uma grande composição teatral – vestiu toda a escola de Indio dentro do enredo “A Virgem dos lábios de mel – Iracema”. Resultado? Nenhuma nota 10 no quesito Fantasias e um sexto lugar no placar geral.

Em 2017, Laíla apostou na troca de alas pelas tribos, se aproveitando do enredo de viés indígena que a escola preparou – Foto: Irapuã Jeferson

– A reconstrução das alas foi mais uma tentativa, e vou continuar esse ano. Uma andorinha só não faz verão. Mas um dia, e não vai tardar, vão ver que estou certo. Porque, ao ver os desfiles, achei que estavam muito iguais. Essa nova forma de fazer harmonia, que hoje se tornou uma loucura, foi obra do ‘papaizinho’ aqui. Vou aproveitar muitas coisas do ano passado, juntando o antigo com o novo – prometeu.

“A Beija-Flor também está em crise financeira”

Quem tem o privilégio de circular pela Cidade do Samba, onde se concentram os barracões de todas as escolas do Grupo Especial do Rio, nota que o cenário é bem diferente de outros carnavais. Faltando menos de um mês para o desfile, muitas escolas ainda sofrem com problemas financeiros e fornecimento de materiais, o que gerou um atraso preocupante nos preparativos para o grande dia de cada uma pisar na Sapucaí. A Beija-Flor, famosa por não passar aperto quando o assunto é grana, também entrou no barco da crise.

– São sessenta e poucos anos de carnaval, foi uma caminhada muito difícil. Em 1968, no Salgueiro, montei o carnaval da escola em um domingo, no Pavilhão de São Cristóvão. Às seis da manhã, tinha oito carretas do Salgueiro lá. Oito! E acabamos de montar na hora do desfile. Cada um tem que saber o que faz. A Beija-Flor também está na crise financeira, nós nunca tivemos carnaval pra estar acabando agora, em cima da hora – concluiu.

A Beija-Flor será a sexta escola a desfilar na Segunda-feira de Carnaval, 12 de fevereiro, fechando os desfiles do Grupo Especial. O enredo é “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”.

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