Baleado em assalto, cantor da Grande Rio sonha virar intérprete oficial

Por Thales Calazans e João Miguel Fernandes

O clima pesado que muita gente acredita estar rondando o Rio de Janeiro e o Brasil desde o início do ano chegou a Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde um dos cantores do carro de som da Grande Rio, Ruan Paiva, de 21 anos, foi baleado no rosto durante um assalto na tarde desta terça, 12.

O crime aconteceu no bairro Pantanal, em território caxiense, a cerca de 7km da quadra da agremiação. Em respeito ao músico, que está internado no Hospital de Saracuruna, o ensaio de hoje foi cancelado — e, enquanto isso, a comunidade aguarda atenta por notícias sobre o quadro de saúde do jovem.

Mais uma vítima da violência que assusta o Rio, Ruan Paiva, de 21 anos, está internado após ter sido baleado num assalto no município em que nasceu, foi criado e onde aprendeu a amar o samba; além de barbeiro, ele é músico e sonha em ser intérprete da Grande Rio | Fotos: Reprodução/Instagram

A energia ligada às tragédias, porém, não é a que costuma reger os passos de Ruan em sua trajetória no samba, conforme contam amigos e familiares. A tia dele, a passista Marisa Furacão, também do elenco da Grande Rio, afirma que o sobrinho tinha o sonho de um dia vir a ser o intérprete oficial da agremiação. Ele começou a frequentar o mundo do samba aos 2 anos, e até ano passado comandava o microfone principal da Pimpolhos da Grande Rio, escola mirim da tricolor (no vídeo abaixo, Ruan aparece cantando, vestido de terno branco).

— O maior sonho dele é ser intérprete oficial na Avenida. Quando foi assaltado, o Ruan estava indo pra aula de canto e a mãe (chamada Mônica) estava com ele. Muitos caras armados chegaram e ele desceu com as mãos pra cima, mas os assaltantes se assustaram e atiraram na cabeça e ele caiu no chão. Ainda ameaçaram atirar de novo, mas a mãe dele gritou pelo contrário e eles foram embora — conta Marisa, que minutos antes do episódio esteve com o sobrinho.

Até as 22h desta terça, o quadro de saúde de Ruan era considerado estável. Os médicos que avaliaram o sambista disseram que ele precisará passar por uma cirurgia para retirar o projétil da cabeça (Marisa acha que a bala atingiu a região abaixo do ouvido) e reconstruir o que for necessário. Antes do procedimento, será preciso esperar que o inchaço da ferida diminua.

Um dos presidentes de honra da Grande Rio, Helinho Oliveira, esteve no Hospital de Saracuruna para acompanhar a família de Ruan e, no local, comunicou aos parentes dele que iria cancelar o treino programado para acontecer na quadra.

Mestre da Grande Rio fazia dobradinha com Ruan: ‘Irmão’

Prata da casa e cria da Pimpolhos, Fabrício Machado (o mestre Fafá), dividia com Ruan a responsabilidade de dar ritmo à trilha sonora dos desfiles da escolinha mirim. Hoje no comando da bateria “Invocada” e prestes a estrear no Grupo Especial, Fafá está preocupado com a recuperação do amigo.

A expectativa era de que em duas semanas eles estivessem se preparando para cruzar a Avenida, um comandando o batuque e o outro integrando a equipe liderada pelo intérprete Evandro Malando. Agora, a incerteza faz o Carnaval parecer mais distante.

— Nos meus anos na Pimpolhos, eu formava dupla com o Ruan liderando a bateria, enquanto ele era o intérprete. Ele é humilde pra caramba e muito trabalhador. Tem um salão, uma barbearia. É um garoto de bom coração, do bem — afirma o mestre, que conversou pela última vez com o amigo na noite de segunda, 11, e esteve hoje no hospital para ter notícias dele.

Mestre Fafá (à esquerda) é amigo pessoal de Ruan. Juntos, eles comandaram a bateria e o carro de som da Pimpolhos da Grande Rio e, agora, se preparavam para desfilar juntos no Grupo Especial | Foto: Reprodução/Instagram

Emerson Dias convidou Ruan para o carro de som

Intérprete da Grande Rio entre 2013 e 2018, Emerson Dias (hoje no Salgueiro) lembra bem do dia que decidiu que Ruan deveria se juntar ao time responsável pelos vocais da agremiação. O líder dos músicos estava distribuindo camisas aos cantores, enquanto Ruan assistia atentamente.

Ruan (o mais alto, à esquerda) foi convidado por Emerson Dias (à direita) para fazer parte do carro de som da Grande Rio | Foto: Arquivo pessoal

Ali, Emerson (que já acompanhava a carreira do adolescente na Pimpolhos) entregou uma das peças para ele e o convidou a fazer parte da equipe.

— Ele vestiu a camisa e eu disse: ‘Parabéns, a partir de agora você também faz parte do carro de som da Grande Rio’. A questão não é somente sobre potencial. Sou da teoria de que escola de samba é lugar pra se aprimorar. Se ele era o cantor da escola mirim, tem que se aprimorar pra assumir , um dia, a escola-mãe. Eu queria que ele começasse a sentir o clima — relembra o mais experiente.