‘Bibi deveria ser homenageada de novo’, diz autor de homenagem à atriz na Sapucaí

Por Redação

Foram fechadas nesta quarta-feira, 13, as cortinas que permitiam ao público acompanhar a brilhante trajetória da atriz Bibi Ferreira, de 96 anos. Ela morreu no Rio de Janeiro, em decorrência de uma parada cardíaca. Entre as principais lembranças dos 80 anos de carreira, está a passagem da diva pela Marquês de Sapucaí, como a grande homenageada da Viradouro no Carnaval de 2003.

Logo que a triste notícia foi divulgada, fotos e relatos do desfile começaram a tomar conta das redes sociais, quase como um último tributo à veterana. O carnavalesco Mauro Quintaes, hoje na escola de samba paulista Dragões da Real, foi um dos que embarcaram no revival.

Bibi Ferreira morreu aos 96 anos nesta quarta-feira, 13. Em 2003, aos 80 anos de idade, ela foi homenageada pela Viradouro em plena Sapucaí. O enredo foi assinado pelo carnavalesco Mauro Quintaes, com sinopse do pesquisador João Gustavo Melo | Foto: Wigder Frota

Entre uma ligação e outra no telefone que não parava de tocar (eram amigos querendo relembrar o enredo “A Viradouro canta e conta Bibi, uma homenagem ao teatro brasileiro”), o artista falou com o Sambarazzo sobre a temporada em que trabalhou para reverenciar Bibi.

— A trajetória dela era tão incrível, que ela deveria ser homenageada de novo. Além de ser merecedora, nós tínhamos mais material para explorar do que setores no desfile! Bibi era impressionante. Tudo pra ela tinha hora e lugar certos — conta Mauro.

Desfile sobre a vida de Bibi passeou pelo teatro, pelo cinema e pela televisão | Foto: Wigder Frota

Muito assertiva, a grande dama dos palcos acompanhou os detalhes dos bastidores que precederam o desfile da vermelho e branco de Niterói. Esteve na quadra do bairro Barreto pelo menos três vezes, uma delas na escolha do samba. E ainda fez questão de conhecer (e aprovar) as fantasias.

— Tinha uma roupa que falava sobre a beleza e utilizava o pavão como referência. Ela não quis, disse que não gostava da figura. E sugeriu que a gente não fizesse essa menção — lembra o carnavalesco.

Mauro Quintaes, hoje carnavalesco da Dragões da Real, está triste com a morte de Bibi: ‘Foi um privilégio prestar a homenagem’, diz o artista | Foto: Reprodução/Facebook/Mauro Quintaes

Gigante não queria parecer baixinha

Escalada para desfilar na última alegoria do desfile (em frente à escultura que representava o próprio pai, o ator Procópio Ferreira), Bibi não queria parecer baixinha enquanto estivesse no alto do carro. Ao encomendar o figurino a Mauro e a um estilista, ela fez questão de que cada detalhe fosse milimetricamente planejado — tudo à altura dos seus 1,57m e, naquela época, 80 anos de muita experiência.

— Ela era muito pequenininha e estipulou pra gente que era preciso ter uma geometria. Queria que o decote do vestido estivesse alguns centímetros abaixo do ombro para que ela parecesse maior. E pediu uma elevação de 15cm, onde subiu, com o vestido correndo por fora. Ela já chegou com aquela arquitetura preparada — rememora Quintaes, que trabalhou na Viradouro até 2015.

Bibi desfilou à frente de uma escultura do pai, Procópio Ferreira, e tomou cuidado para não parecer baixinha | Foto: Reprodução/Facebook/Mauro Quintaes

Bibi não acreditava em campeonato

Apesar da comoção causada pelo desfile (o pesquisador João Gustavo Melo, autor da sinopse do enredo, conta que o tema mobilizou os componentes da escola mais do que o comum), Bibi não acreditou que a apresentação poderia ser declarada campeã do Carnaval na Quarta-feira de Cinzas.

Antes mesmo da apuração, ela se adiantou em dizer a Mauro Quintaes que a agremiação deveria apenas ficar entre as seis primeiras colocadas e desfilar novamente no Desfile das Campeãs, sem embarcar no clima de “já ganhou” que tomou conta dos torcedores. A atriz estava certa: no fim da contagem das notas, eles ficaram em sexto lugar.

— Ela disse: ‘Certamente, nós não vamos ganhar’. Teve essa visão de que voltaríamos nas Campeãs, mas não sairíamos vitoriosos. Em meio à euforia que nós da Viradouro tínhamos, ela defendeu: ‘Não, nós não vamos ganhar’. Estranho, né? Porque tudo pode acontecer no Carnaval. Mas ela estava certa — pontua Mauro, orgulhoso de ter deixado a musa inspiradora daquele ano “satisfeita e emocionada”.

Ensaios teatrais religiosos

Acostumada com a rotina de trabalho entre camarins e coxias, Bibi se recusava a faltar aos ensaios do teatro (dois dos grandes sucessos dela foram as peças Gota D’água e Piaf), mesmo quando deveria comparecer a um dos compromissos da Viradouro.

No evento que marcaria a apresentação dos enredos das escolas naquele ano (tradicionalmente, a Liga Independente das Escolas de Samba realizava a festa na casa de shows Canecão, na Zona Sul do Rio), ela se recusou a deixar o Teatro João Caetano, no Centro, até ser convencida pelo empresário Nilson Raman.

— Ela disse que não iria porque nunca tinha perdido um ensaio na vida. Fiquei um pouquinho zangado e pedi ao Nilson para tentar fazê-la mudar de ideia. Bibi chegou, entrou no palco contrariada e achei que isso podia atrapalhar um pouco nossa apresentação. Respirou fundo, começou a falar e mostrou que sabia tudo, incluindo a data de fundação da Viradouro. Saiu aplaudida, voltou a ficar emburrada e foi para o ensaio de novo — narra Quintaes.

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