Por João Paulo Saconi

De terno rosa, a bateria Furiosa do Salgueiro vai cruzar a Sapucaí ano que vem deixando de lado um pouco de sua “fúria”. É que dentro do enredo sobre a malandragem, a vermelho e branco vai levar para o desfile a sensibilidade da travesti Geni, personagem do musical “A Ópera do Malandro”, da clássica canção “Geni e o Zepelim” (Chico Buarque), que estará representado na pista de desfiles pelos 270 ritmistas de mestre Marcão.

Ritmistas da vermelho e branco estarão de rosa no desfile de 2016, como o ator Eduardo Landim, indicado ao Prêmio Bibi Ferreira na categoria ator revelação, pela atuação como o travesti Geni, no musical "A Ópera do Malandro" - Foto: Reprodução/Site A Broadway é Aqui/Cláudio Martins
Ritmistas da vermelho e branco estarão de rosa no desfile de 2016, como o ator Eduardo Landim, indicado ao Prêmio Bibi Ferreira na categoria ator revelação, pela atuação como a travesti Geni no musical “A Ópera do Malandro” – Foto: Reprodução/Site A Broadway é Aqui/Cláudio Martins

A ideia não teve a adesão total da bateria de imediato, no entanto a maioria dos percussionistas topou na hora o desafio de dar o tom da festa vestida de rosa.

– Já assisti a peça e gostei. A bateria vir vestida de Geni é algo moderno, você não veria isso em uma bateria de escola de samba antigamente. Ainda tem quem fale “eu sou homem e não vou me vestir de mulher”, mas isso está acabando. Quando a escola me passou a ideia, eu disse para a presidente (Regina Celi) e o diretor de carnaval (Dudu Azevedo) que não poderia falar pelos ritmistas. Fiz uma reunião com eles e fiquei surpreso porque 70% toparam. Quando vamos a um bloco e nos vestimos de mulher, é uma sátira. Ninguém é mais ou menos homem por isso, foi bem aceito – conta Marcão.

Bateria do Salgueiro já desfilou fantasiada de policiais do Bope 

Bateria Salgueiro 2011_Foto Adriana Lorete_Riotur
Em 2011, a bateria salgueirense entrou no Sambódromo vestida como os policiais do BOPE – Foto: Adriana Lorete/Riotur

Na montagem teatral, Geni é uma travesti que a princípio é hostilizada por ser considerada inútil, mas ganha destaque quando um general de um Zepelim, um dirigível, resolve atacar a cidade e só desiste da ideia porque se apaixona pelo personagem. Depois de salvar a pátria, Geni volta a ser desprezada e é tema da canção “Geni e o Zepelim”, consagrada nos versos “Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir!”.

– É um bordão bem famoso. Não costumo ouvir sempre a música, mas conheço. Minha preocupação com a fantasia é sempre não deixar que ela atrapalhe no ritmo. Somos os primeiros a entrar e os últimos a sair da Avenida, não podemos desfilar com muito peso. Dou palpite, sugeri a fantasia do BOPE em 2011, quando teve o desfile do “Rio no Cinema” – revela Marcão. Naquele ano, a fantasia da bateria também deu o que falar, pois alguns ritmistas declararam ter tido dificuldades de circular pelo morro fantasiados de policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais.

Em 2016, o Salgueiro vai ser a segunda escola a desfilar, na Segunda-feira de Carnaval, com o enredo “A Ópera dos Malandros”, dos carnavalescos Márcia e Renato Lage.