Quem vê as comissões de frente do coreógrafo e dançarino Carlinhos de Jesus na Avenida, mal pode imaginar que várias de suas ideias nascem do conforto que o sambista encontrou em um ambiente especial na sua cobertura triplex, no bairro de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao lado da piscina, ele criou um espaço particular em que costuma construir as próprias criações.

– Aqui já escrevi e desenhei comissões. A dos bambas (da Mangueira, em 1999) fiz sentado aqui, vendo uma porrada de vídeos. É meu espaço de trabalho. Se a porta estiver fechada, ninguém entra, porque tô trabalhando. Aqui deito, durmo, cochilo, sonho – conta Carlinhos, ao abrir sua moradia, onde vive há 35 anos, para o Sambarazzo.

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Relaxado! Em seu futton, que fica ao lado da piscina da cobertura em que mora, Carlinhos de Jesus aproveita o conforto e a vista do bairro de Copacabana para criar as suas comissões de frente. Na imagem, ele recorda os trabalhos que fez para a Mangueira | Foto: Irapuã Jeferson

O lar de Carlinhos e da mulher, Raquel, foi praticamente feito sob medida para o casal. É que ao comprarem o imóvel, o prédio nem tinha sido construído, mas o maridão não abriu mão de cuidar para que cada detalhe dos três andares do apê saísse conforme o desejado por eles.

– Eu morava perto, então passava todo dia por aqui porque eu fazia meu pilates. Por semana, eles construíam um andar. Foram treze semanas passando e eu olhava, olhava… Foi angustiante. Consegui uma autorização pra subir. Aqui em cima tinha só o miolo, tijolo e piso. Contratei um arquiteto pra fazer o desenho. Fui na prefeitura pedir autorização, mostrei a planta. A obra levou mais um tempo e me mudei pra cá – relembra o artista, que antigamente morava na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte do Rio.

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Do meu jeitinho! Carlinhos não abriu mão do próprio conforto e, ao comprar a cobertura de três andares em Copa, contratou um arquiteto para imprimir o próprio gosto e o da mulher no lar, doce lar | Foto: Irapuã Jeferson

Coreógrafo ainda preserva o quarto do filho, que morreu em 2011

Embora tenha eleito o futton ao lado da piscina como o seu espaço favorito na casa, Carlinhos não esquece de um cômodo especial: o quarto do filho, Carlos Eduardo de Jesus, o Dudu, morto com oito tiros em um episódio violento, em novembro de 2011, no bairro de Realengo, na Zona Norte.

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No quarto do filho, assassinado em 2011, Carlinhos guarda com carinho e lembrança os dois cavaquinhos que Dudu usava em suas apresentações | Foto: Irapuã Jeferson

A perda precoce do filho, que tinha 32 anos e ainda morava com o pai, deixou de lembrança o quarto de Dudu, que permanece intacto até hoje. Entre as paredes azuis do aconchegante lugar, o coreógrafo fala abertamente da saudade de seu primogênito.

– Ele era músico e tocava cavaquinho. Já pensei em aprender a tocar por causa dele – revela o paizão, que tem uma outra filha, a Tainah de Jesus.

 

 

Paixão pelo bairro de Copacabana inspirou a vista das janelas do quarto do casal

Acordar todos os dias com uma vista panorâmica de um dos maiores cartões postais do Rio é um privilégio para poucos, como Carlinhos e Raquel. Desde que se casaram, há 35 anos, eles se mudaram para “Copa” e não saíram mais do famoso bairro.

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Com a linda vista do quarto que divide com a companheira Raquel, seria difícil Carlinhos de Jesus acordar mau humorado | Fotos: Irapuã Jeferson

O bairro também não saiu mais da vista de Carlinhos, já que as janelas do quarto dele, que fica no terceiro andar da cobertura, foram planejadas para permitir uma visão panorâmica de toda a extensão das belezas de Copa.

– Amo o bairro. Me atrai esse grande caldeirão que é Copacabana. Você desce aqui e você vê de tudo. É um bairro democrático. Tem a rua efervescendo, tem a ciclovia, tem o mercado aberto 24h por dia. Tudo meu funciona aqui, só a academia (de dança, do qual é dono) que é em Botafogo e o bar (outro empreendimento) que é na Lapa – diz.

Na tela da TV, no meio desse povo! Carlinhos tem uma televisão em cada cômodo

O hábito que Carlinhos desenvolveu diante da televisão faz caber o mundo dentro do apartamento. É que ele é telespectador ávido dos noticiários mais importantes do país e, para não perder nenhuma notícia, colocou uma televisão em cada cômodo da casa:

– Não durmo, não deito sem uma televisão. Celular tudo bem, mas tirar a televisão, não. É o horário que tenho livre. Acaba o jornal das dez, vem não sei o quê, depois vem reprise. Todos os lugares da casa têm televisão. Vejo os telejornais em geral. Da Globo, da Band, às vezes da Record. Adoro jornal.

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Fotos: Irapuã Jeferson e Divulgação/TV Globo

Entre os programas favoritos, além dos noticiários, está o talk show do apresentador Jô Soares, da TV Globo. O “Programa do Jô” é o predileto de Carlinhos, que já teve a oportunidade de ser entrevistado na atração.

– Já dei entrevista pro Jô. Até dancei com o Jô. Fui no aniversário do programa, e a gente dançou improvisado. Se a gente tivesse ensaiado, não daria certo – lembra.

Coleção?! De roupas: de show, de sair e de ficar em casa e de… chapéus!

Além das televisões, as roupas também tomam conta da cobertura do coreógrafo e dançarino. É que Carlinhos possui dois closets, um com os figurinos que utiliza nas apresentações que faz pelo Brasil e pelo mundo e outro que divide com a mulher e onde ficam as roupas para o cotidiano.

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Parece uma enorme coleção, mas os dois closets reúnem apenas as roupas que Carlinhos utiliza para dançar e também as peças que ele e a mulher vestem no dia a dia | Fotos: Irapuã Jeferson

Entre todas as peças, se destacam os chapéus do dançarino, que ele começou a usar quando encenou um musical de Chico Buarque.

– Eu fiz uma montagem de “A Ópera do Malandro” e usava um chapéu. Acabei gostando e, de lá pra cá, sempre uso – afirma.

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Carlinhos já encenou o musical de Chico Buarque, que hoje inspira o enredo do Salgueiro, e desde então não tirou os chapéus da cabeça | Foto: Irapuã Jeferson

Por João Paulo Saconi