Carnavalesco da Mocidade foi menino de rua

Por Rodrigo Bertolucci

No ano em que a Mocidade completa 60 carnavais, levar a verde e branco de Padre Miguel à conquista de mais um título em 2016 não será o maior desafio na vida de Edson Pereira. Filho de uma humilde família de nordestinos, o carnavalesco de 37 anos, nascido e criado numa comunidade em Bangu, na Zona Oeste do Rio, sabe bem o que é enfrentar dificuldades.

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Edson viveu nas ruas e praças de Copacabana por quase dois anos: “Não tenho vergonha do meu passado. Me dignifica” – Foto: Irapuã Jeferson

Obrigados pelo pai a trabalhar para ajudar no sustento da casa, ele e os 25 irmãos precisaram encarar muitos obstáculos na infância. Edson saiu de casa aos 15 anos e se mudou para a Zona Sul carioca. Mas o hoje bem-sucedido carnavalesco não estava melhorando de vida. Na esperança de conquistar um lugar ao sol, ele deixou a família para morar nas areias de Copacabana.

Longe dos holofotes da Passarela do Samba e sem a alegria habitual da festa de Momo, Edson decidiu viver um dia de cada vez, mas sempre com algum otimismo, apesar da fome e do frio. Sobreviver na praia mais famosa do país nunca foi tarefa fácil. Para se alimentar, contava com as sobras de comida deixadas por clientes de quiosques, “benefício” concedido a ele caso desse uma ajuda na limpeza das mesas.

– Eu esperava o pessoal se servir pra, depois, varrer e passar o pano. Como sempre fui educado, acabava conseguindo uma gorjeta. Não tenho vergonha do meu passado. Isso me dignifica – afirma o artista, que em vez de carros alegóricos luxuosos estreou no batente, ainda criança, faturando alguns trocados com carinhos de rolimã, que usava para carregar compras de quem saía do supermercado.

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Hoje bem-sucedido, o carnavalesco que sonhava ser porteiro caminha pelas areias que por muito tempo serviram de cama – Foto: Irapuã Jeferson

Edson sonhava ser porteiro para ter onde morar

Morar na rua, na adolescência, representou a liberdade para ir em busca do sonho de se tornar um artista. Ele foi colocado para fora de casa pelo próprio pai, que o obrigava a trabalhar para ajudar em casa, e que não aceitava o fato de o filho tentar a sorte na carreira artística.

– As condições financeiras da minha família eram muito precárias, por isso meu pai nos obrigou a trabalhar cedo. Era muita criança dentro de casa, e acabava batendo em mim e nos meus irmãos por tudo ser motivo de estresse – lembra Edson, que era aluno de escola pública e, aplicado, tirava boas notas em geografia e história da arte.

Edson, aliás, sempre soube aproveitar as oportunidades. Em Copacabana, ele fez dos finos grãos de areia da praia o material que precisava para começar a exibir sua arte: passou a fazer esculturas no espaço que as pessoas usam para se bronzear e, com isso, começou a ganhar algum.

Para tomar banho, ele precisava contar com a boa vontade de garçons que o deixassem frequentar o banheiro dos restaurantes. Àquela altura, um sonho: arrumar emprego de porteiro, para ter onde morar de graça.

– Foram quase dois anos na rua. Foi ali que estipulei metas para alcançar o meu sonho, mesmo com as dificuldades – revela o carnavalesco, que nos dias de chuva se abrigava sob as marquises dos edifícios de Copa.

Dos tempos na rua, ele recorda uma passagem triste.

– Um Natal me marcou muito. Olhar ao lado e ver todas as pessoas com suas famílias e eu ali, sozinho, foi dolorido. Nesse mesmo dia, mais tarde, minha mãe saiu lá de Bangu para me procurar nas ruas de Copacabana e me achou, para ir à casa dela. Minha mãe não podia fazer muito, já que obedecia o meu pai, mas deixou eu passar a ceia lá, com ela e meus irmãos – relata o artista, emocionado.

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No calçadão, Edson lembra que trocava a limpeza das mesas dos quiosques por sobras de comida – Foto: Irapuã Jeferson

Após muito sufoco, Edson foi pedreiro, mecânico e pintor de automóvel. Foi quando viu na Lona Cultural Hermeto Pascoal, em Bangu, no início da década de 1990, a oportunidade de crescer como artista e passou a estudar pintura de arte com um cenógrafo da TV Globo. Em pouco tempo, virou assistente do professor que o ensinava e começou a desenvolver cenários de novelas e outras produções da emissora, como “O Rei do Gado” e “Planeta Xuxa”. Foi neste período que Edson foi selecionado para ajudar a dar cores e formas ao Carnaval carioca.

– Eu sonhava em respirar arte e foi essa a chance que a vida me deu. Integrei a equipe do Clécio Regis, que também atuava com cenografia de novelas, teatro e cinema, e trabalhei como pintor de arte na União da Ilha do Governador e na Imperatriz Leopoldinense. Uma escola de vida – destaca Edson, que pisou pela primeira vez num barracão de escola de samba ao visitar a União da Ilha do Governador, aos 14 anos.

Da vida dura nas ruas para um emprego na Globo

Outra referência para o ex-menino de rua foi o carnavalesco Chico Spinosa, que também trabalhava na Globo e assinava os figurinos da cantora Rita Lee.

– Ele foi muito importante para mim. Me deu muita força – agradece.

E falar de Edson Pereira é, para Chico Spinosa, uma honra. Ele ressalta o talento nato do artista, desde a adolescência.

– Eu o vi chegar, pela primeira vez, aos barracões da União da Ilha. Num grupo de pintores que na época já trabalhava com Carnaval, ele se sobressaiu. Deus colocou no nosso meio esses talentos para aprendermos – enfatiza Spinosa, acrescentando que a história de vida de Edson é um belo exemplo de superação.

Aos 19 anos, Edson resolveu voltar a investir em arte e foi ao Projac, complexo de produção da Globo em Jacarepaguá, na Zona Oeste, em busca de melhores oportunidades. Após encarar uma bateria de testes, foi contratado e começou a pagar a faculdade de Belas Artes. Em pouco tempo de universidade, surgiu a chance de trabalhar como desenhista e pintor de arte em escolas de samba.

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Tempos difíceis! Edson usou as areias da praia para fazer esculturas e faturar algum para se alimentar – Foto: Irapuã Jeferson

E foi aí que Edson, finalmente, tirou a sorte grande: como figurinista, conheceu Dona Ester de Almeida, uma importante destaque de carros alegóricos da época, que funcionou como uma espécie de anjo da guarda do artista. Com shows marcados em Nova York, ela o convidou para trabalhar nos Estados Unidos por quinze 15 dias.

– Quando cheguei lá, achei que, para sobreviver, iria limpar banheiro. Mas não. Dona Ester me incentivou e me ajudou. Consegui viver da arte – diz.

Diagnóstico errado fez Edson pensar que tinha câncer

Em território americano, foi aprovado numa entrevista para projetar o cenário de uma exposição de uma importante marca de cosméticos. Com a conclusão do trabalho, a surpresa: um pomposo cachê de U$ 5 mil dólares. Além do dinheiro, a mostra rendeu ao artista um convite para produzir todos os eventos promovidos pela então primeira-dama dos Estados Unidos, Hillary Clinton.

Mas um diagnóstico médico incorreto, que o fez acreditar estar com câncer, interrompeu os planos de permanência na América do Norte. Edson, então, retornou ao Brasil, trazendo na bagagem o dinheiro guardado. A quantia foi suficiente para dar uma casa de presente para a mãe, que vivia em condições precárias numa favela carioca.

Os carnavalescos Alexandre Louzada e Edson Pereira
Venceu na vida! O experiente e vitorioso Alexandre Louzada, que vai assinar com Edson o desfile da Mocidade de 2016, elogia o colega: “Grande artista” – Foto: Irapuã Jeferson

Convidado a dividir com Alexandre Louzada a função de assinar o Carnaval de 2016 pela Mocidade, Edson, que é ainda o carnavalesco da Unidos de Padre Miguel (Série A, antigo Grupo de Acesso), também ganha elogios de Louzada:

– Acompanhei ele como figurinista e, depois, como carnavalesco. Quando o encontrei na Mocidade, Edson foi apresentado como diretor artístico. Mas, conhecendo o trabalho dele, o convidei para dividir o posto de carnavalesco da escola. Ele é um grande artista, com larga experiência, e com uma história de vida intensa.

Morando atualmente numa casa própria em Campo Grande, Edson Pereira não esquece os tempos difíceis. Por isso, com o que ganha no Carnaval, ajuda financeiramente alguns orfanatos. E, mesmo tendo condições de pagar uma água de coco e um bom peixe frito num quiosque de Copacabana, ele evita voltar ao bairro onde viveu na rua.