Por Redação

O Carnaval carioca segue surpreso pela pretensão do prefeito Marcelo Crivella de cortar pela metade a subvenção da prefeitura às escolas de samba – a verba cairia de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão a partir deste ano. A retração do valor seria, na proposta do chefe do executivo, para aumentar o investimento nas diárias pagas, por criança, às creches privadas conveniadas com a prefeitura. De acordo com levantamento feito pela própria Riotur, o Carnaval de 2017 movimentou R$ 3 bilhões na economia carioca. Em impostos, a prefeitura lucrou com a expressiva movimentação.

A proposta fez a Liesa suspender os desfiles até que haja uma reunião com o político e a posição dele seja revista.

Durante as eleições municipais de 2016, Crivella se reuniu com líderes do Carnaval e teve adesão à sua campanha, principalmente no segundo turno. Algumas escolas anunciaram apoio aberto ao então candidato; a Liesa se manteve neutra à época, assim como outras agremiações.

Crivella recebeu apoio de alguns dirigentes na campanha, como Chiquinho da Mangueira (de verde) – Foto: Edivaldo Reis/PRB

Artistas da festa, carnavalescos do Grupo Especial sentem o clima de incerteza no ar diante da redução e ainda pela suspensão dos desfiles feita pela Liesa, que considera inviável apresentar o espetáculo sem 50% do aporte vigente.

Cid Carvalho, da Beija-Flor, argumenta que as receitas geradas pelo Carnaval seriam, na verdade, a grande possibilidade para Crivella de fato investir nas áreas que julgasse prioritárias. Na opinião do artista, o discurso do político não tem base sólida. Sem encontrar fundamento na argumentação orçamentária do prefeito, Cid acredita que a religião do chefe do executivo – bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus – deve ter pesado na decisão.

– Acho que a matemática é uma ciência exata, contra os números não se pode construir argumentos, e os números mostram a verdade. O Carnaval é extremamente lucrativo pros cofres da cidade do Rio de Janeiro. Se não há discussão quanto a isso, qual a justificativa de cortar investimentos de algo que é rentável, que dá lucro pra cidade. É, no mínimo, contraditório. Não há nenhuma justificativa inteligente pra fazer esse tipo de proposta. Então, a gente começa olhar pra outro lado. É a religiosidade que está sendo colocada em prática numa cidade, num país que é laico? Não contra a religião do prefeito, nada contra os seguidores do prefeito. O respeito que eu exijo para a minha crença, é o mesmo respeito que eu dou para a dos outros Não se pode misturar administração pública com religião, isso é um absurdo. Por que mexer nisso? Se esse investimento lá na frente vai se transformar em verba para o prefeito e sua gestão usar nas áreas que ele bem entender. Por que colocar em risco um evento que vai ajudá-lo para administrar em termos financeiros – opinou.

Carnavalesco Cid Carvalho, da Beija-Flor – Foto: Irapuã Jeferson
“Tenho muita pena desse pensamento do prefeito”, diz carnavalesco da Mangueira

Carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira questionou a visão de gestão de Marcelo Crivella sobre a festa. Para ele, falta ao político um olhar mais amplo sobre os significados do Carnaval.

– Eu tenho muita pena desse pensamento do prefeito. Na verdade, o prefeito tem tido um comportamento que demonstra que ele não entende absolutamente nada de Carnaval. O pensamento dele sobre o Carnaval carioca, sobre o desfile das escolas de samba, é um equívoco. Porque ele não olha para o desfile com o olhar de administrador. O carnaval rende quase 30 mil empregos indiretos, é uma produção que começa em maio, é um ano inteiro fazendo carnaval – disse Leandro Vieira à Rádio Arquibancada.

Foto: Irapuã Jeferson

Procurado pela reportagem do Sambarazzo, o carnavalesco Paulo Barros, da Vila Isabel, preferiu não se manifestar abertamente e deixou a polêmica de lado.

– Prefiro me calar. Já me julgam pelo o que eu falo, imagine se souberem o que penso – resumiu.

Marcus Paulo, da Unidos da Tijuca, resolveu protestar contra a decisão de Crivella com bom humor. Através das redes sociais, ele tem propagado imagens dos desfiles para quem sabe demover o prefeito da ideia de cortar pela metade a subvenção.

 

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