Por Redação

Cheia de críticas para distribuir Sapucaí afora, a São Clemente vai reeditar em 2019 o tema que rendeu à escola sua melhor colocação no Grupo Especial: o 6º lugar, em 1990. O enredo intitulado “E o samba sambou…” ganhará nova roupagem pelas mãos do carnavalesco Jorge Silveira, autor da sinopse lançada pela agremiação neste domingo, 10.

A amarelo e preto da Zona Sul promete ironizar as viradas de mesa nos resultados do Carnaval, a transmissão televisiva do espetáculo, as rainhas de bateria que pagam para desfilar, os sambas de escritório, entre outras polêmicas. Nem o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, já satirizado pela Mangueira, deve escapar da mira clementiana no ano que vem.

O presidente Renato Almeida Gomes, o Renatinho, contou que a ideia da reedição nasceu antes mesmo do desfile deste ano, num bate-papo entre ele, o irmão Roberto Almeida Gomes (vice-presidente da São Clemente) e o carnavalesco. Mesmo com a alfinetada a Crivella, a proposta é fugir dos “temas políticos” que permearam os desfiles da Beija-Flor e da Paraíso do Tuiuti, as duas primeiras colocadas em 2018.

— O brasileiro já está muito magoado com a política. Queremos algo alegre, que valorize o Carnaval e o sambista. Nenhum político é merecedor de nada. Já estamos nas mãos deles, não temos que dar mais cartaz.  Nosso enredo tem tom de deboche, como pede a festa. É um verdadeiro resgate do estilo São Clemente, do que construímos em nossa história — afirmou Renatinho, que já colocou a escola para bater panelas contra a corrupção num enredo sobre palhaços, desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães.

Irreverência a perder de vista! Enredo da São Clemente para 2019 (logo oficial acima) não deixa pedra sobre pedra no mundo do Carnaval. Escolha foi do presidente Renatinho (foto), do irmão Roberto Almeida Gomes e do carnavalesco Jorge Silveira  | Foto: Rafael Arantes/Divulgação

Resultados do Carnaval na berlinda

Uma das críticas mais expressivas feitas pelo enredo da São Clemente remete às viradas de mesa nos resultados do concurso promovido pela Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa. Nos últimos dois anos, a instituição resolveu não rebaixar escolas para a Série A do Carnaval carioca. Em 2017, acidentes envolvendo alegorias da Unidos da Tijuca e da Paraíso do Tuiuti foram o motivo e a Mocidade foi a única agremiação a votar contra o não-rebaixamento. Um ano depois,  alegando o mesmo motivo após ser rebaixada por problemas com uma alegoria, a Grande Rio liderou um movimento para que ela e o Império Serrano ficassem no Especial.

A permanência, decidida em plenária da Liga, contou com o apoio de 12 das 14 escolas votantes, inclusive da São Clemente e de ofícios assinados pelo prefeito Crivella e pelo governador Luiz Fernando Pezão. O presidente de honra da Grande Rio, Helinho de Oliveira, disse em entrevista ao vivo ao Sambarazzo que “Quem tem amigo não morre pagão!”, em referência à ajuda prestada pelos votos das coirmãs. A frase do dirigente repercutiu amplamente nas redes sociais e acabou citada na sinopse da São Clemente.

“No jogo do amor e do samba não tem regras: ou se tem, depende. Cartas na mesa, mesa virada. E o amor ao samba? Ah, camarada… Tudo tem seu preço e seu apreço. Quem tem padrinho não morre pagão! O brado retumbante de 90 ecoou com tanta força que se fez profecia: E o Samba Sambou…”, diz o trecho de abertura do texto.

Pivô do rebaixamento, alegoria quebrou na concentração e atrapalhou desfile da Grande Rio. Após o resultado, o carro virou protagonista no debate para confirmar ou não o rebaixamento de duas escolas | Foto: Michele Iassanori/Sambarazzo

Sem perdão a Crivella

Por não ter cumprido, em duas ocasiões diferentes, o ritual de entrega das chaves da cidade ao Rei Momo e à corte carnavalesca, o prefeito Marcelo Crivella também foi mencionado pela São Clemente na nova sinopse de “E o samba sambou…”. Ainda que o nome da autoridade não tenha sido incluído no texto, não é difícil identificar a referência ao episódio bastante conhecido do povo carioca e chamado de “pecado mortal” pela escola.

“Já começa errado quando a autoridade não reconhece que no carnaval quem manda é Momo! Não entregar a chave a Sua Majestade é um pecado mortal pros súditos da folia”, diz outro trecho da sinopse.

Após não ter aparecido no evento em 2017, o prefeito Marcelo Crivella até participou da solenidade este ano. Mas foi das mãos de Marcelo Alves, presidente da empresa pública de turismo (Riotur), que o Rei Momo recebeu as chaves da cidade | Foto: Alexandre Macieira/Riotur

Não poupou ninguém! Excesso de credenciais, festa nos camarotes, gringos e famosos não escaparam

A lista é longa. Excesso de credenciais ao Sambódromo e à pista de desfile cedidas a “aspones”; ritmos sertanejo e eletrônico ecoando dos camarotes; gringos aos montes ocupando as arquibancadas; famosos que roubam o foco dos sambistas; e a transmissão da TV Globo, chamada na sinopse de “toda poderosa”, que fez com que as escolas precisassem diminuir o número de alegorias e o tempo de desfile desde o ano passado.  Nada disso escapou do radar da São Clemente, que tenta dar conta de quase todas as controvérsias que envolvem os desfiles na atualidade, assim como fez em 1990. Na época, a escola criticou a perda das tradições por causa da dança das cadeiras entre profissionais do samba e do ego de carnavalescos, destaques e dirigentes.

A TV,  que já foi protagonista do enredo  de 2013 da São Clemente sobre as novelas, será ironizada por conta da transmissão dos desfiles das escolas de samba feita pela TV Globo desde a década de 1970 | Foto: Tata Barreto/Riotur

No ano que vem, ao criticar até os sambas-enredo de escritório (em geral, obras assinadas pelos mesmos compositores que concorrem em concursos de diferentes agremiações ao mesmo tempo), a São Clemente desfilará com a mesma trilha sonora de 28 anos atrás, composta por Helinho 107, Mais Velho, Nino e Chocolate.

Confira abaixo o samba que a São Clemente levou para a Sapucaí em 1990!

Leia também a íntegra da sinopse da São Clemente para 2019:

E o Samba Sambou.

No jogo do amor e do samba não tem regras: ou se tem, depende. Cartas na mesa, mesa virada. E o amor ao samba? Ah, camarada… Tudo tem seu preço e seu apreço. Quem tem padrinho não morre pagão! O brado retumbante de 90 ecoou com tanta força que se fez profecia: E o Samba Sambou…

Da mesma forma que disse em 90, não sou dono da verdade. Também cometi meus pecados. A mesa virada tem lá minha digital. Assumida. Mas peixe pequeno frita mais rápido que peixe graúdo. Tá dado meu recado. Porém, jocoso que sou, faço piada de mim mesmo. Aliás, tenho isso correndo nas veias: meu DNA foi construído apontando o dedo em riste e sambando na cara da sociedade. Meu histórico me credencia. Basta olhar meu manancial.

Esse de 90 tem um molho especial. Nunca antes na história dessa república se fez tão necessário reviver esse discurso. O planeta samba virou de ponta cabeça, inverteu a ordem, subverteu a lógica. Infelizmente, tudo que foi dito, de fato aconteceu (quiçá piorou!). E não tem jeito, tá na minha raiz primeira. No meio desse turbilhão, eu não podia faltar ao enfrentamento. Já que o recado não foi ouvido da outra vez, vamos novamente ser “fieis” à nossa conduta e largar o chumbo grosso!

Luz, câmera, negociação: tá no ar mais um espetáculo na tela. É fantástico! O sambista dá lugar a vedete da internet, que usa o GRES para ser manchete. Uma aparelhagem tecnológica digna de cinema ganha mais importância que o gingado generoso da mulata. Não tem jeito: virou Hollywood isso aqui. Mil artistas de verdade, que riscam o chão com sua herança, tem menos espaço na lente da câmera que atriz/apresentadora/promoter. Que sacanagem…

Já começa errado quando a autoridade não reconhece que no carnaval quem manda é Momo! Não entregar a chave a Sua Majestade é um pecado mortal pros súditos da folia. Na pista, ganha o interesse: nossos símbolos culturais são substituídos pelo estrangeirismo barato. E como tem gringo no samba! Camarada, você não imagina o poder de uma credencial: é tanto aspone na avenida que parece que tem duas escolas desfilando ao mesmo tempo. No ritmo do samba moderno, uma correria contra o relógio; um verdadeiro “coopersamba”! E o povão…? É, esse ficou de fora da jogada. Nem lugar na arquibancada ele tem mais pra ficar. A grana entope os camarotes de sertanejo, música eletrônica e de todo tipo de som, menos o próprio dono da festa: o samba. Que mico minha gente… Olha o que o dinheiro faz!

E por falar na grana, hoje a rainha paga pra sambar. Um verdadeiro dote de privilégios. Cadê as meninas da comunidade riscando o asfalto? Tudo tem seu preço e seu apreço camarada… elas fazem tudo para aparecer na tela da TV, no meio desse povo! E a mídia “toda poderosa” controla tudo a seu bel prazer. Até mesmo a opinião pode ser comprada! Como não? Até o samba é dirigido com sabor comercial. Tem que ser registrado, carimbado, protocolado no escritório: uma verdadeira exportadora de “bois-com-abóbora”.

E o samba vai se vendendo às vaidades, sendo usado como plataforma pra fulano, beltrano e quem mais quiser seus 15 minutos de fama. Que covardia… Carnavalescos e destaques vaidosos transformam a Sapucaí num verdadeiro ringue aos seus insaciáveis egos. E o samba vai perdendo a tradição…

Mas eu sempre avisei. Eu sempre falei. E você sabe disso: o boi voou e denunciou a roubalheira, a galhofa, a bandalheira. Era profecia de uma chacota nacional. Eu, pequenino, quase rodei esse ano, triste feito um cão sem dono. Mas como “quem casa quer casa”, tô apaixonado pelo lugar que conquistei. “Não adianta jogar água malandragem”, “eu mato a saúva antes dela me matar”.

Temos que cuidar do samba. Segurar essa mesa no lugar. Caso contrário, nem povão na arquibancada vamos ter mais pra nos aguardar, afinal “Quem avisa amigo é”.

Temos que segurar firme essa onda. Pelo amor que temos ao samba, vamos preservar esse “antigo reduto de bambas”, para que as gerações futuras possam ainda curtir o verdadeiro samba.”

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