Por Luiz Felippe Reis

Ácida na crítica, a Mangueira versão 2018 não vai deixar passar em branco a decisão do prefeito Marcelo Crivella de cortar metade da subvenção direcionada às escolas de samba – caiu de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão. E pra quem imaginava que a verde e rosa destilaria meras indiretas ao político – bispo licenciado da Igreja Universal -, é bom se preparar porque a escola está decidida a usar e abusar da ironia para questionar as atitudes recentes do governante em relação à festa, através de “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, de Leandro Vieira.

Nesta segunda-feira, 9, a Estação Primeira tomou a decisão de mudar um trecho da letra do samba recém-eleito, dos compositores Lequinho, Júnior Fionda, Alemão do Cavaco, Gabriel Machado, Wagner Santos, Gabriel Martins e Igor Leal. O refrão principal, que resume bem o espírito do enredo, ganhou o acréscimo do verso “Sou universal”.

Anteriormente, o refrão principal, como de costume nas obras, repetia fielmente os versos nas duas passadas. Agora, o refrão se dividiu e, na repetição dos versos, “sou Universal” substitui ‘Não me leve a mal’.

 

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o Carnaval!

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o Carnaval!

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o Carnaval!

Eu sou Mangueira meu senhor, sou Universal
Pecado é não brincar o Carnaval!

 

Carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira gostou da mudança na letra, proposta pela diretoria da verde e rosa, e aproveitou pra explicar que se trata de um deboche à Igreja de onde Crivella é bispo licenciado. A intenção é bem clara: dar nome e sobrenome ao pivô de toda confusão envolvendo os acontecimentos recentes.

– Eu achei ótimo que tenha partido da direção. Mostra que a direção não está conivente a nenhum tipo de bom-mocismo. A ideia é dar nome e sobrenome para quem o recado é dado, dizer diretamente do que se trata. É um deboche. Um samba crítico que tem a pegada do enredo, e a mudança quer enfatizar isso, quer dizer que a gente tá falando para um bispo licenciado da Igreja Universal que parece que não deixou o púlpito para administrar a cidade, que é uma cidade plural. A mudança é pra dizer que quem é universal é a Mangueira, quem é universal é o samba, universal é a liberdade de expressão. Universal é cultura popular de uma cidade. Universal é o espírito livre das ruas. O recado é claro: UNIVERSAL é a Mangueira e o que ela representa para a cultura desse país. O samba da Mangueira é um recado que declara que universal é o que cada um carrega enquanto a sua verdade. Se ele vai gostar, eu não sei. Mas se fosse pra ele gostar, a Mangueira faria o enredo sobre Sansão e Dalila. A mudança só deixa o samba mais ajustado com o discurso da Mangueira de 2018 – disse Leandro.

Carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira curtiu a mudança na letra do samba: ‘É um deboche. A mudança só deixa o samba mais ajustado com o discurso da Mangueira’ – Foto: Maria Zilda e Henrique Matos

“Eu sou a Universal” é um slogan da denominação religiosa de Bispo Macedo, tio de Crivella, exposta em comerciais normalmente veiculados na Record TV – que é comandada pelo líder religioso – e em emissoras de rádio.

Confira a letra completa do samba

Chegou a hora de mudar
Erguer a bandeira do Samba
Vem a luz à consciência
Que ilumina a resistência dessa gente bamba
Pergunte aos seus ancestrais
Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira

Outrora marginalizado já usei cetim barato
Pra desfilar na Mangueira

A minha escola de vida é um botequim
Com garfo e prato eu faço meu tamborim
Firmo na palma da mão, cantando laiálaiá
Sou mestre-sala na arte de improvisar

Ôôô somos a voz do povo
Embarque nesse cordão
Pra ser feliz de novo
Vem como pode no meio da multidão

Não… Não liga não!
Que a minha festa é sem pudor e sem pena
Volta a emoção
Pouco me importam o brilho e a renda
Vem pode chegar…
Que a rua é nossa, mas é por direito
Vem vadiar por opção, derrubar esse portão, resgatar nosso respeito
O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a Estação Primeira

Se faltar fantasia alegria há de sobrar
Bate na lata pro povo sambar

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o Carnaval!

Eu sou Mangueira meu senhor, sou Universal
Pecado é não brincar o Carnaval!

Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Alemão do Cavaco, Gabriel Machado, Wagner Santos, Gabriel Martins e Igor Leal.
Intérpretes: Ciganerey e Péricles

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