Dudu Nobre fala sobre preconceito em disputas de samba: ‘Pensam como se fosse um feudo’

Por Redação

Campeão de sambas por escolas como Mocidade, Viradouro e Unidos da Tijuca, o sambista Dudu Nobre tem na trajetória – entre vitórias e derrotas – diversas disputas de sambas-enredo no Rio e em São Paulo. Nas competições, o artista já viveu bons e maus momentos, mas uma sensação, invariavelmente, se repete.

Intérprete de músicas que pegaram na veia como “A grande família” e “Vou botar teu nome na macumba”, o sambista resolveu olhar pra origem e regressar às disputas de sambas-enredo, mas a recepção dos adversários nem sempre é das melhores. É que, ao Sambarazzo, o compositor revelou que, por onde se lança, costuma receber uma certa resistência por parte de alguns compositores, que não se sentem à vontade, muitas vezes, em competir com um nome famoso e reconhecido na música brasileira. É o preço da fama.

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Preço da fama! Dudu Nobre sobre disputas de sambas-enredo: ‘Junta todo mundo contra quem vem de fora’ – Foto: AgNews

– Perdi alguns sambas na maioria das vezes por causa do meu nome. Por mais que eu seja Mocidade Independente de Padre Miguel, eu sempre falo das escolas que ganhei samba nas escolas mirins. Salgueiro, Vila, Império e Mocidade são as escolas que eu tenho raiz, cresci ali. Com 5, 6 anos, eu ficava em pé com a minha mãe vendo a Vila Isabel ensaiar na (Boulevard) vinte e oito de setembro. Meu pai me levava pro Império Serrano junto com Beto Sem braço. No Salgueiro, eu praticamente morei no Morro do Salgueiro, lá na casa da família Serra, do pai do Almir Guineto, do mestre Louro. A Mocidade, pô, eu cresci na família Oliveira, de onde saiu Jorjão, mestre Jonas, minha tia Gracinha. Você bota o samba, perde o samba, vendo que o samba era o melhor, e de repente o povo fala: ‘Pô, perdeu porque não tem raiz aqui dentro”. Sabe? As pessoas defendem o samba-enredo como se fosse um feudo, as escolas viram um feudo, as pessoas querem ficar ali. Se vier alguém de fora, junta todo mundo contra quem vem de fora. Mas não vê que vindo uma pessoa de fora, são novas ideias, novas formas de fazer. Cada escola tem uma característica. Não dá pra fazer samba na Mocidade pensando no Salgueiro. Não pode fazer pra Beija-Flor, pensando na Tijuca. O estilo vem da bateria, do andamento, do intérprete. Tem que pensar em tudo. Cada lugar tem uma característica. Disputei samba-enredo em São Paulo, tenho que aturar que sou o Dudu Nobre, que sou carioca, que sou famoso… trato todo mundo bem, vou com a minha caneta e meu cavaquinho e vamos lá – comentou Dudu Nobre, que no ano passado venceu a disputa de samba na Unidos de Vila Maria na terra da garoa.

“Vem cá, vocês não têm vergonha, não? Vocês têm um oceano, e vêm aqui pegar o nosso copo d´água”, disse um compositor veterano ao encontrar Dudu Nobre e Xande de Pilares

Dudu e Xande
Xande e Dudu Nobre já venceram um punhado de disputas de sambas nos últimos anos, mas não escapam das cutucadas dos compositores mais antigos da escolas – Foto: Irapuã Jeferson

Não é novidade que todo compositor é bem criativo. E, até na hora de recriminar, a turma que arrebenta com a caneta na mão usa a engenhosidade para definir e reclamar das participações de artistas famosos na disputa, como Dudu Nobre e Xande de Pilares, que há dois anos ouviram uma pérola de um experiente compositor.

– Em todos os lugares é assim. Eu estava na porta do Salgueiro em 2014 com o Xande de Pilares. Ele tinha vencido no Salgueiro, e eu na Mocidade. A gente estava batendo papo, de repente chegou um senhor, daqueles bem antigos, virou pra gente e falou: ‘Vem cá, vocês não têm vergonha, não? Vocês têm um oceano, e vêm aqui pegar o nosso copo d´água’. As pessoas pensam como um feudo. E não é. Aquilo ali é um espaço aberto pra qualquer compositor. Qualquer um que queira fazer, vai lá e põe. O barato do samba-enredo é aquela coisa. Por mais que o cara tenha muito dinheiro, não adianta o cara botar R$ 200 mil reais lá, se tiver um samba muito melhor, não tem jeito – reconhece Dudu, que, no Rio de Janeiro, venceu na Unidos da Tijuca em 2016, num dos melhores sambas do ano.

Por falar nas vitórias, Dudu Nobre lembra das que considera mais marcantes. Mocidade, Tijuca e Viradouro fazem parte da lista.

– Tem enredos que causam, dão aquela paixão. ‘Pernambucópolis’ foi muito bacana, o próprio enredo da Tijuca, que foi criticado por falar do agronegócio, mas pela ideia de falar do homem do campo foi muito bacana. Gostei muito de fazer aquele samba, um samba que tem uma linha tradicional que me agrada. O samba que a gente fez que a Viradouro subiu, o Guanabaran, foi bom demais, tanto que no outro ano recebi propostas pra fazer, e as pessoas pediam: ‘Quero que você faça um Canta Viradouro’. Na quadra, a gente olhava e falava ‘Cara…’. Ninguém queria o samba, só o presidente (Gustavo Clarão). No dia, ele deu e ninguém ligou muito… Mas ele disse que o samba faria a escola subir, o que de fato aconteceu – recorda o compositor, que recentemente abriu um estúdio na Barra da Tijuca e faz uma promoção especial aos sambistas.

Dudu Nobre e Zé Paulo passaram pela Avenida comemorando o sucesso do samba composto | Foto: Sambarazzo
O sucesso arrebatador do samba da Unidos da Tijuca em 2016 foi um dos grandes momentos de Dudu Nobre na Avenida –  Foto: Sambarazzo

Já que elogiou o presidente da Viradouro é fácil imaginar que a parceria campeã da Tijuca vai seguir em busca do bicampeonato. Dito e feito. Os dois já organizam o time que vai entrar  novamente no páreo das obras para embalar o Carnaval 2017 na escola do Borel. Dudu Nobre deve aceitar nos próximos dias uma proposta para fazer um samba-enredo no Acesso.

– Eu e Gustavo Clarão, a gente tá fechando o resto do time, conversando com duas parcerias que estavam querendo juntar com a gente. Acesso estão rolando algumas conversas, uma que tá 99%, pessoal me assedia há muito tempo. Escola que sempre tá nas cabeças pra subir, mas infelizmente não sobe, tá quase, quase mesmo – conta Dudu.

Dudu fala sobre saída da Mocidade e chegada na Tijuca: ‘Entornou o caldo’; ‘A gente sabe chegar na casa dos outros’

Independente na identidade! Na temporada 2013/2014, Dudu Nobre se dedicou integralmente à Mocidade e venceu a disputa de samba-enredo da escola com “Pernambucópolis” – Foto: Rafael Arantes

A ligação mais forte de Dudu Nobre é mesmo com a Mocidade. Aos 17 anos, o jovem compositor se aventurou com mais quatro colegas – entre eles Pretinho da Serrinha, hoje comentarista dos desfiles na TV Globo – e tentou a sorte grande na verde e branco. E, mesmo sem investimento, conseguiu levar o samba-enredo até as semifinais. Após anos de afastamento, ele voltou em meados de 2013 para ajudar a pentacampeã da festa. De tão engajado na escola, virou diretor musical e funcionou como elo da antiga diretoria do presidente Paulo Vianna com a comunidade de Padre Miguel.

– A Mocidade fez um desfile muito ruim no ano do Rock In Rio, e era a grande cotada pra cair em 2014. E a minha irmã e o Andrezinho falaram que a gente tinha que voltar, não pra ser salvador da pátria. Mas logicamente fui perguntar se estava tudo bem de voltar, e aí foi dito que seria muito bom. Aí, voltei. Tive a felicidade de fazer um samba que foi muito bom, enredo maravilhoso, Pernambucópolis, um enredo que deixava o compositor livre pra fazer, o Paulo Menezes (carnavalesco) foi muito feliz, e a gente fez o samba. Criamos um refrão pra resgatar a identidade. Virou até torcida organizada. Na gravação, fiz o clipe, chamei o Lenine, aquela coisa de ‘Vamos virar esse jogo’. Chegaram pessoas que não iam há 10, 15 anos na escola. Aí, vieram as mudanças. Faltando uma mês, houve as mudanças na escola. Virei diretor musical. Pra disputar o samba, me afastei do cargo e deixei condicionado de após a disputa se quisessem que eu voltasse a ser, eu voltaria. Mais na frente a gente iria conversar. Duas semanas depois, nomearam outra pessoa. Depois, o Andrezinho saiu, a minha irmã (porta-bandeira Lucinha Nobre) também, por questões financeiras. A gente tem que receber. A gente vive de arte. O profissional do Carnaval tem que ser respeitado, do mesmo jeito a costureira, o soldador, o ferreiro. A garota ficou oito meses sem receber, com prêmios de 2014 por receber. Ela tinha atrito lá, saiu, e eu perdi o samba, e em 2016 o caldo entornou. E aí, não tinha como ficar na Mocidade… Não tô aqui reclamando, perder faz parte do jogo. Não concordo com o samba que ganhou em 2015. Adoro todos da parceria. Mas não concordei. E logo depois o Gustavo me chamou pra fazer o samba com ele na Tijuca – sintetizou Nobre.

Dudu Nobre Tijuca
Timaço! De casa nova, Dudu Nobre chegou e venceu, ao lado dos parceiros – Gustavo Clarão, Paulo Oliveira, Claudio Mattos e Zé Paulo Sierra -, o samba da Tijuca no enredo “Semeando Sorriso, a Tijuca festeja o solo sagrado” – Foto: Reprodução/Instagram

A curta história, por enquanto, de Dudu Nobre com a Tijuca tem sido bastante feliz. Um samba-enredo que já ficou marcado na vida e na carreira do sambista.

– Muita gente fica com o pé atrás, não gosta, mas a escola de uma maneira geral me recebeu muito bem. É lógico que um ou outro olhava meio torto, mas a gente sabe chegar na casa dos outros. Eu participo intensamente. Vou aos ensaios. Sabia que não seria como na Mocidade. Na Mocidade, eu fazia tudo. Participava de tudo, orientava, falava. Lá na Tijuca, eu participava, e, se perguntado, eu iria falar. Eles pensavam que eu iria ganhar e abandonar a escola. Eu não. Só não fui a dois ensaios de rua, fui em ensaio com um chuva. Fazia tempos que a Tijuca não tinha um grande samba, praticamente desde 2003. Os três sambas mais falados eram Tijuca, Imperatriz e Salgueiro. E depois o samba da Portela, que surpreendeu na Avenida. Foram os quatro sambas do Carnaval. Fazia tempo que a Tijuca não tinha um samba bem comentado – finaliza.

Em 2014, Dudu Nobre venceu as disputas na Mocidade, na MUG (de Vitória-ES) e na Viradouro. Ano passado,  venceu na MUG de novo e, em 2016, foi tri na MUG e venceu na Unidos da Tijuca.