Por Redação

Não estranhe se você estiver nas arquibancadas do Sambódromo no ano que vem e notar que o terceiro par de mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos do Sossego, que desfila pela Série A, é formado por um casal de… homens. É isso mesmo!

Anderson Oliveira da Silva, de 38 anos, será anunciado no próximo domingo, 19, como o novo defensor do pavilhão da agremiação do Largo da Batalha, em Niterói. Homossexual assumido, ele conta ao Sambarazzo que se denomina como “porta-bandeira homem” e defende que a posição que passará a ocupar é legítima e respeitosa às tradições do Carnaval.

— Não estou fugindo de tradição nenhuma. Antigamente, as porta-estandartes eram homens. O presidente da escola (Wallace Palhares) me ligou e quis saber se eu topava o desafio. Eu disse que ele era maluco e estaria peitando todo o Carnaval, mas ele insistiu. Eu cresci na folia, não tenho medo da exposição e estou disposto a lidar com todos os flashes virados pra mim. Não sou cuzcuz, não morro abafado — afirma o ocupante do posto de porta-bandeira, que ganhou o apelido de Anderson Morango quando acompanhava Giovanna Justo, outra representante do segmento, nos eventos da Mangueira.

Anderson Oliveira da Silva será a terceira porta-bandeira da Acadêmicos do Sossego | Foto: Reprodução/Facebook

“Não me via dançando de salto alto e de peruca”

Embora seja a primeira vez em que Morango vai rodopiar pela Marquês de Sapucaí, ele já fez bastante sucesso na Estrada Intendente Magalhães, no Campinho, Zona Norte do Rio, onde se apresentam os grupos de acesso. Em 2016, se apresentou como segunda porta-bandeira da Embalo Carioca.

— Sou bem rapazinho. Costumo dizer que a personagem tem prazo de validade e acaba junto com a dança. Sei que não posso ser primeira porta-bandeira por conta da força, mas só quero dançar. Comecei observando a Giovanna e percebi que queria mesmo era estar neste lugar. Não me via dançando de salto alto e de peruca, mas foi acontecendo e os meus amigos me ajudaram — explica Anderson, que é gay desde os 15 anos e, quando não está vestido com roupas femininas, prefere ser tratado com termos masculinos.

Moranguinho, como é conhecida pelos sambistas, conta com a ajuda de amigos e admiradores para se produzir antes dos eventos de Carnaval | Fotos: Reprodução/Facebook

Queda de braço com mestres-salas

Poucas horas após o anúncio da Sossego nesta quarta, 15, o burburinho em torno do tema tomou os grupos de Whatsapp e comentários do Facebook. Nas redes sociais, as opiniões ainda são tímidas e bastante divididas, mas muitas delas já chegaram aos ouvidos de Anderson. Sem papas na língua, ele sabe exatamente o que pensa sobre as críticas.

— Representantes do segmento ligaram para o presidente para dizer que ele tá acabando com a tradição. A questão é que muitos deles (dos casais) fazem comércio e vivem daquele pedaço de pano. Eu não preciso disso, tenho meu trabalho. Pesquisei e sei que não estou fugindo das tradições. Existem mestres-salas que rodam como mulheres ou que são vistos em boates gays beijando outros caras. E alguns deles estão me criticando sem se olhar no espelho. Isso é feio. Deveriam colocar uma saia igual eu faço, é mais bonito — rebate o cabeleireiro, que vive no bairro do Engenho Novo, na Zona Norte do Rio.

Questionado se os apontamentos sobre a conduta dos colegas de ofício não eram preconceituosos, Morango se explicou:

— Não sou contra nada. A dança não tem sexo e nem gênero. O jurado não julga nada disso. A época do mestre-sala malandreado e ogro foi em 1900 e bolinha. Hoje, eles têm mesmo é que soltar o lado feminino e mostrar uma boa mão, uma boa perna e exibir postura. Se não for assim, não ganham nota.

Anderson, que já foi mestre-sala da Mocidade de Vicente de Carvalho, tem opiniões bem definidas sobre o ofício | Fotos: Reprodução/Facebook

 

Parceiro tem apenas 17 anos e ganhou permissão da mãe

O responsável por dividir os holofotes com Anderson Morango será o jovem mestre-sala Wladimir Bulhões, que tem só 17 anos e irá enfrentar o desafio de participar do episódio inédito e um tanto polêmico. A preocupação da porta-bandeira com o bem estar do parceiro de dança foi grande e levou Anderson a conversar com a mãe do sambista mais novo.

— Ele é um menino muito jovem, por isso fui pedir a permissão da mãe. Ele é ótimo e abraçou a ideia tranquilamente — relata.

Vilma Nascimento e Maria Helena apoiam a ideia, diz porta-bandeira

Tentando não dar ouvidos aos que discordam da ideia, Anderson já avisou em seus perfis nas redes sociais que não vai deixar de bailar por causa das críticas. Parte da segurança que ele sente é originada do apoio que diz ter recebido da lendária porta-bandeira portelense Vilma Nascimento e também de Maria Helena, referência no quesito pela Imperatriz Leopoldinense.

— Tenho apoio de Vilma Nascimento e Maria Helena. Ou seja, abaixo a cabeça pra quem eu tiver que abaixar. Conversei com a Vilma e ela me instruiu a vestir uma saia, um corselet e a usar uma anágua por baixo da saia, que não pode ser curta, já que sou homem. Ela me ensinou, com carinho, a como fazer tudo bem feito — acrescenta ele, que também diz ter sido bem recebido pelo primeiro casal da escola, formado por Marcinho Souza e Thayanne Loureiro.

“Existe uma bicha por trás de toda porta-bandeira”

Ainda segundo Morango, as porta-bandeiras, em geral, possuem uma ligação muito estreita com o mundo LGBT:

— Existe uma bicha por trás de toda porta-bandeira. Quem vê essas mulheres acordando sem produção sai correndo. Precisam de uma bicha pra ajudar a prender o cabelo, a passar maquiagem e a ensinar como se portar. Em minha estreia, neste domingo, estarei vestida como porta-bandeira, maquiada e com um penteado no cabelo — adianta Anderson, que ganhou palavras de apoio da amiga Giovanna Justo e uma mala repleta de saias doadas pela porta-bandeira Raphaela Caboclo.

Anderson é amigo da porta-bandeira Giovanna Justo e a acompanhou durante dez anos como membro do time que a apoia durante as apresentações | Foto: Reprodução/Facebook

Presidente da Sossego defende a ideia: “Os gays dão brilho à festa”

Cria de uma família com raízes no samba (o pai foi compositor da verde e branco do Império Serrano e a mãe era componente da Mangueira), a porta-bandeira Anderson Morango acredita que o Carnaval precisa dar mais espaços a pessoas como ela.

— As pessoas gostam muito dos gays trabalhando nos barracões, fazendo carro alegórico e fantasias. Por que não podemos ter um diretor de bateria gay, que tenha talento? Um diretor de harmonia gay? A gente tem que abrir espaço! O carnaval tem seus próprios preconceitos. Por que o gay só pode ser carnavalesco, destaque ou passista? — questiona.

O presidente Wallace Palhares faz coro ao pensamento e afirma que o objetivo da Acadêmicos do Sossego é, de fato, se diferenciar das demais agremiações.

—  Estamos tentando fazer tudo diferente. Não queremos repetir soluções e buscamos o caminho contrário. Estamos batendo na tecla da liberdade, seja ela religiosa ou pra que as pessoas sejam exatamente aquilo que querem ser. Se a pessoa se reconhece como mulher, tudo bem. Quem dá o brilho ao espetáculo são os gays. Pelo menos 30% ou 40% das pessoas do Carnaval são gays. Eles não têm a atenção e o holofote que merecem, as pessoas camuflam demais — diz o dirigente.

Wallace Palhares, presidente da Sossego, explica os motivos que o levaram a convidar Anderson Morango para o posto de porta-bandeira: “Os gays não têm o holofote que merecem” | Foto: Rafael Arantes/Sambarazzo

Representantes do segmento estão divididos

Comumente defensores do tradicionalismo, os casais de mestre-sala e porta-bandeira não parecem ter uma opinião formada sobre o assunto. Em 2017, por exemplo, quando uma passista da Unidos da Tijuca gravou um vídeo dançando de biquíni e conduzindo um pavilhão foi bastante criticada pela maioria dos dançarinos e acabou sendo convidada a se retirar da escola. Neste novo episódio, a postura deles é um pouco mais cautelosa.

— É sensacional, mas é uma situação que requer cuidado. Eu, pessoalmente, acharia mais bonito se fosse um gay mais afeminado, com traços mais femininos pra defender o pavilhão . Porém, não me incomoda que os gays estejam ocupando vários espaços, inclusive o de porta-bandeira. Já vi a Moranguinho dançar e ela é muito forte pra segurar a bandeira e a fantasia. Ela vai ter algumas vantagens. De qualquer forma, estarei lá pra aplaudir — avisa Lucinha Nobre, que defende o pavilhão da Portela.

Lucinha Nobre, da Portela, gostaria de ver um homem gay mais afeminado como porta-bandeira | Foto: Felipe Araújo

“Prefiro não opinar”, diz Selminha Sorriso

Selminha Sorriso, da Beija-Flor, foi pega de surpresa com a novidade e vai esperar mais um pouco até formular uma conclusão.

— Prefiro não opinar. Conheço o Moranguinho e o admiro como pessoa, mas ainda não sei o que pensar sobre ela nesta função — disse a parceira do mestre-sala Claudinho.

Selminha Sorriso, da Beija-Flor de Nilópolis, confessa que ainda não sabe o que pensar | Foto: Irapuã Jeferson

“Acho errado”, frisa mestre-sala da Ilha

Para o mestre-sala Phelipe Lemos, da União da Ilha, a sacada não é positiva porque transmitiria uma falsa ideia de qualquer um pode ser capaz de ocupar a função.

— Acho errado. Existe uma tradição e é sabido que a primeira pessoa a ser uma porta-bandeira foi um homem. Mas depois disso, a tradição veio se firmando com mulheres sendo as defensoras e o homem como capoeirista, depois baliza e, em seguida, mestre-sala. É um assunto que abrange muitas causas. É legal pra mostrar que o samba não tem preconceitos. Eu, inclusive, não me considero preconceituoso. Mas, na minha humilde opinião, não vejo porque um homem sustentar uma bandeira — argumenta o mestre-sala, que também é amigo de Anderson Morango e diz já ter dançado como casal, de brincadeira, ao lado do colega.

Phelipe Lemos, que defende o pavilhão da União da Ilha com Dandara Ventapane, não concorda com a escolha de Anderson para o posto de porta-bandeira | Foto: Reprodução/Facebook

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