Eles perdem o samba e a cabeça! Compositores lembram surtos após derrotas

Por Luiz Felippe Reis e Rafael Arantes

Quando o presidente pega o microfone para anunciar a parceria campeã numa disputa de samba-enredo os ânimos dos compositores ficam à flor da pele. Na vitória, festa! Já na derrota… Difícil é encontrar um sambista que se conforme, de cara, com um desfecho negativo num concurso que define a obra que será cantada na Avenida no Carnaval seguinte.

Sambarazzo, que adora uma final de samba, foi atrás de relatos de autores que levaram a pior e acabaram reagindo mal ao ver que a música que fizeram não foi a preferida. Entre as histórias, um pouco de tudo: choro, decepção e alguns excessos. Já teve compositor rasgando dinheiro ao ver um concorrente se dar bem numa competição, acredita? Também teve derrotado jurando de pé junto que nunca mais voltaria a pisar numa determinada escola de samba. Ele não só mudou de ideia de cortar o vínculo pra sempre, como ainda retornou à mesma agremiação como presidente.

Rumo ao Carnaval 2012, Paulo Onça chegou a quebrar um carro após perder o samba na Grande Rio | Foto: Reprodução Facebook
Quebra tudo! Compositor da Grande Rio, Paulo Onça chegou a quebrar um carro após ser derrotado | Foto: Reprodução Facebook

Compositor rasgou R$ 1000 e quebrou um carro

Entre os protagonistas de um desses ataques de fúria, está o compositor Paulo Onça. Ainda comemorando a vitória na disputa de samba da Grande Rio para o Carnaval 2017, quando a tricolor vai homenagear a cantora Ivete Sangalo, ele lembra que nem sempre o final foi feliz e que já deu vexame na hora de lidar com a perda.

Onça guarda na memória uma das reações mais bizarras que já teve num concurso de samba-enredo. Foi na mesma Grande Rio, mas em 2012. Assim que tomou conhecimento de que a obra escolhida não seria a de sua autoria, o sambista, num ato de desespero, rasgou dinheiro, literalmente. Ele tinha nas mãos R$ 1000, mas saiu picotando a grana, que havia recebido de um patrocinador do samba que compôs. E a revolta não parou por aí. Indignado por ser derrotado, mesmo sendo amparado por amigos, perdeu a linha de vez e quebrou um carro ao sair furioso da quadra. Nem os policiais que acompanhavam a cena, segundo Paulo Onça, acreditavam no que viam.

– Foi no ano da ‘superação’ (o enredo da Grande Rio naquele ano era ‘Eu acredito em você! E você?’). Antes do presidente anunciar o vencedor, um cara chegou pra mim falando que eu tinha perdido o samba. Olha, eu fiquei revoltado, viu? Quem era o cara pra me dar uma notícia dessas? Eu sei que na hora eu peguei os R$ 1000 reais e rasguei. Uma amiga veio desesperada pra cima de mim tentando me acalmar e salvar o dinheiro. Mas eu rasguei no meio, fiquei revoltado! E depois ainda acabei quebrando a porta do carro novinho de um amigo. O ônibus passou e levou. Essa foi fogo. Quando tentaram me acalmar, até os PMs acharam que estavam me sequestrando, de tanto que eu me debatia – revela Paulo, que hoje diz estar mais centrado.

Dez vezes campeão na São Clemente, Helinho 107 chegou a escrever uma carta de despedida, mas não aguentou e voltou a disputar | Foto: Reprodução Facebook
Dez vezes campeão na São Clemente, Helinho 107 chegou a escrever uma carta de despedida, mas não aguentou de saudade e voltou a disputar samba | Foto: Reprodução Facebook

“Quando a gente perde, não adianta. Ninguém se conforma”, admite compositor

Faz 36 anos desde a primeira vez que Helinho 107 participou de uma disputa de samba na São Clemente. Ele já acumula 10 vitórias e apenas um ano afastado do concurso. Mesmo com o recorde de conquistas na escola da Zona Sul carioca, o compositor já chegou a escrever uma carta de despedida após perder um samba na escola do coração.

– Coloquei samba na São Clemente a primeira vez em 1984 e ganhei um troféu de compositor revelação. Sempre fui apaixonado por carnaval e isso é um alimento pra mim. Ganhei algumas vezes, perdi outras… Mas quando a gente perde, não adianta: na hora da emoção ninguém se conforma. Ano passado, prometi por tudo que não disputaria mais. Falei que não estava aguentando, que isso mexia muito no emocional, e até uma carta de despedida fiz. Mas nada adiantou, esse ano estava lá de novo – confessa Helinho.

Da revolta à presidência

Outro que tem história inusitada pra contar é o portelense Serginho Procópio. O sambista admite que, na hora de uma derrota, as reações são as mais inesperadas e inadequadas possíveis. Ao sair perdedor, anos atrás, ele deixou a quadra em Madureira esbravejando e fez como Helinho 107: afirmou, categoricamente, que nunca mais voltaria à escola que escolheu torcer. Ele não só retornou às dependências da Portela anos mais tarde, como ainda foi presidente da azul e branco. Concorreu na eleição de 2013 e ganhou a disputa com o então presidente Nilo Figueiredo, derrotado com uma diferença de três votos.

– Olha, já teve muita coisa que aconteceu. Teve uma vez que fiquei tão revoltado que tirei a minha camisa dentro da quadra e não consegui mais achar depois. Estava chovendo muito e eu, sem camisa, querendo ir embora. Até para pegar um táxi foi complicado. Algumas disputas que participei foram injustiças tão grandes que eu jurava não voltar mais pra escola. Cheguei a ficar anos afastado, mas não se deve levar em conta o que falamos na hora de uma derrota. As coisas depois vão acalmando, a gente vai vendo que não vai conseguir ficar longe e, devagarzinho, tudo volta ao normal. O amor sempre fala mais alto e acho que essa foi uma das coisas que provei quando me tornei presidente – argumenta Procópio.

Depois de jurar não voltar mais na Portela após perder uma disputa, Serginho Procópio virou presidente da escola | Foto: Reprodução Facebook
Virada do destino! Depois de jurar não voltar mais na Portela após perder uma disputa, Serginho Procópio virou presidente da escola | Foto: Reprodução Facebook

Noca da Portela não engoliu derrota em 1978

Quem também tem casos de sobra pra citar é Noca da Portela, que este ano acabou expulso da Velha Guarda da escola por causa de uma confusão na final de samba, que terminou em briga. Assim como este ano, em 1978 o experiente compositor viu o samba que criou sair derrotado da competição. Mas conta que não ter sido o vencedor do concurso de quase quatro décadas atrás foi motivo de surpresa pra todo mundo que estava na quadra. Ele diz que o povo acabou cantando a obra de autoria dele, e não a consagrada campeã.

Após perder a disputa em 1978, Noca viu seu samba ser cantado por todos os presentes na quadra da Portela | Foto: Divulgação
Derrotado este ano na Portela, Noca não esquece a tristeza de 1978, quando também levou a pior na disputa de samba-enredo da escola | Foto: Divulgação

– Olha, eu lembro bem de 1978. Fiquei muito triste quando saiu o resultado, mas todo mundo que estava na quadra começou a cantar o meu samba. Foi incrível e comecei a chorar de tanta emoção. Parece bobeira, mas as pessoas que estavam ali da escola sequer entenderam o que estava acontecendo. Todo mundo queria nossa vitória – afirma Noca, que ainda não fez as pazes com a Portela.

Nem sempre é triste o fim

Enquanto alguns se revoltam e demoram a digerir o sentimento de perda, outros tiram de letra a derrota e mantêm uma linha mais pacífica ao anúncio do resultado. Foi o que ocorreu no Salgueiro este ano, quando a parceria de Marcelo Motta, campeã pela segunda vez consecutiva, viu seus adversários reagirem muito bem, obrigado.

– Eu nunca tive uma reação assim, de revolta, nunca pensei em fazer besteira. Costumo dizer que assim que a disputa acaba, ganhando ou perdendo, já começo a pensar no ano seguinte. E no Salgueiro o clima tem sido muito legal mesmo. Até pelo fato de termos uma final entre amigos mais uma vez. Neste ano, estava na final com o Dudu Botelho, o Demá Chagas e o Luiz Pião. O Dudu foi o meu primeiro parceiro na disputa da escola, o Demá foi a pessoa que me fez entrar para a ala de compositores e o Luiz estava comigo e com o Dudu no ano de Candaces (enredo de 2007), onde ganhamos juntos. Até mesmo o Antônio (parceiro de Demá) já é um querido por nós. Então aqui o inusitado acaba sendo essa reação positiva entre todos – analisa o compositor, que já ganhou em seis oportunidades.

Final entre amigos não deixa clima esquentar no Salgueiro | Foto: Reprodução Facebook
Clima não esquentou! Final entre amigos não deixou ânimos se exaltarem no Salgueiro | Foto: Reprodução Facebook

*Foto de capa: Reprodução/Facebook (Paulo Onça); Irapuã Jeferson/Sambarazzo (Serginho Procópio); Divulgação (Noca da Portela) e Lia Amorelli/Jornal Ritmo Carioca (Helinho 107)

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