Por Luiz Felippe Reis

Mais revolucionário dos carnavalescos, capaz de sacudir as estruturas da festa na última década e acostumado aos títulos e a criar carnavais memoráveis, Paulo Barros foi além dos prêmios especializados ou troféus. Ele ganhou a eternidade nesta quarta-feira, 22, no prestigiado Museu da Imagem e do Som, no Centro do Rio.

É que ele foi o convidado da série “Depoimentos para a posteridade” e entrou numa seleta lista, que conta com nomes marcantes da história cultural e artística brasileira, como as lendas da música Ary Barroso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Ivan Lins, Lamartine Babo e Vinicius de Moraes; os gênios dos palcos como Chico Anysio, Dercy Gonçalves, Fernanda Montenegro e Oscarito; os craques Pelé e Zico, bem como os renomados escritores Guimarães Rosa e Millôr Fernandes. Para citar mais algumas figuras de peso que receberam tamanha honraria, o político Luiz Carlos Prestes e o arquiteto Oscar Niemeyer. No Carnaval, Renato Lage, Rosa Magalhães, Laíla e Natal da Portela são algumas personalidades que merecidamente já se eternizaram pelo MIS.

PB eterno! Paulo Barros gravou depoimentos para o MIS e entrou em galeria de respeito de artistas que contribuíram para a cultura brasileira – Foto: Irapuã Jeferson

Em quase cinco horas de depoimento, Paulo Barros falou sobre o início da trajetória no Carnaval, lembranças do passado e experiências adquiridas ao longo dos 25 anos como artista da festa mais popular do mundo, até a consagração. Ele também respondeu a perguntas dos integrantes da mesa, que se formou com os jornalistas Marcos Uchôa, da TV Globo, e Alice Fernandes, editora do Sambarazzo; o presidente da Portela, escola de Barros até 2017, Luís Carlos Magalhães, a mestre em letras Isabel Azevedo, da Casa da Ciência, instituição parceira nos trabalhos de pesquisa dos enredos apresentados por ele na Sapucaí, e Rachel Valença, pesquisadora e vice-presidente do MIS, que mediou o encontro.

– Quando eu recebi esse convite, eu falei assim… Nossa. Um depoimento desse pro MIS, uma entidade dessa. Uma fala minha que vai ficar guardada pra todo sempre. Fiquei muito feliz, dei uma tremida na base. E é bom  também pra poder falar um pouco mais, que às vezes a gente não tem oportunidade de falar. Meu trabalho é baseado no amor, no que eu gosto, e eu espero que vá pra eternidade essa paixão, que ela continue pra sempre, é isso que eu espero – declarou Paulo, logo após o encerramento do encontro, que poderá ser consultado no acervo do museu já a partir da próxima semana.

Presidente da Portela, Luís Carlos Magalhães foi um dos convidados por Paulo Barros para estar na mesa do depoimento. Amigos, os dois revelaram alguns detalhes dos desfiles da águia, e o comandante da azul e branco fez questão de destacar o perfil diferente do que muitos imaginam que o carnavalesco possui.

– Foi muito bom, já assisti a vários aqui. Foi muito bom, pra todo mundo. Foi muito bom pra ele, muito bom pra quem quiser vir fazer pesquisa, porque revela um outro Paulo Barros. Não é aquele cara turrão, distante. Não, ele é isso aqui. As pessoas têm que conhecer. Ele foi muito importante na minha vida, foram grandes momentos – declarou o dirigente.

Pais de Paulo Barros foram fundamentais na aproximação dele ao Carnaval: ‘Meu pai entendia tudo só de olhar’
Paulo Barros com a mãe, Dona Celina, e com o pai, Seu Valdir, que morreu em 2013 – Fotos: Reprodução/Instagram
Durante o depoimento ao MIS, Paulo Barros falou bastante sobre a relação com os pais – Foto: Arquivo pessoal
Ao lado família do carnavalesco, que aparece na foto com a mãe, Dona Celina, e os irmãos Marco Antônio, Vera Lúcia e Elizabeth – Foto: Arquivo pessoal

Paulo recordou das conversas com o pai, Seu Valdir Braga, que morreu há quatro anos, e das primeiras memórias da construção do amor dele pelo Carnaval e pelas escolas de samba. Mãe do artista, Dona Celina Barros foi responsável direta pelas primeiras aparições do carnavalesco no meio do samba. Aos 15 anos de Paulo, foi ela quem costurou a primeira roupa dele de desfile:

– Todo mundo esperava o Natal e o Ano Novo. Eu esperava o Carnaval. Ia sempre nas lojas pra ver se tinha chegado o CD das escolas de samba, porque não era como hoje, que tem data pra lançar o CD. Você tinha que ficar indo atrás.

Sobre o início da carreira, o artista mais bem pago da festa lembrou de Joãosinho Trinta, outro gênio que entrou pra história, e que batiza até o lugar onde Paulo Barros dá expediente, a Cidade do Samba. Os primeiros passos dele foram com João, no barracão da Beija-Flor de Nilópolis, ainda nos anos 1970, após pedir uma chance ao lendário carnavalesco.

Já nas memórias das primeiras assinaturas de carnaval, lá pelo começo da década de 1990, o filho de Seu Valdir e Dona Celina recordou as dificuldades nos barracões da Vizinha Faladeira e o quanto tais barreiras artísticas forjaram o caráter trabalhador – característica, aliás, sempre ressaltada por quem trabalha ou trabalhou com Paulo – do artista.

Ex-comissário de bordo, Paulo Barros aprendeu a valorizar a excelência no trabalho na Varig
Paulo Barros na noite em que se formou comissário de bordo, em 1985. Na foto, ele aparece ao lado da colega Cleide Frasson – Foto: Arquivo pessoal

Enquanto convivia com o perrengue e as conhecidas condições de trabalho insalubres dos grupos de acesso, o comissário de bordo Paulo Barros aprendia a excelência profissional na Varig, companhia aérea brasileira, uma referência no mundo inteiro. A empresa já não existe mais – foi vendida em 2007 -, mas foi um grande orgulho nacional, ganhando prêmios ao redor do mundo pelos serviços prestados à aviação. A inspiração para o perfeccionismo de Barros no Carnaval vem também daí.

– A Varig foi a grande responsável pela minha vida, por tudo que sou – revelou Paulo durante o depoimento. Ele recordou ainda uma história de quando usou uma contusão leve durante uma turbulência num voo internacional para se licenciar e curtir o Carnaval carioca.

A referência nos Fernandos
Fernando Pamplona e Fernando Pinto marcaram época, cada um a seu estilo – Foto: Reprodução/Internet

Dois gigantes na história dos desfiles, os carnavalescos Fernando Pamplona e Fernando Pinto tiveram importância na construção do perfil de Barros. Paulo lembra surpreendentemente com carinho de uma bronca que levou de Pamplona. O antigo artista da festa o criticou e disse que o então contratado da Tijuca tinha que “cuidar mais da escola de samba”. Na época, ele assimilou a opinião e acabou por ficar orgulhoso pela importância que já conquistava ali, a ponto de ser repreendido por uma lenda.

Sobre Fernando Pinto, ex-Mocidade, Barros tem na memória “Tupinicópolis”, carnaval vice-campeão da verde e branco em 1987.

– Acho que pareço um pouco com ele. Tenho flashes de desfile dele, achei uma ousadia ele vestir um índio de tênis. Percebi que era aquilo que eu queria fazer – resumiu, admitindo ter sentido inveja daquele trabalho.

O Sucesso na Tuiuti

Hoje visto por milhões de pessoas todos os anos, o acontecimento Paulo Barros na Avenida foi inaugurado em 2003 pela Paraíso do Tuiuti, quando pela primeira vez ele teria a chance de ser analisado no Sábado de Carnaval, no Grupo A. O enredo sobre o pintor Cândido Portinari rendeu prêmios, elogios, status e valorização no passe do artista. Paulo Barros conta que o presidente da escola na época era vidrado no “Mais Você”, programa de Ana Maria Braga na TV Globo, e por isso não estava presente nas manhãs do barracão, dificultando algumas soluções emergenciais, o que deixava o carnavalesco furioso. Apesar dos problemas financeiros e alguma incompatibilidade na relação, o triunfo da Tuiuti foi gigante, capaz de roubar a cena de escolas mais tradicionais, como Vila Isabel e União da Ilha – que estavam naquele grupo à época -, e até da campeã São Clemente.

A experiência de recorrer à reciclagem de materiais velhos, expediente que usava nos tempos de Vizinha e Arranco, ajudaram, e muito, nesse ano. O abre-alas, coberto de latas de tinta, e a alegoria do espantalho chamaram tanta atenção pra criatividade – a marca mais latente dele – que escolas do Grupo Especial começaram a entender que ali poderia estar um novo talento.

Caprichosos de Pilares contratou e descontratou Paulo Barros

Passada a euforia do Carnaval 2003, a Caprichosos de Pilares, do Especial naquele momento, não pensou duas vezes e já no Sábado das Campeãs acertou com Paulo Barros. Algumas semanas depois, a escola desistiu, alegando que o carnavalesco não teria uma equipe para iniciar os trabalhos com a azul e branco e desfez o acordo, acertando com Cahê Rodrigues (hoje na Imperatriz) pouco depois.

A chegada à Unidos da Tijuca
Quem te viu, quem te vê! Amigo e parceiro de trabalho de Paulo Barros hoje na Vila Isabel, Paulo Menezes se recusou no passado a trabalhar com o xará – Foto: Reprodução

Já sem esperança na elite e buscando uma nova casa no Grupo de Acesso, o artista foi contatado por Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, que estava atrás de um novo carnavalesco. A ideia inicial do dirigente português era ter dois jovens talentos no comando do carnaval da escola do Borel. A pedida era uma dupla de Paulos, Barros e Menezes. A parceria não vingou por uma negativa de Menezes em trabalhar dividindo a assinatura.

Horta perguntou a Paulo Barros se havia problema em dividir a produção, no que ele, de pronto, aceitou a parceria. Paulo Menezes, que vinha de um lindo – até hoje lembrado – carnaval da União da Ilha sobre Maria Clara Machado, também no Grupo A, não quis a dupla e ficou na União da Ilha, mesmo no acesso.

O presidente da Tijuca, diante das respostas dos dois, optou por Paulo Barros.

Rancor e rivalidade não prevaleceram. Os dois hoje são amigos e dividem a produção artística da Vila Isabel pra 2018. Em 2017, no título portelense, os dois estiveram juntos também.

“Nunca vou criar nada igual”, diz Paulo sobre carro do DNA
O dna

Como único carnavalesco da Tijuca, Paulo Barros começava a escalada meteórica para virar um astro entre os artistas da festa. O carro do DNA, com um estilo totalmente revolucionário para a estética até ali empregada nos desfiles, mexeu com o povo da Avenida. As alegorias vivas, reeditadas de formas diversas em outros anos, ressuscitaram a busca pela criatividade e tiraram muita gente da zona de conforto.

Apesar do frenesi da Sapucaí com tal acontecimento, poucos apostavam no sucesso, pelo contrário: a expectativa pra quem via as alegorias da Tijuca era de rebaixamento. Paulo lembra que até os empurradores tinham vergonha do carro do DNA.

– Ninguém queria empurrar o carro do DNA. Os empurradores de carro tinham vergonha de levar só aquela estrutura de ferro pra Avenida. Eles se negaram a empurrar. O Horta tinha pavor de olhar aquele carro. Mas confiou em mim. Depois do resultado do desfile, ele disse que o carro do DNA era o xodó dele.

Talvez a maior criação de Paulo Barros, o carro do DNA passou na Avenida pra delírio do público, mas sem que o carnavalesco presenciasse o referido encantamento coletivo.

– Não vi. Eu achava que o carnavalesco tinha que vir na frente da escola, é o que a gente aprende – disse Paulo, que teve a primeira passagem pela Unidos da Tijuca por três anos, conseguindo dois vice-campeonatos e três participações no Desfile das Campeãs, que envolve as seis melhores da festa. Até ali, na Era Sambódromo, a escola só tinha participado do Sábado seguinte à Quarta-feira de Cinzas em 2000, quando ficou em 5° lugar.

As maiores dores: Viradouro 2007 e Unidos da Tijuca 2011
Em 2007, Paulo Barros assinou “A Viradouro vira o jogo” e ficou em 5° lugar – Foto: Reprodução/Youtube

 

Em 2011, Barros criou “Esta noite levarei sua alma” e foi vice-campeão – Foto: Riotur

Nos dois anos, Paulo perdeu o campeonato para a Beija-Flor de Nilópolis:

– Ali na Viradouro, eu me senti derrubado. Fui muito penalizado. Na Tijuca, fui obrigado a perder para o rei Roberto Carlos. Nada contra ele. Mas foi um carnaval pleno pra mim – disse Paulo, que acredita também ter alcançado a plenitude um ano antes, no “É Segredo!”, também da escola tijucana, quando conquistou o primeiro título da carreira, em 2010.

Holocausto censurado na Viradouro
A alegoria gerou um intenso debate entre os que apoiavam a iniciativa e os que reprovavam – Foto: Reprodução

No segundo ano de Paulo Barros na Viradouro, em 2008, o enredo “Arrepia” teria entre as alegorias uma representando o Holocausto, genocídio em massa de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, pelas mãos da Alemanha nazista de Adolf Hitler. Mas a pressão foi grande, e a alegoria foi proibida de sair do barracão:

– Foi uma das maiores tristezas da minha vida. Faltavam poucos dias para o desfile quando a justiça impediu o carro de ir pra Sapucaí. Mas aquilo era arte, era história. Isso mostra o preconceito com o Carnaval, porque o Holocausto está no cinema, no teatro, está nas artes, mas no Carnaval não pode. E acontece assim porque as pessoas têm aquela ideia da festa da carne, que o Carnaval não pode ser sério.

Polêmica por carro de F1 na comissão de frente tirou Paulo Barros da Tijuca em 2014
Com discordância sobre utilização de carro, Paulo Barros decidiu fazer um Pit Stop de Tijuca e partiu pra Mocidade – Foto: Fernando Maia/Riotur

Três títulos, um vice e um terceiro lugar. Assim Paulo Barros construiu a segunda passagem pela Unidos da Tijuca. Mas no último ano, exatamente o do tri, uma polêmica por um carro, que lembrava um F1, encerrou o contrato.

– O técnico (do carro) foi fazer o teste no barracão, e o carro deu defeito. Perguntei se o carro poderia dar defeito na Avenida, ele disse que sim. Eu não queria o carro, sugeri dois karts. Mas a escola decidiu ficar com aquele carro adaptado. Chegou no desfile, o carro funcionou no primeiro módulo, e não funcionou mais, e as pessoas tiveram que empurrar. Mas eu não justifiquei em momento nenhum pros jurados que o carro seria motorizado, e os jurados acharam que empurrar fazia parte da encenação. Quando não confiam em mim, não tenho por que ficar.

Paulo Barros encerrou falando das alegrias e eventuais dificuldades que teve na Mocidade e na Portela e ainda sobre os desafios na Vila Isabel.

É TETRA!

Aos 55 anos, Paulo Barros tem 14 carnavais no Grupo Especial, com passagens por Unidos da Tijuca, Viradouro, Vila Isabel, Mocidade e Portela. Foram quatro títulos, três vice-campeonatos e dois terceiros lugares. Ao todo, foram 12 Desfiles das Campeãs, que sempre reúne as seis melhores escolas do ano. Ele só não voltou ao Sábado em 2008, na Viradouro, e em 2015, na Mocidade, se tornando o dono de um dos mais expressivos currículos da festa, naturalmente digno da honraria concedida pelo Museu da Imagem e do Som.

Nos quesitos de responsabilidade dele – Alegorias e Adereços, Fantasias e Enredo – Paulo Barros teve até hoje na elite 126 notas dez, de 174 possíveis, um aproveitamento de 72,4% de avaliações máximas. Palmas pra ele!

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