Irmão! Escultor de diabo é evangélico e fã de Crivella: ‘Só conheço como cantor’

Por João Miguel Fernandes

É por causa da música (e não da política) que o artista plástico Bruno dos Santos Barbosa, de 34 anos, conhece Marcelo Crivella (PRB), prefeito do Rio de Janeiro.

Evangélico, o escultor nasceu em Parintins, no Amazonas, mas vive em Florianópolis (SC) e chegou à “Cidade Maravilhosa” há cinco meses para trabalhar com carnaval. Até então, estava acostumado a encarar o bispo apenas como um cantor de louvores fervorosos e amplamente divulgados Brasil afora.

Mesmo alheio à atuação do religioso no cenário político, Bruno emplacou a maior polêmica da pré-temporada foliã até aqui: é dele a escultura diabólica que bombou nas redes por ter o rosto idêntico ao de Crivella.

Seguindo a mesma linha do discurso adotado pela Acadêmicos do Sossego (escola de samba da Série A que levará a representação do “coisa ruim” para a Sapucaí), o escultor não confirma que a face da criatura demoníaca tenha sido, de fato, inspirada em Crivella.

Ao Sambarazzo, Bruno revela que somente executou a proposta que encontrou no projeto do carnavalesco Leandro Valente e que a interpretação sobre a obra está aberta para o público, embora seja latente a semelhança.

— Pode acontecer de a escultura parecer com alguém. Assim como ouvimos dizer que alguém parecido com a gente foi visto na rua por um amigo, por exemplo. Acho que a arte só é arte quando toca o público de alguma maneira, e pelo visto a escultura conseguiu isso — despista o profissional, que só descobriu o tamanho do sucesso que anda fazendo nos bastidores da festa quando conversou com nossa reportagem (ele está sem celular e não acompanhou a repercussão do caso).

Bruno foi o responsável pela execução da escultura que retrata um diabo com a cara do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). A obra viralizou e acabou se transformando na manchete da semana | Fotos: Arquivo pessoal e Reprodução

Música de Crivella embalou carreira de escultor

Enquanto o trabalho nos bastidores da Sossego é embalado pelo samba-enredo “Não se meta com a minha fé, acredito em quem quiser”, Bruno lembra das primeiras vezes em que ouviu falar sobre Crivella. Foi há seis anos, quando ele ainda não havia abandonado a carreira de radialista para atuar no Festival de Parintins (lá no Amazonas, ele presta serviço à turma do Boi Garantido).

Na época, Crivella já estava no senado há mais de uma década, porém o artista só tinha ouvido falar do atual gestor do Rio como cantor de música gospel (entre os sucessos do músico protestante, estão as canções “Perfume Universal” e “Ovelha Perdida”). Na rádio, o então comunicador vivia incluindo essas e outras faixas na programação. Tempos depois, até ouviu dizer que o cantor e compositor que admirava fora eleito para comandar a cidade, mas prefere não se meter com política.

— Acho que as escolhas dos eleitores têm que ser muito bem pensadas. Eu não conheço a administração dele (Crivella), só conheço como cantor. E gosto bastante. Os louvores dele valorizam as mulheres e tocam o coração. Eu o admiro por esse lado — elogia.

Crivella ficou conhecido no mundo do samba por ter feito dois cortes sucessivos à verba recebida pelas escolas do Grupo Especial (em 2017, elas recebiam R$ 2 milhões cada e hoje ganham R$ 500 mil). Bruno, que vive em Florianópolis, só conhecia o lado musical do bispo e prefeito | Fotos: Reprodução/SBT e Arquivo pessoal

‘Nós, evangélicos, aprendemos a amar o próximo’, defende artista

Sem ter descoberto até agora quem vazou a imagem do “tinhoso” que é a cara do prefeito, Bruno tem apenas uma certeza sobre o que rola no dia a dia do trabalho na Sossego, que vai levar para a Avenida uma mensagem contra a intolerância religiosa: sempre aprende algo novo na sedutora indústria carnavalesca.

Além de ouvir falar bastante sobre a relação estremecida de Crivella com as agremiações da Série A (este ano, as escolas devem receber apenas R$ 250 mil cada), o escultor passou a conhecer mais o enredo e a tirar conclusões sobre o tema.

— O diabo da alegoria representa a intolerância e é importante falar disso. Com certeza, aprendi muito aqui. Nós, evangélicos, aprendemos a amar o próximo e não podemos nos esquecer disso nunca, mesmo que nos digam o contrário — finaliza.

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