Joga nas 11! Mestre-sala da Mangueira é vendedor de loja em shopping

Por Luiz Felippe Reis
A simpatia do mestre-sala Raphael Rodrigues não está apenas a serviço da Estação Primeira de Mangueira. O sorriso fácil do dançarino também faz sucesso numa loja de eletroeletrônicos e eletrodomésticos situada num shopping da Zona Sul do Rio. É que, além de defender o pavilhão da verde e rosa, Raphael dá expediente como vendedor.
O mestre-sala da Mangueira atende um cliente numa loja de shopping na Zona Sul do Rio - Foto: Alexandre Vidal
O mestre-sala da Mangueira atende um cliente numa loja de shopping na Zona Sul do Rio – Foto: Alexandre Vidal
É na loja que o dançarino consegue se desligar da agitada e glamourosa vida no samba.

– Ainda estou no período de experiência, mas já fui efetivado. Tenho quase três meses de casa e estou gostando. O meu gerente entende a minha situação. Quando estava chegando perto do desfile, ele me ajudou muito, aqui tem uma flexibilidade nos horários. Estou curtindo – diz.

Enquanto dá os primeiros passos no ramo das vendas , Raphael usa o know-how do Carnaval para conquistar a clientela.

– Cortejo o cliente, assim como faço com a porta-bandeira. Uso aquela graça, dou uma quebrada no gelo, contando histórias do samba. Ganhei até um amigo dentista, o Dr. Hugo. Ele adora Carnaval, é portelense fanático. Inclusive, estou devendo pra ele uma camisa da Portela – conta.
O dançarino mostra toda a sua versatilidade diariamente, vendo produtos eletrônicos e eletrodomésticos - Foto: Alexandre Vidal
O dançarino mostra toda a sua versatilidade diariamente, vendendo produtos eletrônicos e eletrodomésticos – Foto: Alexandre Vidal
Embora acostumado a exibir toda a sua desenvoltura na Passarela do Samba, Raphael precisou vencer um desafio ao ingressar no novo emprego: a timidez.
– Apesar de dançar na Sapucaí para milhares de pessoas, sou um cara tímido. Isso me atrapalhou um pouco no começo, pra chegar nos clientes. Mas é bem verdade que tive sorte. Os meus colegas de loja me ajudam, dão toques. Agora, já tenho o meu jeito de fazer, e acho que estou indo bem – acredita o mestre-sala, endossado pelo gerente da loja, Paulo César Ortiz:
– Ele vai muito bem! O ramo de atuação dele no Carnaval exige que tenha simpatia, postura e paciência para lidar com pessoas. Afinal, ele representa a escola nos lugares.Todos esses atributos caracterizam um ótimo vendedor também. Só falta a ele maior conhecimento dos produtos que vendemos, mas isso ele já tem pegado.
Amigos, amigos, negócios à parte
Raphael e os demais funcionários da empresa ganham, além dos salários, uma porcentagem sobre cada venda de produto. A prática gera um clima de competição saudável entre os vendedores, como explica Fábio Araújo, um dos amigos que o mestre-sala fez no novo ofício.
Raphael e os colegas de trabalho, que disputam os clientes para garantir boa comissão no fim do mês - Foto: Alexandre Vidal
Raphael e os colegas de trabalho, que disputam os clientes para garantir boa comissão no fim do mês – Foto: Alexandre Vidal
 – Ele é maneiro, um cara suave. Mas somos amigos só da porta pra fora. No dia a dia de trabalho, é concorrência. É é cada um por si, e Deus por todos – frisa Fábio.
Desde o início da adolescência acostumado com a vida de trabalhador – Raphael arrumou o primeiro emprego aos 12 anos -, ele não consegue se imaginar sem uma ocupação fixa.
– O dinheiro que a Mangueira me paga hoje daria para eu viver, até numa boa. Mas eu não nasci para ser acomodado, e nem consigo ficar parado. Fui criado para trabalhar – conclui.
No próximo semestre, Raphael Rodrigues vai aprimorar ainda mais o currículo. Ele pretende cursar administração.