Por Redação

Prestes a completar 30 anos de Carnaval, o carnavalesco Cid Carvalho está acostumado a levar o público da Sapucaí pra uma viagem através dos desfiles que produz. E, ao chegar na casa do artista, a sensação é mesma.

O confortável e espaçoso lar, que fica no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, nem parece que está dentro da segunda maior capital brasileira. Sem a agitação e o estresse comuns da chamada Cidade Maravilhosa, Cid encontrou um lugar pra viver há quase uma década onde se respira serenidade e que lembra o clima bucólico e aconchegante do interior. Tal cantinho ele mostra em detalhes para o Sambarazzo, que passou uma tarde conhecendo um pouco mais da intimidade de Cid.

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Serenidade! No bairro de Jacarepaguá, a residência do carnavalesco Cid Carvalho se assemelha a uma casa de praia – Fotos: Irapuã Jeferson

A casa tem dois andares, e Cid mora com a mãe, a simpática Dona Terezinha (a popular Têca, para os mais chegados), o companheiro e o irmão mais velho, Edivaldo.

– Lá se vão 10 anos. Eu morei muito tempo em Campo Grande e atravessava aquela Avenida Brasil de carro, e eu estava cansado dessa agitação, mesmo depois já morando no Engenho Novo. Estava procurando um lugar que fosse tranquilo, que eu pudesse trabalhar em casa tranquilo, que eu pudesse receber família e amigos e me sentir em paz. Que fosse possível me divertir e ao mesmo tempo descansar. Achei aqui a minha cara. Casa ampla, minha família é grande, e esse clima. Quando você chega parece que está se afastando do Rio, parece uma casa de interior, de praia, menos uma casa fincada numa cidade como Rio de Janeiro… por todos esses fatores vim pra cá – explica Cid, que vai para o segundo ano seguido na Acadêmicos do Cubango. Ele ainda é carnavalesco da MUG, escola de Vila Velha, no Espírito Santo, e da Leão de Nova Iguaçu, da Série B do Rio.

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Cid recebe as visitas numa sala de estar bastante espaçosa

A sala principal mostra bem o viés artístico do dono da casa. Diversas figuras, estátuas e obras de artistas populares dão o tom no amplo espaço, decorado de acordo com as preferências do carnavalesco. Alagoano de Arapiraca, Cid carrega da família materna a veia da arte e a habilidade para criar.

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A decoração da casa tem a assinatura de Cid
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O carnavalesco coleciona anjos em casa
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Um presentinho especial do colega e amigo Shangai, antigo parceiro de comissão de carnaval da Beija-Flor

– Vem dos avós maternos. Eles tinham muitos filhos, coisa do nordestino, e elas todas tinham um talento pra costura, bordados, e eu vi muitas roupas de vovó, muitas roupas da minha vó, das minhas tias que bordavam. De certa forma, sou um herdeiro, vem a partir daí – comenta.

O sincretismo de Cid Carvalho

Na antessala, atrás da sala principal e do lado do espaço para TV, Cid tem um cantinho religioso, onde prevalece o sincretismo. Santos católicos, orixás do candomblé, símbolos do budismo, hinduísmo e esoterismo dividem o espaço e o coração do carnavalesco, que não discrimina na hora da fé.

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– Aqui não tem uma religião. Tem de todas um pouquinho. Tem orixá, tem indiana, tem católica. Você tem que seguir a energia positiva. Tem que seguir o respeito ao próximo. Não gosto de rotular muito, não. Você tem que estar bem com a energia que você acredita e com pessoas – explica.

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Piscina, churrasqueira, área externa – a festa é garantida

Próximo de completar 50 anos de vida, Cid já não é mais um rei das festas. Na casa, o carnavalesco já deu festanças para mais de 300 convidados. Hoje mais contido, Cid prefere reunir os amigos de verdade e a família nos fins de semana, onde costuma promover um churrasquinho para estar com os que mais ama, numa reunião, que congrega a turma toda na parte externa da casa.

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Dono da casa, Carvalho nem é muito de entrar na piscina. O refresco fica para as visitas

– Já fiz festas gigantescas, pra 300 pessoas numa casa, o que não é habitual. Mas o espaço permite, com conforto. Temos a churrasqueira, a piscina, tem banheiro lá fora, isso facilita. Festas grandes aconteciam, hoje com menos frequência. Rola muito é mais um churrasquinho com a família, hoje bem mais família do que pessoas amigas. Continuam vindo amigos, poucos, mas é muito mais uma casa pra família reunida. Fiquei mais realista. Não é que você não tenha amigos, mas você não tem amigos na proporção que você imagina. Quando você é jovem, você quer mais é farra. Mas com a maturidade você fica mais seletivo – pontua Cid.

Embora saiba aproveitar os momentos descontraídos com os mais chegados, Cid na época do Carnaval não quer nem saber de salão de jogos, piscina, churrasqueira. O foco é trabalhar. A rotina das reuniões muda, e o carnavalesco trata de desviar seus esforços para a labuta:

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Foco! No segundo andar da casa, o quarto de Cid é onde o artista se concentra para desenhar e criar para as escolas de samba

– Quando estou no pique violento de carnaval, eu chego, subo as escadas e de lá não saio. Chego, tomo banho, trabalho, durmo. Nem olho lá pra fora. Acordo, desço, tomo banho, café, pego o carro e vou embora. Fim de semana, aí tudo bem. Piscina… acho que assim a gente mantém, compra os produtos pros outros usufruírem. Devo ter entrado naquilo dali (na piscina) umas três ou quatro vezes.

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O quarto do carnavalesco é uma graça. Ao lado da cama, Cid Carvalho tem a companhia de vários bichos de pelúcia. Mais anjinhos e uma série de perfumes dão uma decorada especial no cômodo.

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As galinhas do Cid

Ah, e não dá pra deixar de falar das galinhas de Cid que ocupam a área externa. De um viveiro de pássaros, o cara fez uma galinheiro para abrigar as cinco “meninas” e os dois galos, paixão originária, segundo ele, do sangue nordestino.

– Até tenho cachorro, trato bem, cuido bem, mas não sou apaixonado por cachorro. Mas a galinha é o meu sangue nordestino. Onde era um viveiro cheio de pássaros, tem as galinhas, mas não deixo presas, durante o dia elas dão pinta à beça no quintal. Eu gosto bastante – conta.

Salão de jogos e bar compõem o casarão

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A especialidade de Cid no salão de jogos é assistir o irmão jogar e tomar uma cervejinha

O cômodo que separa a área externa da residência é um salão de jogos, com direito a xadrez e sinuca, que aliás não é o forte de Carvalho, que quando por ali fica, prefere assistir ao irmão Edivaldo encaçapando as bolinhas a rivalizar com ele. No local, um barzinho charmoso pra ninguém botar defeito. Uísque, vodka e bebidas de toda sorte decoram o espaço. O artista, no entanto, fica só na cervejinha.

– Quando eu era mais jovenzinho, eu enchia a cara de uísque. Tô brincando! Mas gostava de uísque. A idade vem chegando, você vai se cuidando mais, e continuo frequentando a área do bar, gosto mais de assistir do que jogar sinuca, porque sou péssimo de sinuca. Tomo só minha cervejinha, porque pelo menos é diurético, não faz mal nenhum (risos).

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Mãe de Cid mora com o artista há quatro anos: ‘Você apenas devolve o carinho, amor e o cuidado’

É claro que as famílias e os amigos preenchem um lugar especial nos sentimentos de Cid Carvalho. Mas nada tira o espaço da mãe, Dona Têca, que foi morar com o artista plástico há quatro anos, após uma cirurgia na coluna cervical:

– Ela cuidou de mim a vida inteira, me abraçou há muitos anos até com a questão de homossexualismo, e sempre foi minha coluna. Você apenas devolve o carinho, o amor, o cuidado. E após a cirurgia na coluna cervical, ela fragilizou a estrutura mesmo, já não tem mais aquela desenvoltura física, né? Pra cuidar a distância, melhor cuidar ao lado. Tínhamos quartos vazios, ela morava com meu irmão mais velho, então eles vieram pra cá. Até facilita. Falei: ‘Mãe, vou cuidar de você enquanto a gente estiver vivo, minha velha’.

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Com o filhão já crescido e dono do próprio nariz, a mamãe não perdeu aquele espírito maternal de sempre. É só Cid viajar, que Dona Têca fica louca de saudades, e não deixa de dar um telefonema para o filhote.

– Sou 24 horas protetora. Se ele sai, eu fico orando por ele. Só durmo bem depois que ele chega. Quando ele viaja, liga todo dia, porque, se ele não ligar, eu ligo. Sinto muita saudade. Não sei ficar longe do Cid, só quando Deus me levar. Eu me sinto muito orgulhosa, é o orgulho da minha vida. Vim de Arapiraca, com ele pequenininho. Eu sabia que ele tinha uma carreira brilhante pela frente. Enquanto for viva, vou defender todos os meus filhos – diz Dona Têca, que é mãe também de Edivaldo, Erisvaldo, José Adílson e Edinaldo, os quatro irmãos de Cid Carvalho.

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Na varanda no quarto, Cid tem acesso à vizinhança

Veja mais fotos – Irapuã Jeferson:

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