Três em um! Além de taxista, mestre Capoeira faz camisas para o Carnaval

Por Gabriel Leal

Como se não bastasse rodar as ruas do Rio de Janeiro a bordo de seu tradicional táxi, o responsável pelos ritmistas do Império da Tijuca, Mestre Capoeira,  acumula mais uma ocupação além das obrigações carnavalescas. É que o percussionista de 51 anos comanda um ateliê nos fundos da quadra da escola e pega firme no batente confeccionando camisas para o Carnaval carioca.

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O tempo ruge e a Sapucaí é grande! Camisa de samba concorrente do Império da Tijuca sendo confeccionada no ateliê do Mestre Capoeira – Fotos: Irapuã Jeferson

– Tudo começou quando eu trabalhava para uma marca de surfwear, há oito anos. Eu viajava o Nordeste do Brasil,  era representante de um surfista. Quando vi o preço absurdo das peças, fiquei com vontade de fazer do meu jeito. Além disso, achei legal o processo de passar a estampa do papel para o tecido. Aí decidi trazer isso para o Carnaval, e foi mais um segmento do samba que eu quis me envolver – relembra o comandante da “Sinfonia Imperial”.

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Mão na massa! Com os funcionários, Taninha e “Avatar”, Capoeira tira os moldes das camisas – Foto: Irapuã Jeferson

Há três anos instalado nos fundos da quadra, o ateliê chegou a produzir fantasias para outras agremiações. Quando o prazo apertava, Mestre Capoeira não fugia da raia e chegava a colar paetês e pedrarias em arranjos de cabeça, chapéus e costeiros. Hoje voltado somente para a produção das camisas, o “maestro” mostra que a experiência lhe rendeu conhecimentos além dos surdos e tamborins.

– Quando você vê uma fantasia desmanchar na avenida é porque aconteceu uma desvalorização do ateliê. Às vezes, a escola quer pagar pouco e não vai ter um bom serviço. O ateliê até entrega a fantasia, mas não vai ser com qualidade, bem colada, feita com cuidado. Acaba-se fazendo tudo na pressa e o resultado não é nada satisfatório – opina Capoeira, do alto de sua experiência.

 

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“Uma vez vieram uns motoqueiros para fazer uma camisa para a gangue deles, que era feia à beça. Mas fazer o quê? O cliente tem sempre razão”, conta aos risos Mestre Capoeira – Foto: Irapuã Jeferson

De olho nas encomendas para as torcidas organizadas pelas parcerias nas disputas de samba, o ateliê do Capoeira está trabalhando a todo vapor. Para dar conta da produção de mais de mil camisas, o mestre  conta com a ajuda do assistente Gelton Santos, também conhecido como Avatar, e da costureira Taninha, responsável por cortar os moldes e dar o toque final na produção.

– Já estou aqui há dois anos e é muito bom trabalhar com o Capoeira. Ele cai dentro junto com a gente –  elogia a costureira de 62 anos.

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Há 3 anos instalados nos fundos da quadra do Império da Tijuca, Capoeira já produziu fantasias para outras agremiações – Foto: Irapuã Jeferson

Multitarefas até na folia

O homem multitarefa gosta mesmo de desempenhar várias funções e isso acontece até dentro do mundo do samba. Além da bateria do Império da Tijuca, Capoeira é diretor de carnaval da Vizinha Faladeira e coordenador da escola Bom das Bocas, em Três Rios. Foi ideia dele trazer o carnavalesco Júnior Pernambucano para a agremiação do Morro da Formiga. A estreia do artista na Sapucaí rendeu à verde e branco o título da Série A, em 2013, e consequentemente a ascensão ao Grupo Especial.

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Em outra matéria aqui para o Sambarazzo, o Mestre de bateria falou sobre a vida de taxista – Foto: Irapuã Jeferson

Quando questionado sobre cansaço, Capoeira revela que já pensou em abandonar o táxi devido ao estresse causado pelo trânsito. No entanto, o mestre faz questão de equilibrar o tempo entre todas as funções que exerce para satisfazer sua natureza hiperativa.

– Tem hora que cansa mesmo, mas para mim nunca é trabalho, é sempre prazer – pondera o chefe de confecção, mestre de bateria, taxista e diretor de carnaval!