Por Redação

Conhecido por estar sempre no controle das situações — principalmente se elas acontecerem ao longo de um desfile na Marquês de Sapucaí — Laíla resolveu abrir mão de parte da própria autoridade durante a sabatina que gravou na última semana para o Museu da Imagem e do Som (MIS), no Centro do Rio. A ocasião pode ter sido uma das primeiras vezes em que o sambista de 75 anos foi confrontado publicamente pelos rótulos que acumulou diante do grande público, após seis décadas de carreira.

Sisudo, mandão, espírita fervoroso, profissional caro, fanático por junções de sambas-enredo e gênio revolucionário. Esses foram alguns dos traços que Luiz Fernando Ribeiro do Carmo (o nome de batismo) reconheceu como os mais apontados sobre si por quem acompanha o cotidiano da festa. Laíla foi o personagem a encerrar a temporada 2018 de “Depoimentos para a posteridade” do MIS, que já levou o cantor Neguinho da Beija-Flor e os carnavalescos Paulo Barros e Renato Lage até lá, pra falarem de vida e obra. Colegas de Avenida que, a propósito, foram citados nas falas de Laíla. O recorde de menções, porém, ficou para Joãosinho Trinta, ex-parceiro de barracão, com quem parece ter criado um laço de fraternidade e, ao mesmo tempo, rivalidade.

O trabalho de Laíla ao longo de cerca de 60 anos no Carnaval foi sintetizado numa entrevista de quatro horas gravada no Museu da Imagem e do Som do Rio | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Ao se render ao comando de cinco entrevistadores que conhecem detalhes de sua trajetória no samba, o diretor de carnaval da Unidos da Tijuca papeou mais do que esperava e pareceu satisfeito em dividir segredos e arrancar risadas do auditório lotado. O prazer de abrir o melhor – e o pior – de sua história parecia tanto que, em mais de um momento, ele se disse disposto a permanecer falando durante toda a tarde e a noite, para além das quatro horas de duração da entrevista.

“Vício de linguagem”: Laíla chegou a falar da Beija-Flor como “minha escola”

Sem se furtar em falar sobre os 35 anos que emprestou o talento e a dedicação exclusivamente à Beija-Flor, Laíla respondeu perguntas dos carnavalescos Fran Sérgio (com quem trabalha atualmente na Tijuca e na Águia de Ouro, em São Paulo) e Maria Augusta; dos jornalistas Rachel Valença e Aydano André Motta; e do escritor Pedro Nobre. Ainda que tenha ameaçado se esquivar das questões que envolvessem o passado recente na azul e branco nilopolitana, acabou se rendendo às memórias e, em determinada parte do discurso, até se referiu  à agremiação como “minha escola”, numa espécie de “vício de linguagem”.

Laíla foi entrevistado por Maria Augusta, Fran Sérgio, Rachel Valença e Pedro Nobre no Museu da Imagem e do Som | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

“Me orgulho pra cacete de mim”

Para além das andanças e histórias reunidas abaixo pelo Sambarazzo, “mestre Laíla”, como é chamado por muitos nos bastidores do carnaval, deu o recado sobre uma característica nada controversas de sua história: o amor pelas escolas de samba.

— Me orgulho pra cacete de mim mesmo. Porque sou homem e, mesmo tendo meus tropeços, nunca sacaneei amigo e nem sambista. Eu poderia estar morto ou ter virado ladrão se não fosse o samba. Me deu o que comer, mas nunca me fez ir a lugar nenhum por peso de ouro — afirmou a grande figura desta reportagem, sem deixar de pontuar que as agremiações cariocas passam hoje pelo que define como uma crise de identidade e de credibilidade.

Confira os melhores momentos do depoimento de Laíla ao MIS!

Cartas na mesa sobre a personalidade forte

Apaixonado pelo que faz desde a década de 1960, Laíla sabe que é conhecido pelas bandas dos bambas por ser mandão. E não se desfaz do “apelido”, muito pelo contrário. Para ele, a marca é consequência da proteção que costuma dedicar a quem o acompanha. Como exemplo, cita Joãosinho Trinta, lendário carnavalesco com quem trabalhou no Salgueiro e na Beija-Flor:

— Sou mandão mesmo. Mas é porque sou um para-raios, resolvo os pepinos de todos. Era assim com o João, que foi quem vendeu essa imagem minha para as pessoas. Resolvia os problemas dele e ele colocava medo em todo mundo dizendo que era pra tomarem cuidado comigo.

Sobre a voz de comando que se sobressai às ordens dos maiores caciques do carnaval, o diretor é categórico: não aceita ser mandado por quem não tem mais sabedoria do que ele.

— Eu tô sempre errado pra quem quer mandar mais do que eu. Mas quem é comandado por mim sabe que eu não destrato ninguém da comunidade, porque meu trabalho depende deles. Ninguém pode dizer que sou safado, a não ser que ser safado seja sinônimo de ajudar os outros — argumenta.

Dá um sorrisinho, Laíla! Diretor de carnaval da Tijuca assumiu que é conhecido como sisudo e mandão, mas afirmou que tem os próprios motivos para ser desse ‘jeitinho’ | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

A força das decisões de Laíla é tanta que a posição de diretor de carnaval, responsável por dar a ele o domínio sobre praticamente todos os pontos de um desfile, foi um título que o próprio reivindica.

— Esse foi um cargo que criaram para limitar o poder do diretor de harmonia, porque achavam que ele tava mandando muito. Vi isso acontecer, olhei lá na frente e avisei que ocuparia o lugar de diretor de carnaval. Não foi a escola que me deu o título. Falei com o patrono e disse que era o que eu queria ser — recordou o profissional.

“Ninguém tem mais fé do que eu”, assume Laíla

O macumbeiro do Sambódromo. É dessa maneira que Laíla diz ser conhecido pelas pessoas. Para ele, contudo, não se trata de um demérito. Frequentando um terreiro de umbanda no Morro São João (no Engenho Novo, na Zona Norte) há 17 anos, o filho de Xangô, Ogum, Iansã e Iemanjá relembrou que, quando criança, era adepto do catolicismo.

— Frequentava a missa todos os domingos. Na primeira vez que fui a um centro, um malandro (entidade da umbanda) começou a me falar coisas e eu me apaixonei, porque todas eram verdade. Foi assim que me tornei espírita, mas sem abandonar o catolicismo. Ninguém tem mais fé do que eu. E eu não peço nada que seja impossível, nada além de saúde e trabalho — confessou o sambista, que em 2014 foi vaiado pelo Setor 1 por fazer um despacho na curva do Sapucaí e, no ano seguinte, preferiu trabalhar com a energia do desfile durante a saída das alegorias do barracão na Cidade do Samba, na Zona Portuária.

Antes do Carnaval de 2016, Laíla mostrou o apego com a religiosidade quando acendeu velas no túmulo do Marquês de Sapucaí, personagem que dá nome ao Sambódromo e o grande homenageado pela Beija-Flor naquele ano | Foto: Eduardo Hollanda

A confiança naquilo que é divino — em qualquer ponto do espectro sincretista das religiões brasileiras — foi exatamente o que levou o Laíla de 1976, naquela época aos 33 anos, a aceitar o convite para fazer parte da equipe da Beija-Flor.

— O Joãosinho fechou com a escola e eu não quis ir, mas mesmo assim ajudei muito ele. Ficou prometido que se a Beija-Flor ganhasse, ele iria anunciar que eu ajudei na conquista. Falei que ele iria ganhar, mas não acreditou. Depois da apuração, peguei o trem e fui para Nilópolis. Fiquei barrado na porta da quadra, mandei recado pro João me liberar, e só depois de muito tempo foi que ele apareceu. O João não cumpriu o prometido e dois dias depois falou pra todo mundo que precisava de mim pra ser bicampeão — recordou.

“A vaidade do João (Joãosinho Trinta) era pior do que a população pensa”

O incômodo diante da atitude do amigo, com quem já tinha trabalhado no Salgueiro, quase fez com que a proposta não fosse aceita. Foram os santos que ajudaram a decidir e apontaram o caminho:

— Fiquei pau da vida. A vaidade do João era pior do que a população pensa. Ele era egocêntrico. Mas fui pra macumba perguntar sobre o convite da escola e me mandaram ir porque minha carreira na Beija-Flor seria um sucesso. Bati cabeça lá antes.

Três mil órfãos nilopolitanos: a saída da Beija-Flor e a ida para a Tijuca

A mudança configurada para o próximo Carnaval não passou em branco no depoimento. Laíla até tentou minimizar a possibilidade de colocar o dedo na ferida — disse rapidamente que preferia continuar falando sobre assuntos do passado, porque tinha poucas respostas a dar sobre a Beija-Flor —, mas acabou contando o que sentiu ao deixar a instituição que representou ininterruptamente desde 1995 (após duas outras passagens de quatro anos cada).

— É duro. Foi um baita trabalho e eu tinha montado um time. Sei do valor que tenho e do quanto colaborei. Quando cheguei, quebramos um jejum de 17 anos. Mas senti que não tinha mais ambiente pra ficar. É difícil, porque perdi os três mil filhos que criei. Tem que ser macho pra fazer essa escolha. Não dava mais — comentou o diretor, que participou da conquista de oito vitórias durante a terceira fase vivida entre o povo da Baixada Fluminense.

O motivo da saída inesperada, que começou a se desenhar após a apuração deste ano, ficou nas entrelinhas e foi uma das poucas respostas em que Laíla não foi completamente sincero com os entrevistadores.

— Fiquei sem poder de realização. Hoje, na Tijuca, atuo como coordenador geral e tudo passa pelo meu crivo. Não recebo mais recado. Tem uma hora que as pessoas começam a achar que podem fazer o que você faz — despistou o ex-líder da comissão de carnaval da da chamada “Deusa da Passarela”, que contava com a participação de outros quatro integrantes e com o apoio artístico do coreógrafo Marcelo Misailidis, figura central para a aposta de mudança estética responsável pelo título do Carnaval 2018.

O choro de alegria pela vitória da Beija-Flor no Carnaval deste ano não deu o tom ao resto da história: no final de fevereiro, Laíla deixou a Beija-Flor após 23 anos consecutivos como diretor de carnaval da escola | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

“Ninguém é meu dono, não sou escravo de ninguém”

A transição para a Unidos da Tijuca, onde já tinha trabalhado na década de 1970, foi um passo menos complicado do que aparentou, conforme contou Laíla. A mudança começou com um telefonema e uma visita do presidente Fernando Horta, responsável por levá-lo para a escola do Morro do Borel, na Zona Norte do Rio. Dia desses, o chefe tijucano disse que o novo diretor “é uma dama” e “uma enciclopédia do samba”.

— Todo mundo dizia que eu não podia ir. O Jayder (Soares, presidente de honra da Grande Rio) tentou me levar e não teve autorização. Mas ninguém é meu dono e eu não sou escravo de ninguém. Achei que fosse ficar sem emprego. Aí, fechei com a Águia de Ouro, em São Paulo. E o telefone tocou e me disseram que se eu tivesse interesse em ir para a Tijuca, deveria ligar para o Horta. Liguei e ele apareceu lá em casa, fiz questão que ele fosse porque queria que ele visse que tenho alguma condição e nem tudo o que faço é por dinheiro. Funcionou — pontuou o agora integrante da comissão de carnaval tijucana, formada também por Fran Sérgio, Marcus Paulo Oliveira, Annik Salmon e Hélcio Paim.

Laíla se uniu à equipe da Unidos da Tijuca e ao carnavalesco Fran Sérgio, com quem já havia trabalhado na comissão de carnaval da Beija-Flor | Foto: Divulgação

Carinho com quem ficou ‘do lado de lá’

A relação positiva com o novo chefe e com os colegas tijucanos não fez com que o antigo homem-forte da Beija-Flor deixasse de lado a gratidão pelo que construiu entre as paredes do barracão de número 11 da Cidade do Samba e da quadra da rua Pracinha Wallace Lemes, em Nilópolis.

— Eu amo o Anísio (Abraão David, patrono da escola). O que tem hoje no Carnaval foi ele que fez. Antes, criolo era vendido a troco de nada. Podem até ter nos separado, mas o futuro é divino — afirmou Laíla, que foi convidado publicamente pelo mandachuva a permanecer no cargo que ocupava e, ainda assim, optou pela mudança de casa.

Laíla reafirmou o carinho que sente por Anísio Abraão David, patrono da Beija-Flor, que passou a dar mais espaço ao herdeiro, o jovem e igualmente apaixonado por carnaval Gabriel David| Fotos: Felipe Araújo e Reprodução/Instagram

“Comigo aprenderam a morrer pelo pavilhão”

Para além da menção saudosa ao presidente de honra, ganhou muito destaque a história da criação do grupo de componentes que sustenta a comunidade nilopolitana. Segundo o ex-dirigente, a força que passou a ser conhecida como “rolo compressor” começou a tomar cor, pra valer, após o Carnaval de 1995 (o enredo era “Bidu Sayão e o Canto de Cristal”, do carnavalesco Milton Cunha). A iniciativa foi de Laíla.

— Tínhamos 60 alas comerciais repletas de caras que não iam ensaiar. O Milton montou um carro formado por componentes. Chamei ele e sugeri que fizéssemos aquilo nas outras alegorias. Fomos com 150 pessoas naquele primeiro ano. Antes disso, a escola não tinha despesas com fantasias da comunidade. No ano seguinte, consegui 600 pessoas de Nilópolis. Logo, abriram as pernas e coloquei mil. A comunidade não é minha, mas o trabalho é. Eu dei o ensinamento lá. Foi comigo que aprenderam a morrer pelo pavilhão — sustentou, completando que considera a bandeira da escola em que trabalha mais importante até que a bandeira do Brasil.

No Desfile das Campeãs de 2016, Laíla recebeu o apoio da comunidade nilopolitana após defender que a Beija-Flor merecia colocação melhor que o 5º lugar | Foto: Reprodução/Internet

Laíla sentencia: ‘Renato Lage é o cara’

Mesmo depois de ter discutido publicamente com Renato Lage, hoje carnavalesco da Grande Rio, Laíla disse acreditar que ele é o maior artista da festa nos dias de hoje. Os dois trocaram farpas através da imprensa após o resultado do Carnaval de 2015, quando o Salgueiro foi vice da Beija-Flor. O desfile da campeã foi sobre a Guiné Equatorial, país da África Ocidental submetido a um regime totalitário, o que Renato (responsável pela apresentação salgueirense na ocasião) considerou uma “nojeira”.

Nem a troca de elogios pouco desejáveis com Renato Lage, em 2015, fez com que Laíla deixasse de apreciar o carnavalesco da Grande Rio: ‘Ele é o cara’ | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Como águas passadas não movem moinhos — e nem as engrenagens dos barracões —, eles quase voltaram a trabalhar juntos este ano pela Grande Rio. A parceria já aconteceu na própria Tijuca, entre 1980 e 1982. O que Laíla respondeu ao colega (ele disse que Lage “precisava se reciclar”, ainda em 2015) parece ter sido dito de cabeça quente:

— Não gosto de falar muito sobre os outros, não. Pra mim, o Renato é o cara. Quase voltamos a trabalhar juntos este ano (já que Laíla também foi chamado para a Grande Rio). E eu sei que, se eu encostar nele, ninguém ganha da gente. Também digo que não vou deixar o Fran (Sérgio) desempregado. Ele desenha pra caramba e tem um espírito coletivo muito importante. Essa é uma promessa de homem que eu tenho.

Pires na mão, credibilidade no chão e mesa virada

Apesar do apreço por Renato Lage e do convite para retornar à Grande Rio (no currículo, a marcante passagem pela tricolor de Caxias, também na Baixada, durou de 1992 a 1994), Laíla aproveitou um momento de reflexão no MIS para criticar o fato de a escola ter se movimentado nos bastidores para permanecer no Grupo Especial após ter sido rebaixada junto do Império Serrano na última Quarta-feira de Cinzas. Ele ainda creditou a falta de recursos financeiros para o Carnaval às mudanças no resultado, que já tinham acontecido em 2017, quando o rebaixamento foi cancelado enquanto rondava a Paraíso do Tuiuti e a própria Tijuca, após trágicos acidentes com alegorias das duas escolas. As decisões foram tomadas pela plenária da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

— Todo mundo tá com o pires na mão, mas a verdade é que o público nunca correu do Sambódromo quando os resultados agradavam. Como pode ter duas viradas de mesa em menos de dois anos? Fica a impressão de que ganha quem quer e que todos fazem o que quiserem e nem é preciso ir pra Avenida. O Carnaval tá sem credibilidade. Não pode ser dito que ‘Quem tem padrinho não morre pagão’ — parafraseou, em referência à frase dita por Helinho de Oliveira, presidente de honra da Grande Rio, numa transmissão ao vivo do Sambarazzo minutos antes da decisão da Liesa por manter a escola na elite carioca.

Com a palavra, o cacique Laíla: ‘Fica a impressão de que nem é preciso ir pra Avenida’ | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Não só os resultados da apuração foram apontados por Laíla como defeitos do chamado “maior espetáculo da Terra”. A falta de participação popular também o incomoda.

— Empresário nenhum vai acreditar se for assim. Não temos samba, as pessoas não brincam mais, o povo assiste tudo do poleiro que são as arquibancadas e não tem acesso aos melhores lugares. O carioca é sambista, mas perdeu os ensaios técnicos, que eram uma grande alegria. A gente sente falta, quem trabalha com isso está sentindo saudades do calor humano — definiu sobre os treinos no próprio Sambódromo, que a Riotur ainda tenta voltar a viabilizar junto com a Liesa. Para fugir da mesmice, a Beija-Flor apostou no ano passado num espetáculo diferente: em vez de alas, colocou uma grande tribo indígena para sambar diante do público ao som do samba que contava a história do clássico “Iracema”, de José de Alencar. Em meio às fantasias, todas muito parecidas, componentes fizeram encenações batizadas de “atos”.

Em 2017, a Beija-Flor arriscou transformar a escola toda numa grande tribo indígena, mas não se deu bem na visão dos jurados | Foto: Sambarazzo

A moda não pegou e o resultado foi um desastroso 6º lugar, muito creditado à inovação proposta por Laíla.

— A ideia era gastar pouco. Sugeri que fizéssemos a tribo e acredito que foi um dos grandes carnavais que fizemos. Foi um ano de coragem. Mostramos que é possível modificar a estética do desfile, que hoje em dia tá muito difícil e caro. A solução não é pagar R$ 2 milhões pra carnavalesco. E não estou falando do Paulo Barros, porque nós nos tornamos amigos e ele foi almoçar na minha casa quando foi convidado para a Beija-Flor — revelou, em mais um dos segredos de bastidores que vieram à tona durante o depoimento.

Apesar da rivalidade na Avenida, Laíla garante que é amigo de Paulo Barros: ‘Almoçou na minha casa quando foi convidado para a Beija-Flor’ | Foto: Divulgação

“Meu negócio é não ter rabo preso”

Conhecido por encerrar as tradicionais disputas de sambas-enredo com junções entre duas composições (comumente, as escolas escolhem apenas uma obra campeã), Laíla negou que seja viciado em unificar estrofes feitas por compositores diferentes, mas admite que analisa o processo de escolha com essa possibilidade em mente e que acaba contribuindo de forma autoral quando resolve fazer uma música a partir de outras:

— Os críticos falam muito sem ter conhecimento. Se tiver dois sambas mais ou menos, vou juntar as partes boas. Mas se tiver um samba muito bom, por que eu juntaria? Sou uma pessoa muito criticada principalmente por quem gostaria de ser o Laíla e não é. Não faço nada de orelhada. Eu, inclusive, não assino o samba de ninguém, mesmo que as junções tenham criações minhas. Não quero dinheiro nem presente. Meu negócio é não ter rabo preso — defendeu o diretor, que já disse ser contra a prática de encomenda de sambas a poetas pré-determinados, prática que considera “nociva ao Carnaval”.

Se bobear… Laíla junta dois sambas sem pensar: duas vezes! Se não tiver uma obra que valha a escolha do diretor de carnaval, ele busca unir as duas melhores | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Com o ouvido atento nos sambas do Carnaval de 2019 (ele produz o CD das escolas há mais de cinco décadas), Laíla gostou dos versos e da melodia que vão embalar o enredo “Quem não viu, vai ver. As fábulas do Beija-Flor”, em homenagem aos 70 anos da agremiação:

— O samba deste ano, que muitos estão criticando, é um samba bom. A comunidade de Nilópolis foi trabalhada para transformar pedra em ouro. Lá, não tem samba ruim — disse o responsável pelo desfile da Tijuca, que, segundo ele próprio, deve seguir o mesmo caminho da antiga escola em que trabalhou.

Quem é o pai do Cristo Mendigo?

Entre os grandes méritos da carreira de Laíla, o desfile da Beija-Flor em 1989 pode ser considerado o mais conhecido do grande público. Por mais que ele não consiga definir qual foi seu melhor carnaval na escola (o de 1995, sobre datas comemorativas, foi o pior: “Tava muito ruim, dava até pena”), o último da década de 1980 ganhou lugar de destaque na memória coletiva do país. O motivo foi a cena que encerrou o desenvolvimento do enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”: uma escultura censurada de Jesus Cristo retratado como um mendigo e, entre os braços dela, os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”. A criação é atribuída na totalidade a Joãosinho Trinta, carnavalesco da agremiação na escola. Laíla jura que não é bem assim.

— O Joãosinho fez um abre-alas com os arcos da Lapa e uns barraquinhos. Era muito ruim. Tive a ideia e falei pra ele: ‘Vamos fazer um favelão e, do meio dele, vai sair o Cristo Mendigo’. Ele disse que era melhor não, porque ele não queria mexer com isso. Depois, ele reuniu o grupo todo e disse que tinha uma ideia fantástica. Era a minha ideia! Fiquei puto com ele, minha vontade era jogá-lo na parede — recordou.

Joãosinho Trinta já chegou a assumir, em entrevista concedida à TV Globo, que a criação do Carnaval de 1989 foi ‘coletiva’. Laíla defende, porém, que a ideia do Cristo Mendingo foi apenas sua | Fotos: Reprodução/Internet

Ainda segundo Laíla, a solução encontrada para a censura impetrada pela Igreja Católica também foi uma ideia dele, e não de Joãosinho. A reivindicação pela autoria não parece que terá uma solução: João morreu em 2011 e até já virou filme de cinema e ganhou tributo da Beija-Flor no final do desfile de 2012, sob comando do próprio amigo e, às vezes, desafeto.

— Ele não fez o carro do jeito que pensei e o Cristo era muito ruim. No dia do desfile, estávamos na casa do Anísio, em Nilópolis, quando o telefone tocou. Era do barracão e tinha um oficial de justiça lá pra falar sobre a escultura. Fiquei assustado, mas o João ficou desesperado. Cheguei lá numa Brasília e ele estava se descabelando. No caminho, eu disse ao Anísio que já sabia o que fazer e qual seria a frase que deveríamos escrever junto ao Cristo vedado. Repassei pro João e ele disse que nenhuma servia. Depois, pressionado pela imprensa e pela equipe, acabou escolhendo o que eu tinha sugerido. Saiu como dono da ideia, mas não é — finalizou.

A Beija-Flor colocou Joãosinho Trinta na Avenida, de braços abertos como o Cristo Mendingo, para homenageá-lo no ano seguinte à morte. O enredo era São Luís do Maranhão, onde ele nasceu | Foto: Reprodução/Internet

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