Mestre Casagrande ignora propostas e critica troca-troca: ‘Tem que ter um amor’

Por Luiz Felippe Reis

Romântico ou moderninho, cabe ao sambista torcedor acompanhar de perto a frenética dança das cadeiras que altera as identidades artísticas das agremiações a cada temporada. Uma espécie de livre mercado se forma envolvendo as escolas de samba e os artistas, que, juntos, fazem um espetáculo capaz de movimentar bilhões de reais na economia brasileira e fluminense.

Mas ainda há resistência romântica num meio já invadido pela lógica de mercado. Um exemplo é mestre Casagrande, que tem 11 anos como líder dos ritmistas e mais de 40 na Unidos da Tijuca e nem cogita sair. Convites não faltam. Mas o amor pelo pavilhão, as boas condições de trabalho, o entrosamento, o bem-estar entre os comandados e o pertencimento social falam mais alto pra ele seguir à frente da “Pura Cadência”.

– Recebo proposta todo ano. Fui criado no samba numa época em que o amor pela escola prevalecia. Hoje é financeiro, não julgo quem faz essas escolhas, mas as vezes a pessoa pensa na ambição e esquece o mais importante nisso. Você tem que ter um amor. Mas quando você escolhe o dinheiro, você não tem mais vínculo. Vai viver só de resultado? E nunca é um dinheiro que dá pra resolver a vida, se fosse pelo menos, sem falar que tem muita história do boi tatá por aí, sabe como é o samba, né? … Não tenho motivo pra sair da Tijuca. Aqui, tenho respaldo, carinho, é a minha casa. Tenho raiz aqui. Não tenho salário milionário, nem contrato eu tenho. Eu que renovo com o presidente – disse Casagrande.

Ele é da Tijuca e ninguém tasca! Com mais de 40 anos na escola, mestre Casagrande ignora propostas: ‘Fui criado no samba numa época em que o amor pela escola prevalecia’ – Foto: Alexandre Vidal

Embora o elo de Casão com a Unidos da Tijuca valha mais que qualquer nota, a extensa coleção de avaliações máximas – são oito anos sem perder décimos – dá a ele segurança e confiança pra ganhar muita moral com o presidente Fernando Horta. Na escola, o mestre produz a “Feijoada Nota 10”, que volta no próximo domingo, 25. No evento, ele emprega temporariamente mais ou menos 25 ritmistas. A diretoria tijucana também paga os percussionistas por apresentação, o que não é tão comum nas escolas de samba.

‘Tenho minha feijoada, já dei palestras, eu só tenho a agradecer, preciso ter gratidão pela Tijuca. Eu sou muito feliz aqui’, define o mestre – Foto: Alexandre Vidal

Casagrande festeja a relação positiva e se declara – um pouquinho mais – à Unidos da Tijuca:

– Se você prestar atenção, a Tijuca nunca manda profissional embora. Normalmente, a pessoa que sai. A Tijuca é escola pra ficar o resto da vida. Eu não vivo de escola de samba, vivo das minhas correrias, sou taxista até hoje. Tem que trabalhar. Não sou contra o mestre que vai ganhar mais em outra escola e decide sair, mas ele perde coisas mais importantes. E graças a confiança que eu tenho aqui, o presidente Horta me dá todas as condições de trabalho. Tenho minha feijoada, já dei palestras, eu só tenho a agradecer, preciso ter gratidão pela Tijuca, acabo ganhando um a mais. Eu sou muito feliz aqui. Quantos empregos eu gero uma vez por mês só por causa da Tijuca? Os ritmistas recebem por evento, isso é muito valioso.

Desde 2011, se aproveitando do descarte regulamentar da Liesa, que invalida a menor nota, os ritmistas tijucanos não perdem décimos. Os anos de 2014, 2015, 2017 e 2018 foram as quatro temporadas marcadas por notas 40. Nos 11 desfiles à frente da bateria, Casão teve 36 notas 10 em 46 possíveis. Ele tem um aproveitamento de 78,2% de avaliações máximas no período.