Ninguém solta a mão de ninguém! Carnavalescos se unem no combate à crise

Por Redação

Artistas responsáveis pelo espetáculo das escolas de samba da Série A do Carnaval carioca estiveram reunidos na noite desta terça, 11, no Baródromo, no Centro do Rio, para celebrar o fim do ano e, principalmente, tentar criar um sentimento de união capaz de ajudar o time de artistas a encarar a crise financeira que assola a festa. O encontro reuniu carnavalescos de 12 agremiações e foi liderado por Cahê Rodrigues, responsável pelo desfile da Acadêmicos de Santa Cruz.

Ninguém solta a mão de ninguém! Encontro de carnavalescos da Série A contou com Raphael Torres (Renascer), Alex de Oliveira (Unidos de Bangu), João Vitor Araújo (Unidos de Padre Miguel), Gabriel Haddad e Leonardo Bora (Cubango), Cahê Rodrigues (Santa Cruz), Marcus Ferreira (Inocentes de Belford Roxo), Alexandre Rangel (Renascer de Jacarepaguá), Marco Antônio Falleiros (Alegria da Zona Sul), Jorge Caribé (Império da Tijuca), Jaime Cezário (Porto da Pedra), Guilherme Diniz (Unidos da Ponte), Leandro Valente (Acadêmicos do Sossego), Tarcísio Zanon (Estácio de Sá) e Rodrigo Marques (Unidos da Ponte). Júnior Pernambucano (Rocinha) teve um imprevisto e não compareceu, mas fez questão de manter contato com os colegas | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

“A classe carnavalesca sempre foi desunida”, destaca o carnavalesco Cahê Rodrigues

O Sambarazzo acompanhou de perto todos os momentos da reunião, que teve até troca de presentes numa tradicional brincadeira de amigo-oculto, e conversou com os profissionais para entender quais as principais preocupações em relação a 2019. O grupo também dialogou para buscar uma maneira de, através da coletividade, conseguir mudar o cenário do chamado “maior espetáculo da Terra”.

— A classe carnavalesca sempre foi muito desunida e encontros como esse fazem falta. Costumo dizer que somos marionetes da festa e que guerrinhas bobas de ego e vaidade só nos atrapalham. A disputa precisa ficar restrita ao momento da festa. Se nós formos mais unidos, teremos como nos ajudar mais. Cada um percorreu um caminho diferente e tem uma experiência pra compartilhar — argumentou Cahê, que fez contato com os outros carnavalescos por telefone e via redes sociais, num processo que originou um grupo de WhatsApp intitulado “Guerreiros da Série A”.

Cahê Rodrigues, da Santa Cruz, voltou à Série A após uma longa temporada de 18 anos no Grupo Especial. Ele fez questão de reunir os colegas: ‘Preciso aprender mais com eles sobre o grupo, já que estou longe há um tempo’ | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

Momento é de ajuda em meio ao perrengue

Com o barracão da Santa Cruz interditado desde agosto, Cahê está utilizando a experiência que acumulou nas passagens por Caprichosos de Pilares, Portela, Grande Rio e Imperatriz, entre outras escolas, para fazer com que o enredo em homenagem à atriz Ruth de Souza aconteça. Mesmo com as dificuldades, as fantasias estão em fase de reprodução de protótipos. As alegorias, porém, têm detalhes começando a ficar prontos sem estar integrados às estruturas dos carros.

— A dificuldade existe em qualquer grupo a partir de agora. Por isso, a ideia é aproximar aqueles que não tinham oportunidade de trocar experiências e de conversar. Na Série A, se eu tiver que ligar pra alguém e dizer que tô precisando de uma escultura, até em forma de jacaré que seja, tenho facilidade — afirmou o organizador do encontro, completando que a iniciativa dificilmente ganharia corpo se fosse referente à classe carnavalesca do Grupo Especial.

‘Tamo junto’! Artistas buscam uns aos outros nos momentos de aperto: ‘É muito tranquilo chegar e perguntar pra um deles: o que você tem sobrando e que a gente pode trocar?’, disse Cahê | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

Cahê defende e espera que o clima harmonioso entre os carnavalescos sirva para fortalecer a classe de profissionais:

— Nós dependemos da festa e ela está num momento muito ruim. Se ela acaba amanhã,  estamos todos num péssimo momento. Precisamos nos unir, porque ninguém faz carnaval sem carnavalescos. A partir do momento em que nos colocamos numa posição de respeito, amanhã ou depois não ficamos tão prisioneiros das vaidades da festa. Ela precisa de dinheiro, de administração, mas também de artistas e das comunidades.

Situação está difícil para “prima rica” e para as nem tão ricas assim

O efeito cascata gerado pelo corte da subvenção das escolas da elite (ano passado, a prefeitura do Rio repassou 50% menos do que em 2016, e agora pretende quitar este novo valor reduzido à metade) não poupa ninguém. A Unidos de Padre Miguel, cujo desfile é assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo, costuma ser considerada a “prima rica” da Série A pelo espetáculo suntuoso que costuma apresentar e pelas posições que conquista na Quarta-feira de Cinzas. Mas parece que o jogo virou.

João Vitor Araújo, da Unidos de Padre Miguel, e Marco Antonio Falleiros, da Alegria da Zona Sul, comentaram sobre a crise: ‘Todo mundo diz que somos uma escola rica, mas somos como outra qualquer. O apoio da diretoria e a nossa criatividade é que fazem o trabalho andar’, pontuou Araújo | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

Segundo o próprio João Vitor, os ventos da crise também pairam sobre o bairro da Zona Oeste do Rio que dá nome à escola. No barracão da Unidos de Padre Miguel, os trabalhos andam de forma mais lenta do que em anos anteriores, deixando a homenagem ao dramaturgo Dias Gomes longe de ficar pronta.

— Nós (carnavalescos) não podemos nos culpar o tempo todo por todos os problemas. A gente faz o possível. Mas sem dinheiro e sem apoio da prefeitura… A gente precisa do mínimo. O apoio moral de todos os colegas ajuda. Faz perceber que sempre há um amigo na mesma que você — destacou João, que vai para o segundo ano à frente da vermelho e branco.

Nos bastidores da Alegria da Zona Sul, que vai contar a história da Umbanda na Sapucaí, a situação é muito mais complicada. Isso porque os carros alegóricos da agremiação foram despejados de um galpão na Zona Portuária do Rio poucos meses após o Carnaval de 2018 e, hoje, estão num terreno baldio na Avenida Brasil. Marco Antonio Falleiros, responsável por conduzir os trabalhos artísticos, tem buscado as próprias soluções:

— Estamos numa situação difícil. Estamos fazendo as fantasias e acho que nesse aspecto vamos vir bonitos. Mas não há como fazer sem barracão. Nunca tive um carnaval fácil, sempre teve alguma dificuldade. Este ano, tá mais acentuado.

Escambo! Falta daqui, mas sobra de lá: procura-se quem tope trocar

Após tentar – e não conseguir – patrocínio com empresas internacionais para o enredo sobre a fé a partir da imagem caribenha do Cristo Negro, a Estácio de Sá tem contado com a criatividade de artesãos para construir o espetáculo que pretende exibir no Sambódromo. O carnavalesco Tarcísio Zanon tem liderado a empreitada e acredita que a conexão com outros ocupantes do cargo de carnavalesco possa ajudar no processo.

— A gente precisa estreitar laços. O que serve pra um pode não servir pro outro, e a gente pode trocar peças e figurinhas. Passamos pelas mesmas dificuldades e temos a mesma profissão. O artista tem seu ego, mas quebrar essa barreira é extremamente importante pra festa — defendeu o artista, que se pudesse escolher gostaria de ter ganhado feltro laranja no amigo-oculto: o tecido está em falta no mercado e, por consequência, no barracão em que ele trabalha. Mas acabou levando pra casa o bom e velho chocolate.

Se pudessem escolher, carnavalescos optariam por materiais que estão em falta como presente em amigo-oculto. Os mimos, desta vez, ficaram nas costumeiras lembrancinhas, como livros e chocolates | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

Formando a dupla que comanda a preparação da Acadêmicos do Cubango, Gabriel Haddad e Leonardo Bora têm pelo menos 100 metros de feltro amarelo para trocar e ficaria feliz se alguém do grupo pudesse ceder o mesmo material na cor branca, também em falta nos estoques. O enredo deles aborda objetos utilizados em momentos de devoção.

— Não achamos em nenhuma loja do Rio! Seria muito bom se pudéssemos trocar (risos) — brincou Gabriel, que foi acompanhado pelo parceiro de trabalho: — A gente tenta sempre extrair disso (da crise) uma energia a mais pra dar vazão ao que a gente acredita como proposta de carnaval — completou Leonardo.

Os carnavalescos da Cubango, Leonardo Bora e Gabriel Haddad (dupla à direita), posaram ao lado de Raphael Torres e Alexandre Rangel, da Renascer: eles fazem parte do grupo de artistas mais jovens da festa | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

Veteranos têm mais otimismo: ‘Dinheiro? Nunca tivemos’

Conhecido por fazer muito com pouco, o carnavalesco Jorge Caribé, do Império da Tijuca, defendeu que os ânimos nos barracões fiquem mais tranquilos diante da ausência de grana. É que, para ele, dificilmente um desfile de escola de samba deixa de acontecer, mesmo que os obstáculos até a hora H sejam inúmeros.

— Dinheiro? Nunca tivemos na Série A. Então, não dá nem pra dizer que tá faltando. Dificilmente eu tive um Carnaval fácil. Fico tranquilo, porque sei que vai sair. Só vi uma escola não entrar na Avenida e foi a Mocidade Unida de Jacarepaguá (em 1996, hoje chamada de Mocidade Unida da Cidade de Deus). Foi realmente uma tragédia, mas passou. Vai dar tudo certo — relembrou Caribé, que se considera praticamente especializado em temáticas afro e está criando um desfile sobre o café no Vale do Paraíba, em São Paulo, sem deixar de fazer menção aos orixás, seus xodós.

Abraçados aos colegas mais novos, Jaime Cezário (de preto) e Jorge Caribé (estampado verde e azul) demonstraram acreditar no poder de superação dos artistas e das comunidades | Foto: Diego Mendes/Sambarazzo

No discurso que fez aos presentes, o experiente Jaime Cezário, da Porto da Pedra, fez coro à mensagem de esperança de Caribé e incentivou todos a continuarem focados nos dias de desfiles, que acontecerão no início de março.

— Vamos nos unir! Com todas as dificuldades, estaremos na Sexta e no Sábado de Carnaval fazendo grandes desfiles, com barracão ou sem barracão, com dinheiro ou sem dinheiro — pregou Jaime, que prepara uma homenagem ao ator Antônio Pitanga.