Número de destaques nas alegorias do Carnaval carioca diminuiu 75% em 30 anos, diz pesquisador

Por Redação

Famosos pela pompa e pelo capricho no brilho, os destaques que ajudam a ornamentar as alegorias dos desfiles das escolas de samba são uma classe quase em extinção na festa. É o que aponta o pesquisador João Gustavo Melo no livro “Vestidos para brilhar — Uma epopeia dos grandes destaques do Carnaval carioca”, lançado na última segunda, 17, no Rio. Segundo o estudo, que foi produzido como tese de mestrado para o Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio (UERJ), o número de destaques por escola saiu de uma média de 40, no início da década de 1990, para cerca de 10 nos dias de hoje: uma queda de 75%.

— O número alto chegava até a ser um problema, porque os carnavalescos tinham que desenhar muito e dar significados para cada um dos destaques. Era um superpovoamento nas alegorias, que eram menores que as de hoje. Havia concursos de fantasia que incentivavam os destaques a investirem nas suas e criavam um circuito que alimentava o sonho de exibir os trajes — explica João Gustavo, justificando as dezenas de pessoas que ocupavam tais posições três décadas atrás.

O livro ‘Vestidos para brilhar’ foi escrito por João Gustavo Melo e conta os bastidores da saga dos destaques do Carnaval carioca, conhecidos por imagens como a de Xangô do Salgueiro (apelido do professor Júlio Machado, que desfilava na vermelho e branco) | Fotos: Wigder Frota e Divulgação

Preocupação com perda de pontos foi um dos motivos da redução

A diminuição drástica também é justificada na publicação, que está à venda online pelo selo editorial Carnavalize. A preocupação das agremiações com o tempo de desfile e a dinâmica da transmissão televisiva levou à diminuição do número de carros (hoje, por exemplo, o mínimo é de cinco) e, por consequência, de espaços disponíveis para os destaques. Isso se somou à falta de prestígio por parte dos dirigentes.

— Com menos alegorias e carros menores, os destaques passaram a aparecer de uma forma muito central. Quem saía na lateral perdeu importância. Muitos deles se sentem desprestigiados pelas diretorias. Não contam ponto no julgamento, mas podem tirar se tiverem algum problema. Por isso, há dirigentes que os enxergam como um problema, por conta da logística de levá-los até seus postos — conta o escritor, em referência à necessidade de utilizar o guindaste apelidado de “Carvalhão” para chegar às vagas mais altas, na curva entre a Sapucaí e a concentração.

Clóvis Bornay, registrado nesta foto no desfile da Portela em 1995, é outra lenda do universo dos destaques | Foto: Wigder Frota

Outro fator complicador para a questão é a falta de camisas disponibilizadas para os conhecidos “apoios de destaque” — mais importantes do que muita gente imagina.

— Eles precisam deste apoio para carregarem a fantasia e ajudá-los a montar em cima do carro. Isso evita muitos problemas. A TV, muito ágil, acaba perdendo detalhes que eles consideram importantes nas fantasias. Como investem no sonho de aparecerem, isso também vira um “contra”.

Fantasias chegam a custar R$ 100 mil

Se a vaidade costuma custar caro para o público em geral, para os destaques ela é ainda mais valorizada. Isso porque as roupas, conforme levantou João Gustavo, custam entre R$ 20 mil e R$ 100 mil e, em geral, são bancadas pelo próprio interessado.

— Como investem desta maneira, é natural que lutem por espaço. Com as dificuldades, tenho visto pouca renovação no segmento. Mas há destaques mais novos, que chegaram há pouco, e que fazem fantasias com muita dificuldade. E também tem muita gente de fora do Rio que vem desfilar, como da Argentina e da Bélgica — pondera o responsável pelo estudo, que foi orientado pelo professor Felipe Ferreira, da UERJ.

No topo de uma alegoria do Salgueiro, a destaque Helena Cadar chama a atenção pelo tamanho e luxo da fantasia que veste | Foto: Wigder Frota

Saber ainda mais detalhes sobre as histórias dos destaques é, felizmente, muito mais barato do que a pequena fortuna que eles destinam ao Carnaval.

“Vestidos para brilhar” está sendo vendido a R$ 40, com frete grátis. O livro é ilustrado com imagens de Wigder Frota, fotógrafo que cobre a festa a partir das lentes há 15 anos consecutivos. Servem como fios condutores da obra a vida de quatros destaques: Dona Olegária dos Anjos (do Império Serrano na década de 1950, a primeira do segmento), Isabel Valença (do Salgueiro), Jesus Henrique (da Beija-Flor) e Maurício Pina (também da “Academia do Samba”, originário do Carnaval paulista).