Oremos! Light deve bancar desfiles da Sapucaí com R$ 14 milhões

Por Redação

O sufoco dos últimos meses para as 14 escolas de samba do Grupo Especial do Rio tem tudo para chegar ao fim nesta quarta, 23, com o anúncio de que a Light vai bancar o espetáculo da Marquês de Sapucaí, com R$ 14 milhões. O patrocínio equivale à quantia de R$ 1 milhão para cada agremiação e teria sido garantido através da isenção fiscal do ICMS para a concessionária de energia elétrica, contrapartida autorizada pelo governo do estado.

Além da novidade referente ao financiamento dos desfiles, há também a real possibilidade de os ensaios técnicos na Sapucaí voltarem a acontecer, graças a um novo apoio na casa dos R$ 700 mil, que poderá ser conquistado via Lei Rouanet. O valor é um complemento aos R$ 600 mil já captados através da mesma plataforma de incentivo à cultura.

Conforme apurou o Sambarazzo, o anúncio oficial sobre os dois temas deve ser feito pela cúpula da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) na noite desta quarta, em uma reunião no Centro do Rio em que estarão reunidos dirigentes de todas as escolas que compõem a elite do Carnaval carioca.

A Light, uma das maiores concessionárias de energia elétrica do Rio, acende a esperança das escolas de samba do Grupo Especial com um patrocínio de R$ 14 milhões para o espetáculo | Foto: Cezar Loureiro/Riotur

Com a Light, escolas devem receber pelo menos R$ 4,2 milhões

Com o apoio da Light, fontes ligadas às escolas de samba dizem que cada agremiação da elite do samba carioca receberá um aporte de R$ 500 mil garantido pela prefeitura do Rio, sob a gestão de Marcelo Crivella (PRB), e mais R$ 1 milhão, relativos à gigante do ramo de energia elétrica. O dinheiro da concessionária seria pago à Empresa Pública de Turismo do Rio (Riotur) e repassado para a Liesa.

Há, já assegurado, pagamento dos direitos de transmissão da festa pela TV Globo, que injeta R$ 2,2 milhões nos cofres de cada agremiação. Aos R$ 4,2 milhões já listados, soma-se ainda a venda de ingressos promovida pela Liesa, que espera vender entre 95% e 98% dos espaços colocados à disposição do público.

Com o novo aporte, escolas de samba vão receber R$ 4,2 milhões cada, sem contar a venda de ingressos da Sapucaí | Foto: Fernando Grilli/Riotur

Ensaios dependeriam de prorrogação de prazo

Entre os anúncios desta noite, a Liga deve informar aos dirigentes que o retorno dos tradicionais treinos no Sambódromo dependem de uma prorrogação no prazo para captação do projeto apresentado pela Liesa ao Ministério da Cultura. Isso porque, além dos R$ 600 mil já acordados com a Ball, companhia que produz e recicla latinhas de aluminío, uma outra empresa teria se interessado em contribuir para bancar os treinos ao ar livre.

Se acontecerem, ensaios técnicos serão apenas para escolas de samba do Grupo Especial; Beija-Flor, a campeã de 2018, é a única confirmada até aqui e faz teste de luz e som no dia 23 de fevereiro | Fotos: Alexandre Macieira/Riotur

Apesar de o prazo atual para o projeto já ser bastante flexível (segundo o portal da Lei Rouanet, acaba em 31 de maio), a Liga deve informar aos dirigentes que precisa aguardar uma prorrogação nesta data final para receber o valor da segunda interessada.

No início de janeiro, o presidente Jorge Castanheira disse ao Sambarazzo que outra representante da mesma área que a Ball era uma das candidatas a patrocinar o evento.

Negociações começaram em dezembro e foram iniciadas por Pezão

No fim de dezembro, a assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio confirmou que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), estava unindo esforços ao então governador em exercício, Francisco Dornelles (PP) para buscar novas verbas para as escolas de samba. Com a chegada da Light, vem à tona também a informação de que, na realidade, as negociações com a Light foram iniciadas anteriormente pelo ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB), preso em 29 de novembro e acusado de ter recebido propina de R$ 39 milhões.

O ex-governador Luiz Fernando Pezão teria iniciado as conversas com a Light | Foto: Divulgação

No dia 14 de janeiro deste ano, Crivella disse ao Jornal O Globo que esperava gratidão das agremiações, na contramão do último Carnaval, quando foi retratado como um traidor pela Mangueira. A verde e rosa fez uma crítica expressiva a ele por ter cortado em 50% o valor da subvenção municipal para o os desfiles (em 2017, ele anunciou que diminuiria o aporte de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão).

— Foi com esse patrocínio no horizonte que o Crivella disse que queria ser chamado de ‘herói’ este ano. Conseguindo isso, ele pode dizer que conseguiu ajuda e vai sair como salvador da pátria — afirma funcionário de umas das escolas do Especial.

Nos bastidores, Witzel prometeu não atrapalhar

Apesar de a iniciativa em prol das escolas ter sido inicialmente de Pezão, o novo governador fluminense, Wilson Witzel (PSC), disse a amigos próximos que não pretendia fazer nada para impedir a negociação da Light com a Riotur e a Liesa.

Isso porque o patrocínio está condicionado à isenção do ICMS (o imposto sobre circulação de mercadorias e de serviço) que seriam pagos pela empresa ao estado e que deverão ser, agora, destinados às agremiações.

Wilson Witzel, empossado no dia 1º de janeiro, tentou não atrapalhar negociações sobre renúncia fiscal da Light | Foto: Reprodução/Facebook

Novo corte causou desespero e briga com Crivella

Em 10 de dezembro, quando faltavam pouco mais de dois meses para o Carnaval, a Liesa decidiu em plenária que não aceitaria um novo corte promovido por Crivella. O prefeito assinou a concessão de apenas 50% do valor previamente acordado com as escolas até então (de R$ 14 milhoes prometidos, ele destinou apenas R$ 7 milhões).

Na ocasião, o presidente Jorge Castanheira disse à imprensa que a liga exigia uma reunião com o prefeito para tratar do tema e que seguia buscando novos patrocínios via leis de incentivo (a Rouanet e a do ICMS, ambas com garantia de dedução de impostos para possíveis apoiadores). Essa reunião não chegou a acontecer e, até aqui, o contrato que autoriza a transferência do dinheiro não foi assinado.

A preocupação de Castanheira tinha justificativa: no fim de novembro, a Uber, responsável pelo maior aplicativo de transporte executivo do país, resolveu abandonar a promessa de ajudar a financiar o espetáculo do Sambódromo carioca. A empresa já havia pagado R$ 500 mil para cada escola em 2018 e pretendia repetir o feito agora, mas escolheu romper o contrato após a prisão do presidente Chiquinho da Mangueira pela Operação Lava-Jato.

Presidente da Liesa, Jorge Castanheira, comprou briga com o prefeito Marcelo Crivella após o anúncio de que subvenção pública para o Carnaval seria de R$ 7 milhões| Foto: Arquivo

Segundo Crivella, o dinheiro do aplicativo seria o complemento ao meio milhão que sairá dos cofres da administração municipal. Para o prefeito, com a desistência da empresa, as escolas teriam que construir as alegorias e confeccionar as fantasias apenas com a metade do valor. Ele declarou mais de uma vez que a promessa de R$ 1 milhão considerava a verba aportada pela Uber.