Rainha de bateria defende mulheres do samba: ‘Veem como se não pudéssemos ser inteligentes’

Por Redação

Pelo segunda temporada à frente da bateria da Imperatriz, a tenente do Corpo de Bombeiros Flávia Lyra atribui qualquer resistência a sua chegada, no ano passado, às opiniões políticas que expôs. Inicialmente dedicada à tarefa de dar continuidade ao reinado da atriz Cris Vianna, ocupante do posto por cinco carnavais, a gata acredita que agora seja a hora de aprofundar ainda mais os laços construídos com a comunidade e que, apesar de continuar inclinada à direita quanto à ideologia, o samba foi responsável por torná-la menos radical.

— O Carnaval me mudou muito. E o samba me fez pensar de uma forma menos radical sobre vários assuntos. Não só me adaptei em relação ao samba e à apresentação, como cresci enquanto ser humano. Vejo muita coisa com outros olhos hoje em dia, tem sido um crescimento pessoal muito grande. Tento passar isso pra outras pessoas que tenham qualquer tipo de conceitos pré-formulados — afirma Flávia, que já foi criticada nas redes sociais por ser apoiadora assumida do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Cabeça aberta! Flávia Lyra, rainha da Imperatriz, reconstruiu certezas desde que assumiu o posto | Foto: Paulo Portillo/Riotur

Papel da mulher e o povo das comunidades

Entre os temas sobre os quais Flávia tem estado cada vez mais de cabeça aberta estão o respeito às individualidades femininas e a visão sobre a conduta da população mais pobre do Rio. Com a experiência na folia, a majestade da verde e branco conta que aprendeu a driblar o senso comum sobre esses assuntos e que tenta falar sobre eles com quem a rodeia:

— Sempre procurei levantar essa bandeira sobre a mulher, mas não chego a ser feminista. Algumas pessoas veem as musas e rainhas do Carnaval de uma forma de ruim, como se não pudessem ser inteligentes. Com a minha vivência, posso passar uma visão diferente, quase como um argumento de autoridade. O mesmo faço sobre as pessoas que vivem em comunidades.

Além de ter passado a pensar diferente, Flávia passou a tentar convencer as pessoas a ir pelo mesmo caminho | Foto: Paulo Portillo/Riotur

O dia a dia em Ramos, na Zona Norte da cidade, bairro em que a Imperatriz está sediada, ajuda Flávia a desconstruir discursos intolerantes sobre quem não tem dinheiro para viver nas áreas mais ricas da chamada “Cidade Maravilhosa”.

— Há visões mais conservadoras em relação à violência e às pessoas que moram em comunidade. As mais radicais tendem a generalizar como se todo mundo ali fizesse as coisas porque quer fazer. E eu compreendo muito mais, hoje em dia, que a vida não dá oportunidades para todos — pondera a dona da coroa, que já é conhecida nas redondezas da quadra da agremiação pelo espaço que ocupa.

Reinado a perder de vista

Primeira rainha da comunidade da Imperatriz em muito tempo (antes de Cris Vianna, reinou a modelo Luiza Brunet, por mais de uma década), Flávia acredita que vai seguir o caminho de outras beldades com a mesma origem.

Assim como Raissa Oliveira (da Beija-Flor) e Evelyn Bastos (da Mangueira), ela também pretende permanecer bastante tempo ao lado dos súditos.

— A minha expectativa é ficar lá o tempo que o pessoal, a diretoria e o presidente quiserem. Enquanto quiserem, eu fico. Desde já, digo que só tenho a agradecer porque tem sido um momento único na minha vida, uma bênção — avisa.