Rainha que rala! Bisteka comanda almoraxifado da Mangueira

Por Aydano André Motta

Ao fim da maratona de samba em 2016, no amanhecer de Terça-feira de Carnaval, passou na Avenida popular um pequeno caminhão-baú, sem qualquer relevância a olho nu – ainda mais depois da frota de carros alegóricos que cruzou a Passarela, antes do pequeno veículo. Mas, ali dentro, viajava uma comovente história de devoção ao samba, protagonizada por uma estrela da festa: a rainha de bateria que se reinventou… chefe de almoxarifado. Entre outras atribuições. Tânia de Fátima Souza Lima, a Tânia Bisteka, arrebatou a Sapucaí nos carnavais de 1999 e 2000, como rainha de bateria da Mangueira. O sucesso – premiado, no ano de estreia, com o Estandarte de Ouro, algo raro entre as ocupantes do posto – só encontra paralelo na atual, sua ex-aluna Evelyn Bastos. Hoje, aos 42 anos, ela comanda o almoxarifado do barracão da verde e rosa, com o mesmo amor e orgulho dos tempos de estrelato na pista.

– Fui feliz na fase gostosona, mulherão. Mas soube a hora de parar – orgulha-se ela, uma das grandes passistas da história do Carnaval. – Com 35 anos, fui fazer um show e uma menina, também passista, veio tirar foto comigo e disse: ‘Minha mãe dançou com você’. Senti que tinha chegado a minha hora – relata, com uma sabedoria rara, na reunião de egos inflados chamado mundo do samba.

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Aos 42, permite-se o conforto comer o que gosta, sem a obsessão de manter o corpo impecável (ainda que a beleza esteja lá, por eterna). Só não mudará jamais o amor visceral e inegociável pela Estação Primeira. “Nascida e criada” (bordão preferido dos fiéis da religião verde e rosa) no morro da Mangueira, Bisteka mora lá até hoje – e, benza Deus, para sempre –, e se assume devota da escola. Assim, quando recebeu o convite do presidente Chiquinho da Mangueira, não pensou duas vezes. Ainda que sem saber quase nada do ofício de controlar o material utilizado na confecção de fantasias e alegorias.

Vem roldana, sai torquês; entra braçadeira, vai disco de policorte; guarda a locama, libera a chave inglesa – toca assim o novo ritmo no cotidiano de Bisteka, que, em temporadas mais amenas, dá expediente das 9h às 18h na Cidade do Samba. No mês do Carnaval, ela passou a dormir por lá e teve de fechar o salão de beleza que mantém em casa. Solteira – “Não estou pegando ninguém, juro!” –, ainda coordena as musas da verde e rosa. Rainha que rala!

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Sem crise. Bisteka recebeu o convite de Chiquinho em junho. Quando o presidente perguntou se ela sabia como fazer o serviço, ouviu um “mais ou menos”. Ao chegar em agosto, a rainha decidiu adesivo nas caixas, para memorizar os nomes de cada item. No mais, sua personalidade deu conta rapidamente do trabalho.
– Sou mandona, organizada, chata mesmo. Até em casa – define-se, com dois cadernos diante de si, no balcão do almoxarifado. Dominou de tal forma o trabalho, que levou o caminhão-baú, com peças para consertar eventuais danos em alegorias, à Sapucaí.

Rigorosamente tudo que entra e sai é anotado ali, num sistema ainda não informatizado.

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– Aceitei por gratidão ao Chiquinho – recorda. ela, que encontrou uma bagunça apocalíptica no primeiro dia de trabalho:

– Era surreal. Mas troquei todos os cadeados e tomei posse daqui – descreve, agradecendo ao diretor de ateliê, Júlio Cerqueira, pela preciosa parceria. – Com certeza, no início fui muito xingada pelas costas. Mas perguntava tudo, porque temos de economizar. Não está fácil para ninguém – constata Bisteka.

Ela planeja, agora, com o fim do Carnaval, recomeçar os estudos para fazer faculdade de nutrição, e assim oferecer mais um serviço no seu salão.

– Quero deixar a mulher completa, pronta – projeta ela, que hoje é cabeleireira, esteticista, dermopigmentadora, designer de unha, depiladora e maquiadora. Tudo com diploma!

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Tamanho esforço recebe o devido reconhecimento dos chefes.

– Bisteka é muito a cara da Mangueira – elogia o carnavalesco Leandro Vieira, ainda um aprendiz nas almas em verde e rosa. – Eles são pau para toda obra, vivem o Carnaval como trabalho.

O presidente concorda.

– Ela é mangueirense e eu precisava de alguém honesto, que conhecesse Carnaval e a nossa escola. Não troco a Bisteka por dez funcionários – referenda Chiquinho.

O caminhão-baú, sob o sol do amanhecer da Terça-feira de Carnaval, tinha como passageira uma rainha trabalhadora e campeã.

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No Sábado das Campeãs, lá estava ela, orgulhosa de ver o triunfal desfile da verde e rosa I Foto: Irapuã Jeferson