Sem-teto! Escolas da Série A vão terminar carnaval em terreno abandonado e barracão sem telhado

Por João Miguel Fernandes e Ângelo Mathias

A expectativa de dirigentes e carnavalescos era de que a proximidade do desfile ajudasse a chamar atenção para os problemas que Alegria da Zona Sul e Santa Cruz, da Série A, estão enfrentando para colocar o carnaval na rua. Resultado? Decepção.

Enquanto a vermelho e branco segue desprotegida num terreno abandonado na Avenida Brasil, a verde e branco encontrou alguma proteção num barracão partilhado com a Porto da Pedra na Zona Portuária. Nos dois espaços, um problema grave: não há telhado suficiente para proteger todas as alegorias e fantasias das chuvas de verão.

A Alegria da Zona Sul vai construir carros alegóricos em terreno baldio, enquanto a Santa Cruz ocupa um barracão na Zona Portuária que ainda sofre as consequências de um incêndio | Fotos: Arquivo

Carros alegóricos foram saqueados

Despejada em fevereiro do ano passado do local que ocupava nas redondezas do Porto do Rio, após um laudo da Defesa Civil apontar que havia risco de desabamento no local, a Alegria da Zona Sul se mudou provisoriamente para um terreno baldio às margens da Avenida Brasil, na altura do bairro do Caju, onde, desde que chegou, teve os carros alegóricos depenados por ladrões.

Lá, não há qualquer estrutura fixa que ajude os profissionais da agremiação a trabalharem em segurança. Quem conta é o carnavalesco Marco Antônio Falleiros.

— Nunca tive um carnaval fácil, sempre encarei alguma dificuldade, mas esse ano tá mais acentuado. Perdemos esculturas porque não tínhamos onde colocá-las. Elas poderiam ter sido reaproveitadas. Teremos que fazer tudo do zero. Durante o tempo em que os carros ficaram parados, perdemos tudo. Eles foram saqueados, roubaram pneus e peças do motor. Mas desistir? Nunca! — promete o artista, que assina o quarto desfile pela escola das comunidades do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, localizadas em Copacabana, na Zona Sul carioca.

Em foto do ano passado, a situação precária em que a Alegria da Zona Sul constrói o Carnaval fica nítida: não há qualquer construção no terreno abandonado que ofereça cobertura para as alegorias, que ficam molhadas e rodeadas de lama após as chuvas | Foto: Arquivo pessoal

Presidente conseguiu cobertura

Obrigada pelo regulamento da Série A a cumprir o mínimo de duas alegorias no projeto de carnaval, a Alegria finalmente começou a preparar seus carros nesta segunda, 21. E o start só foi possível porque o presidente Marcus Almeida mobilizou amigos e colaboradores para conseguir uma cobertura instalada temporariamente, que permitisse o início dos trabalhos.

— Vamos lutar até o fim e resistir. Acredito que, apesar de toda dificuldade, vamos conseguir fazer alguma coisa. Pelo menos, garantimos as fantasias num ateliê fora do terreno e estamos bem nesse quesito. Agora, com a cobertura, vamos trabalhar as alegorias — comemora Falleiros, que até publicou uma foto nas redes sociais para festejar a pequena melhoria na ausência de infraestrutura.

Marco Antônio Falleiros posa em cima de uma escultura doada pela Paraíso do Tuiuti, que desfila pelo Grupo Especial | Foto: Reprodução/Facebook

Santa Cruz está em barracão que pegou fogo há seis meses

Lacrado desde agosto de 2018, o barracão da Santa Cruz na Zona Portuária segue indisponível para que a agremiação prepare seu desfile sob a direção artística do carnavalesco Cahê Rodrigues. O terreno pertence à iniciativa privada e, por isso, o despejo foi solicitado no ano passado.

O presidente Zezo conta ao Sambarazzo que os trabalhos estão acontecendo num espaço dividido com a Porto da Pedra, também da Série A, localizado na Rua Equador, na vizinhança da Cidade do Samba. O barracão ainda sofre as consequências de um incêndio que o levou para as manchetes do noticiário em julho.

— O barracão tá destelhado. E as telhas que sobraram podem cair a qualquer momento. O trabalho tá atrasado por causa da falta de verba da prefeitura, estamos tentando fazer com recursos de colaboradores. A gente tá tentando dar o nosso melhor em respeito ao público que já comprou ingresso — desabafa o dirigente.

Barracão que Porto da Pedra e Santa Cruz dividem hoje pegou fogo em julho do ano passado. O presidente da vermelho e branco de São Gonçalo chegou a dizer que o incêndio foi criminoso | Foto: Arquivo pessoal

‘Não acredito no que o prefeito fala’, diz Zezo

Revoltado com o corte de verbas da Prefeitura destinadas à Série A
— de R$ 900 mil por escola em 2017, o valor passou para R$ 250 mil este ano — o presidente da Santa Cruz reclama da falta de credibilidade do prefeito Marcelo Crivella, com quem diz ter se reunido há dois anos para tratar sobre a subvenção municipal para o espetáculo da Sapucaí.

— Não acredito em nada que o prefeito fala. Sentei pra conversar com ele em 2017 e tudo que foi falado não foi cumprido. Não sabemos o que temos pela frente. Ele deve ter colocado (o dinheiro) todo em hospitais públicos, que estão funcionando muito bem — ironiza Zezo, que diz querer lançar o projeto “Samba na Igreja” para tentar despertar o interesse de Crivella, que é evangélico, na festa.

O antigo barracão da Santa Cruz foi lacrado por pertencer à iniciativa privada. Despejo deixou a escola sem um lugar para chamar de seu. Agora, ela divide o barracão com a Porto da Pedra | Foto: Arquivo pessoal

Todo o trabalho e empenho da Alegria da Zona Sul é para mostrar ao público da Avenida o desenvolvimento do enredo “Saravá, Umbanda!”, que conta a história da religião de matriz africana marcada pelo sincretismo religioso do povo brasileiro. Já a Santa Cruz prepara uma homenagem à atriz Ruth de Souza, com o título “Ruth de Souza – Senhora liberdade. Abre as asas sobre nós!”.

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