Por Redação

O musical “Dona Ivone Lara — um sorriso negro” ainda nem entrou em cartaz, mas a peça já ganhou a atenção do grande público a três meses da estreia. É que a atriz escalada para estrelar o espetáculo acabou desistindo do papel.

Com tom de pele mais claro que o da homenageada, que morreu no início de abril aos 97 anos, a paulista Fabiana Cozza desistiu de fazer parte do elenco após ter sido duramente criticada por ativistas do movimento negro. Para eles, Dona Ivone é vista como um dos símbolos da luta das mulheres negras por empoderamento, já que historicamente foi a primeira delas a compor um samba-enredo.

A atriz Fabiana Cozza, anunciada na semana passada como intérprete de Dona Ivone Lara no teatro, foi criticada nas redes sociais por não ter o mesmo tom de pele que a sambista.  Na foto, Fabiana posa ao lado de Jô Santana, um dos idealizadores da peça | Foto: Reprodução/Facebook

Família de Ivone Lara havia aprovado atriz

Desde a semana passada, o anúncio de Fabiana para o papel repercutiu negativamente entre militantes. A origem mestiça (ela é filha de mãe branca e pai negro e foi declarada parda em sua certidão de nascimento) não foi suficiente para acalmar os ânimos. A relação de proximidade entre a paulista e Dona Ivone também não. Elas se conheceram, chegaram a se apresentar juntas e, segundo a família da sambista disse ao Jornal O Globo, Ivone teria se mostrado favorável, ainda em vida, à escolha de Fabiana como intérprete do papel.

“Tinta fraca”, disparou internauta

A página da peça no Facebook chegou a ser avaliada 85 vezes com apenas 1 estrela (entre as 5 possíveis que podem ser atribuídas pelos usuários). Já a foto da atriz (incluída acima) reuniu mais de 700 reações negativas e gerou um debate com cerca de 600 comentários. No debate, o tom da pele da artista foi pauta recorrente:

— A questão aqui é a péssima escolha da direção e produção. Estamos fartos da pigmentação mais forte ser ignorada, no caso de um musical se tratar de uma mulher negra de tom acentuado. Ela (Fabiana Cozza) pode ser hiper talentosa, mas é “tinta fraca”. A pigmentação mais clara continua em vantagem até mesmo entre nós, afrodescendentes. Com todo respeito à cantora, a gente quer ver o tom mais forte sendo também reconhecido e nos palcos e telas da vida — escreveu uma internauta.

O episódio ganhou repercussão em páginas ligadas ao movimento negro. O grupo “Gente Preta”, que reúne quase 350 mil pessoas no Facebook, também divulgou um texto em reprovação à escalação de Fabiana. Seguidores da página responderam propondo um boicote à peça.

— Dona Ivone Lara. Mulher preta, enfermeira, que lutou contra o racismo nos manicômios. Mulher preta, cantora, sambista, sempre presença de exemplo para mulheres pretas na luta contra o machismo e racismo vai ser interpretada por uma branca/beje no teatro! A branquitude não toma vergonha na cara nunca? — questionaram os administradores da página.

Página que reúne apoiadores do movimento negro reprovou a escalação de Fabiana Cozza para o papel de Dona Ivone Lara | Imagem: Reprodução/Facebook

Renúncia

As críticas fizeram com que Fabiana Cozza desistisse do papel no início da tarde do último domingo, 03, através da publicação de uma carta nas redes sociais. Antes de dividir a carta de renúncia com o público, a atriz ganhou o apoio de familiares de Dona Ivone Lara, conforme divulgaram os canais de comunicação oficiais do musical.

— No Brasil, a artista que mais homenageou Dona Ivone Lara foi Fabiana Cozza. Quando o Jô (Santana, produtor do musical) chegou em casa para a reunião sobre o projeto, a família foi unânime, gostaríamos muito que quem vivesse Dona Ivone fosse Fabiana Cozza. Hoje, com o anúncio do nome, comemoramos em festa. Como a própria Dona Ivone dizia, Fabiana é gente lá de casa — disse Eliana, nora da homenageada do musical, em uma publicação no Facebook.

Família de Dona Ivone Lara demonstrou apoio à Fabiana Cozza, mas não conseguiu salvar atriz das críticas | Foto: Divulgação

A tentativa de demonstrar apoio à inclusão de Fabiana no elenco, porém, ganhou outras interpretações. Em mais de uma publicação na página do Facebook, a fala da representante da família de Dona Ivone Lara foi utilizada como possível comprovação da teoria de que a escalação seria fruto de um “Q.I.” (“Quem Indica”), ao contrário do que aconteceu com outros papeis do musical, para os quais foram promovidas audições na última semana, em São Paulo.

Além do apoio da família de Ivone Lara, Fabiana Cozza recebeu mensagens públicas das sambistas Leci Brandão e Teresa Cristina e também da Secretária de Cultura do Rio, Nilcemar Nogueira.

— Logo reflito a desunião do nosso povo negro. Sigo acreditando que precisamos discutir e muito o racismo estrutural. O espetáculo é uma produção feita por negros — escreveu Nilcemar, destacando outros nomes da equipe do musical.

Debate sobre “colorismo” está no centro da questão

A palavra “colorismo”, que se relaciona diretamente com as críticas à Fabiana Cozza, remete à discriminação baseada no tom de pele de uma pessoa. Nesse caso, o racismo seria o preconceito orientado a partir do pertencimento de uma pessoa a uma raça ou grupo étnico, enquanto o colorismo teria como critério exclusivamente a cor da pele.

Segundo essa percepção, negros de pele mais escura (os negros retintos) sofrem mais preconceito do que os negros de pele mais clara, ainda que todos sejam os negros. É a partir da necessidade de representatividade para as mulheres negras de pele mais escura, como Dona Ivone, que ativistas justificam a indignação diante da escalação de Cozza.

Atriz reafirmou origens negras ao desistir da peça

No texto que divulgou através das redes sociais (leia a íntegra ao fim da matéria), Fabiana Cozza disse que a renúncia ao papel de Dona Ivone Lara foi motivada por “muitos gritos de alerta”, mas não por “ladridos raivosos”. A artista abriu o texto reafirmando sua origem negra, ilustrada com os registros de sua certidão de nascimento, e disse sonhar com um futuro em que os negros de pele clara também sejam reconhecidos como parte do movimento.

Dona Ivone e Fabiana Cozza, lado a lado: diferença no tom de pele fez com que atriz resolvesse desistir do papel | Foto: Reprodução/Instagram/@leonardo.gola (publicada por @fabianacozza)

Leia a carta completa escrita por Fabiana e divulgada através das redes sociais:

“Fabiana Cozza dos Santos, brasileira

Nascimento: 16 de janeiro de 1976

Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca

Pai: Oswaldo dos Santos, negro

Cor (na certidão de nascimento): parda

Aos irmãos:

O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo correta. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.

Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.

Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.

Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.

Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas…

Ao lado de vocês, irmãos.

Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.

Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.

Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.

Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.

Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.

Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.

Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.

Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.

Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.

Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.

Fabiana Cozza”

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