Volta por cima! Hostilizada na internet, transexual vira rainha

Por João Paulo Saconi 

O nome artístico de Jéssica Strass faz referência clara às pedrinhas das fantasias que ela veste no Carnaval desde que tinha 10 anos, quando ainda era David. Começou como mestre-sala mirim, foi passista e até rei de bateria, mas, às vezes, não era chamado nem de Jéssica nem de David. Nos ensaios de rua, escutava, com alguma frequência, alguém na plateia gritar um “Sai daí, viado!”.

Nas redes sociais, foi hostilizada por quem acompanhava sua participação no Carnaval e, por isso, sofreu com a depressão por mais de quatro meses. A volta por cima veio com a ajuda da Acadêmicos do Engenho da Rainha (onde foi rei) e dos amigos que fez no samba, além do desejado processo de mudança de gênero feito com ajuda médica através de um tratamento hormonal.

Transexual, Jéssica Strass participava do mundo do samba antes mesmo de passar pela transição | Foto: Reprodução/Facebook

O rei que virou rainha

Para coroar a superação, o título de majestade bateu à porta mais uma vez. Agora, no feminino. Jéssica foi coroada rainha da agremiação do Engenho da Rainha (após dois anos no Império da Praça Seca) e será responsável por abrir o desfile da agremiação pela Série B, na Estrada Intendente Magalhães, no Campinho, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Jéssica, que chegou a ser rei da bateria da Acadêmicos do Engenho da Rainha quando ainda era David, ganhou o título de rainha da escola | Foto: Reprodução/Facebook 

O sonho de brilhar num posto semelhante na Marquês de Sapucaí, porém, ainda é distante. Muito mais do que os 17km que separam os palcos das folias do Grupo Especial e da Série A do restante das agremiações que fazem parte da chamada “festa mais democrática do Brasil”.

— É muito, muito difícil a gente ter um posto desse sendo transexual ou travesti. Ainda mais no Grupo Especial. Não vamos ter um posto desse (rainha da escola ou de bateria). Há um forte preconceito. Até pensam em nos colocar como musa ou destaque. Tem escolas que colocam a gente e nos carregam no peito. Mas tem que ouvir um ‘Ah, vão botar isso na frente da bateria?’ — afirma a trans de 22 anos, que assumiu a orientação sexual para a família aos 13 e se adequou a sua identidade de gênero seis anos depois.

A coroação de David, em 2010, virou destaque no jornal | Foto: Reprodução/Internet

“Nós (transexuais) não servimos só para os bastidores”, frisa Jéssica

Figuras comuns nos barracões das escolas de samba, gays e transexuais costumam participar ativamente da produção de fantasias e alegorias que vão para a Avenida. Não é à toa que o comentarista da TV Globo, Milton Cunha, realiza anualmente um baile voltado para o público LGBT no qual é eleita a vencedora da categoria “Boneca Barracão”.

A luta das transexuais por mais espaço na sociedade passa também pelo Carnaval | Foto: Reprodução/Facebook

Para Jéssica, é hora de os holofotes passarem a iluminar também quem ajuda o espetáculo a tomar forma desde a Cidade do Samba, na Zona Portuária da “Cidade Maravilhosa”. A sugestão vem acompanhada dos relatos de casos de transfobia sofridos por ela e outras trans, além de um pedido aos dirigentes das escolas:

— Nós não servimos só para os bastidores, bordando fantasia ou colando adereço. Já vi trans sendo colocada para fora de banheiro feminino em quadra ou ser maltratada só por estar sambando. Os presidentes e diretores tinham que abrir mais a mente e o coração e ver que a gente tá em 2017 e parar com isso — conta a estilista, que tem o próprio ateliê em casa e ainda é dona de uma loja de artigos de festa.

A demanda pelos banheiros destinados às trans é polêmica antiga. A Viradouro foi a pioneira ao resolver a questão, em 2006, e foi seguida por Porto da Pedra, Vila Isabel, Grande Rio e Unidos da Tijuca.

Na Unidos da Tijuca, o banheiro LGBT ganhou o nome de “Arco-Íris” | Foto: Reprodução/TV Globo

A iniciativa divide opiniões até hoje, já que é considerada uma confortável alternativa para quem não se encaixa nos padrões dos sanitários femininos e masculinos e, ao mesmo tempo, é tida por alguns ativistas como uma maneira de discriminação por supostamente distanciar a comunidade LGBT do convívio social.

Preconceito era maior antes da transição

A fase mais complicada da trajetória como sambista inclui o episódio das críticas recebidas nas redes sociais e que atingiu Jéssica quando ela ainda era David. Para ela, um homem gay sambando à frente de uma bateria incomoda mais do que uma trans.

— Sofri mais quando fui rei. Muita gente me criticou, o povo me julgou muito na internet. A gente gasta e se esforça pra estar no samba. Todos os meus figurinos são impecáveis dos pés à cabeça. A gente investe pra chegar na quadra e ouvir xingamento. Hoje, melhorou muito e as pessoas se acostumaram comigo. Antigamente era pior — finaliza Jéssica, que precisou superar também as barreiras que envolviam a relação com a mãe, que é evangélica, e não aceitou facilmente a orientação sexual da filha.

Princesa Gay do Carnaval, Jéssica posou ao lado da Corte de Momo de 2016. Ela é a de vestido azul, nas cores da Portela, escola em que já desfilou como destaque num carro alegórico | Foto: Reprodução/Facebook

Salgueiro quer ter musa trans

Em entrevista concedida dia desses à Rádio FM O Dia, a presidente do Salgueiro, Regina Celi, manifestou vontade de incluir uma transexual no time de musas da escola. A dirigente da vermelho e branco afirmou ainda que a novidade deve acontecer no Carnaval 2018.

— Eu acho que o preconceito tá na cabeça de cada um. Não tenho preconceito, por que vou achar que não posso botar na minha escola? É uma pessoa como outra qualquer. Não tem diferença. Às vezes, é mais linda que uma mulher. Por que é montada não vai ser respeitada como as outras musas? — indagou Regina.

Regina Celi, do Salgueiro, promete que a escola terá uma musa trans em 2018 | Foto: Irapuã Jeferson