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Por Kaio Sagaz

Não tá fácil pra ninguém! Que o diga Fábio Ricardo, carnavalesco do Império Serrano e que, logo no ano de estreia na verde e branco, precisou encarar uma das fases mais críticas em termos de economia da festa mais popular do país.

O trabalho é duro e incansável. E, faltando pouco mais de 20 dias para o desfile, o artista não esconde que é grande a correria e inevitável o estresse.

– Eu já esperava, com o andamento do trabalho e do repasse de verbas (a prefeitura do Rio cortou pela metade a grana que normalmente dava às escolas do Grupo Especial), que iria estar nesse ponto de estresse e correria. Não tá tudo sob controle, temos que correr cada vez mais contra o tempo, mas não está nada desesperador – garante.

Corrida contra o tempo I Foto: Sambarazzo

“O Império está fazendo o dever de casa”

Segundo o artista, mesmo sem a figura de um patrono pra dar aquele gás nos cofres da escola, a presidente Vera Lúcia não tem medido esforços pra conseguir levar a tradicional agremiação de Madureira a colocar com alguma dignidade o carnaval na rua.

– Ela tá investindo tudo o que pode no barracão. Gosto de terminar os trabalhos uma semana ou duas antes do Carnaval. Desta vez, vou terminar no laço. O Império tá fazendo o dever de casa, dentro do possível. E já fiz um projeto pensando na falta de verba e na dificuldade de material. Agora, tô na fase de colocar as esculturas e já metendo bronca nas bancadas de adereço e de forração de carro – detalha.

“Tenho base pra passar sufoco”

Desde que iniciou a carreira no samba, aos 16 anos, tendo como mentor o lendário Joãosinho Trinta, na Viradouro, e, tempos depois, atuando como auxiliar de Max Lopes na Mangueira, Fabinho, como é chamado nos bastidores da festa, já passou por poucas e boas e, claro, aprendeu muito em tempos de vacas magras.

– Já passei muito aperto no acesso, com a Rocinha. Tive que negociar esculturas e fantasias de outras escolas, e usei as mesmas estruturas de alegorias durante os três anos em que fiquei por lá. É no grupo de acesso que mais reinventamos as coisas, e agora tenho base pra passar esse sufoco no Império – argumenta.

“Vai ser um título se ficarmos no Especial”

Escolas mais ricas também fizeram o artista se virar nos 30 na busca pelas melhores posições na Quarta-feira de Cinzas:

– Trabalhei com dificuldades no barracão da Grande Rio, por exemplo, no ano do baralho (enredo de 2015), e ainda dei o terceiro lugar pra escola. No último ano, da Ivete Sangalo (homenageada de 2017), mesmo com todo o luxo dei os meus 90 pontos em enredo, fantasia e alegoria. Aqui no Império não vai ser diferente. Tô lutando pra conquistar os pontos junto com todos os segmentos. Vai ser um título pra mim se ficarmos no especial, como fiz quando passei pela São Clemente (2011, 2012 e 2013).

Negócio da China

Este ano, o Império Serrano vai falar sobre a China na Sapucaí. Dadas as circunstâncias financeiras, o luxo característico dos chineses vai ficar de fora.

– Tive a felicidade de receber elogios nos meus protótipos de fantasias, alguns disseram que dei um banho em muita coisa. Mas vai ser um carnaval muito mais criativo do que o luxo que é a China – revela.

Apesar de abrir o jogo e o coração ao expor o cenário atual nada glamuroso do Império, Fábio Ricardo ainda sonha em ser campeão.

Se o universo conspirar pra eu dar um título pra alguma escola, vai acontecer. No ano passado, com toda a energia da Avenida, pensei que a Grande Rio seria a campeã. O desfile sobre Maricá (2014) foi surpreendente, mas com a Ivete Sangalo eu jurava que seria a minha hora – conclui.

O Império Serrano vai abrir os desfiles do Grupo Especial carioca, no Domingo de Carnaval, 11 de fevereiro.

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Por Redação

Quem já teve a honra de conversar com Laíla sabe: o papo sempre rende. O “problema” é que quando a prosa é com um jornalista fica difícil até escolher a frase mais impactante pra virar aspa central da matéria. É que o diretor de carnaval da Beija-Flor (quase 50 anos de serviços bem prestados ao samba nas costas) sabe das coisas, e, pra alegria de quem vos escreve, também gosta de falar.

Sem fugir de pergunta alguma num ano atípico para a festa – o Carnaval 2017 foi marcado por trágicos acidentes na Sapucaí, drásticos cortes de verba pelas mãos de um prefeito evangélico e interdição dos barracões a três meses do desfile -, o mandachuva da Beija-Flor soltou o verbo na entrevista ao Sambarazzo.

“Estão querendo regredir pra 1950, quando crioulo não podia cantar samba”

Para o líder da comissão carnavalesca da azul e branco de Nilópolis, o Carnaval do Rio de Janeiro vive um período de retrocesso e censura, que remete à época em que ser sambista era coisa de marginal.

– Acho que estão querendo regredir. Estão querendo trazer o espetáculo de volta pra 1950, quando o samba era proibido, quando crioulo não podia cantar samba, quando as escolas eram perseguidas diretamente – sintetiza.

Apesar do protesto, e convicto de que há clara tentativa de esvaziar a festa, Laíla contemporiza na hora de supor os motivos que teriam levado o prefeito do Rio Marcelo Crivella (PRB) a cortar metade da grana que as agremiações vinham recebendo.

– Não quero acreditar que o prefeito seria louco de querer prejudicar o Carnaval por causa da intolerância religiosa. A gente se pegar por uma guerra religiosa… não pode ser isso. Sou espírita declarado, mas não posso acreditar que ele esteja misturando as coisas. Ele deve estar buscando dentro da cabeça dele segurar o estado, fazer a cidade voltar a ter as rendas habituais. Acho que fez mais pela administração mesmo – pondera.

Barracões interditados: “O Ministério do Trabalho não tá errado”

A respeito das interdições dos 13 barracões da Cidade do Samba, Laíla também não passa a mão na cabeça das escolas. Mas considerou inoportuno o momento para tais fiscalizações, que obrigaram as chamadas “fábricas dos sonhos” a ficar de portas fechadas a três meses do evento na Sapucaí – a liberação aconteceu esta semana.

– O Ministério do Trabalho não tá errado, só acho que essa fiscalização foi tardia e aconteceu na hora errada, faltando pouco tempo pro desfile. Mas tenho certeza de que havia necessidade disso. Estávamos habituados a trabalhar no ‘bota pra lá, bota pra cá’. Não tinha segurança. Mas que local de trabalho não deve ser seguro? Todos devem ser – frisa.

As vistorias nos barracões atrasaram – e muito – o Carnaval 2018.

– Tá tudo bastante atrasado. Hoje, estamos só com 30% da escola pronta. Mas, quando chegar na semana do Carnaval, vamos terminar tudo, como sempre – garante Laíla, adiantando que ano que vem a Beija-Flor vai desfilar com 3300 pessoas, cinco carros alegóricos e um tripé.

“Custou a acontecer”, diz Laíla sobre acidentes do Carnaval 2017

Concluídas as fiscalizações, e agora tocando o carnaval em ambiente considerado mais seguro pelos órgãos competentes, Laíla fica à vontade para falar dos chocantes acidentes da Sapucaí este ano, que tiveram contornos dramáticos e triste fim: a radialista Liza Carioca, atropelada por uma desgovernada alegoria da Paraíso do Tuiuti, no Domingo de Carnaval, morreu após meses de internação:

– Custou a acontecer. Não deveria ter tragédia, mas, da maneira como era tocado, custou a acontecer. Infelizmente, acidentes acontecem, mas a prevenção é sempre bem-vinda. Agora, acidente sempre teve, sempre teve carro que bateu, destaque que caiu, até na Beija-Flor… Mas nada nessa proporção.

Fim de uma era? Laíla e o cancelamento dos ensaios técnicos

Outra notícia que deu um balde de água fria nos amantes do samba foi o fim dos ensaios técnicos no Sambódromo, que deixam o calendário oficial da cidade após 15 anos de treinos de graça, com arquibancadas lotadas.

– Sugeri à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) um ensaio técnico coletivo, em reunião com a presença de diretores de todas as escolas. Sugeri de, na lavagem da Sapucaí, cada escola levar componentes e fazer um grande desfile com todas, cantando sambas como um pout-pourri, emendando um no outro. Teve um ato lá da Igreja Evangélica, por que o samba não poderia se manifestar assim? Mas depende da liga. A ideia foi dada, e seria um ato lindíssimo – acredita.

Apesar de lamentar o cancelamento dos treinos técnicos no palco principal da festa, Laíla acha que as escolas pouco vão sentir, na prática, a falta do ensaio na Avenida, que pra ele tinha pouca valia no aspecto técnico:

– O ensaio é muito bom pro povo que não tem condições de assistir no dia do desfile oficial. Mas você faz um ensaio técnico hoje, e no desfile é completamente diferente. Dá até pra consertar, corrigir alguma coisa que poderia dar errado no dia do desfile, mas vale muito mais como festa. Proveito mesmo você só tira no dia. Já aconteceu da Beija-Flor fazer um ensaio ótimo e no dia do desfile estar uma escola morna. Mas é pena acabar, já tinha virado hobby pro sambista.

“Faria de novo”, garante Laíla sobre botar 100% dos componentes fantasiados de índio

Os jurados não curtiram e avaliaram mal o quesito “Fantasias” da Beija-Flor no último carnaval – foram sete décimos perdidos, sem considerar o descarte da nota mais baixa (9,7 – 9,9 – 9,9 – 9,8). Laíla acreditou que daria certo a ideia de vestir a escola inteira de índio dentro do enredo “A virgem dos lábios de mel – Iracema”, inspirado no clássico de José de Alencar. Mas arrependimento é uma palavra que não compõe o dicionário do diretor.

– Faria de novo. Considero a ideia magnífica pra diminuir um pouco do modelo antigo, e fazer uma nova linguagem. Mas não soubemos fazer uma execução excelente. Foi um problema artístico, e nisso me incluo. A responsabilidade é minha – assume.

“Se o Paulo Barros fizer amanhã, vão dizer que ele é gênio”

Seguidor da doutrina espírita e muito atento às energias que movem o mundo, Laíla afirma que a torcida contra ajudou a fazer a ideia dos índios não dar certo.

– Foram 12 escolas de samba, e as 11 não queriam que desse certo. Porque iria revolucionar. Aí, toma-lhe porrada. Hoje, é tudo igual nos desfiles. É muito comum encher tudo de pluma e enganar trouxa. Mas aí o componente balança a cabeça e tá todo mundo emocionado. Na verdade, o desfile de escola de samba perdeu padrão artístico. Todo mundo tem direito de gostar ou não gostar dos índios, mas teve pessoas de conhecimento carnavalesco que elogiaram. Se o Paulo (Barros) fizer amanhã, vão dizer que ele é um gênio. Mas é aquilo, estou sempre tentando o diferente. Pode não dar certo, mas tô tentando – avalia.

“Não sou brigão. Defendo aquilo que faço”

Embora faça o mea-culpa em relação às fantasias pouco variadas, Laíla aproveita pra reclamar da alternância de créditos na alegria e na tristeza.

– Funciona assim: deu certo, as 'garotas' aparecem. Deu errado, o velho segura. Não me arrependo de nada na minha carreira. Sou brigão? Não sou brigão. Defendo aquilo que faço. Estou há 23 anos aqui, e se ficar mais 23 a porrada vai ser pior. Toda carreira tem altos e baixos. Mas tenho pontuado muito nesse tempo todo. Acho que tive muitos acertos – opina.

Para 2018, Laíla vai dividir a glória ou a derrota com uma comissão composta por Cid Carvalho (de volta à escola após mais de uma década longe), Victor Santos, Bianca Behrends, Léo Mídia e Rodrigo Pacheco, além do luxuoso auxílio do coreógrafo Marcelo Misailidis, idealizador do enredo "Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu", e Gabriel David, herdeiro do patrono Anísio Abraão David e que, aos 20 anos, cada vez ganha mais espaço na escola.

– Temos um pensamento coletivo. Hoje, temos poder de criação, de ideias na parte alegórica, com o Marcelo, com as novas ideias novas e modernas do Gabriel, e com o conhecimento e habilidade de cada um da equipe. Cada um tem uma função. Eu sou o da porrada e ao mesmo tempo o de passar a mão na cabeça – diz.

Crise? Que crise? “A Beija-Flor não vai parar de gastar. Não nos falta nada”

Ficar em sexto lugar na última temporada fará a Beija-Flor surgir na Passarela do Samba em 2018 mais moderna, apesar da crise financeira que assola o país.

– Depois do carnaval deste ano, decidimos que alegoricamente a gente deveria mudar. Dentro desses caminhos novos, tem que diminuir as despesas, fazer alguns ajustes. Se antes tinha 100 esculturas, passa a ter 10. Mas é muito simples: estamos em crise, mas qual é a escola que vai deixar de fazer carnaval pra ganhar? Não nos falta nada. Mas não se joga dinheiro fora como antes. A estrutura mudou – explica.

Aos 74 anos, Laíla diz que ganha bem com o carnaval: “Tô rico de experiência”

Falando em dinheiro, Laíla não revela quanto ganha, mas diz ser o suficiente para um profissional de seu gabarito. E, aos 74 anos, diz que ainda há muitos sonhos a realizar:

– Rico? Tô rico de felicidade, de experiência. Gosto de receber o que recebo, tô satisfeito. Tinha outras formas de ganhar mais, saía muito pra fazer trabalhos em escolas fora do Rio. Mas hoje a idade pesa um pouquinho.

“Jamais pensei que seria referência”

Luiz Fernando do Carmo virou Laíla e entrou pra história da festa popular mais famosa do planeta ao trilhar uma bem-sucedida trajetória. Embora não buscasse isso, é ciente de que virou referência quando o assunto é direção de carnaval. No entanto, não aponta um sucessor.

– Acho válido uma escola ter diretor de carnaval a partir do momento que esse profissional tenha conhecimento. Esse cargo surgiu pra banir a direção de harmonia. Eu, aqui na Beija-Flor, assumi direção de carnaval e harmonia pra não ter ninguém me mandando que saiba menos que eu. Jamais pensei que seria referência. Mas não indico ninguém. Ninguém me indicou pra nada – lembra Laíla, que já emprestou seu talento a outras bandeiras, como Salgueiro, Unidos da Tijuca e Grande Rio.

Apesar do vasto currículo e de uma vida dedicada ao samba – em 2018, Laíla completa 50 anos como diretor de carnaval -, ele não fala em aposentadoria.

– Ninguém se realiza antes da morte. Ainda tenho muita coisa pra fazer. Na vida pessoal, não quero mais nada. Na vida profissional, estou sempre buscando – conclui.

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Por João Paulo Saconi

A crise econômica, que não tem deixado quase nenhum brasileiro dormir tranquilo, fez com que coreógrafos das comissões de frente do Grupo Especial saíssem mais cedo da cama nesta terça, 22, para participar de uma manifestação no Centro da cidade do Rio de Janeiro. É que as dificuldades orçamentárias do governo estadual – entre elas, o parcelamento em 7 vezes do salário referente a outubro de quase 40% dos servidores públicos – ganharam contornos tão grandes que até o pagamento de quem trabalha no Theatro Municipal entrou na dança.

O atraso e o fatiamento da remuneração atinge bailarinos do teatro, como Priscilla Mota e Rodrigo Negri (que trabalham pra Grande Rio); Claudia Mota (da Imperatriz Leopoldinense) e Saulo Finelon (coreógrafo da Mocidade e da Alegria da Zona Sul), além do diretor da divisão de dança do Municipal, Hélio Bejani (que dá expediente no samba no Salgueiro e na Acadêmicos do Cubango).

Responsável por trabalhos marcantes no quesito que abre os desfiles das escolas na Sapucaí, o time de artistas resolveu protestar por melhores condições para si mesmos e para quem trabalha com eles no local que foi responsável por projetá-los em direção ao Sambódromo.

O ato teve início em frente ao próprio Theatro e seguiu em passeata até a Assembeia Estadual do Rio de Janeiro (Alerj).

Simbolicamente de luto, os coreógrafos Priscilla Mota (Grande Rio), Hélio Bejani (Salgueiro)
Simbolicamente de luto, os coreógrafos Priscilla Mota (Grande Rio), Hélio Bejani (Salgueiro), Claudia Mota (Imperatriz), Rodrigo Negri (Grande Rio) e Saulo Finelon (Mocidade) foram às ruas para protestar contra a falta de salários no Theatro Municipal, onde trabalham. Ao fundo, policiais e tapumes protegem a Assembleia Legislativa do Rio | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

“É uma vergonha”, aponta coreógrafo do Salgueiro

Hélio Bejani, que tem no currículo 33 anos de serviços prestados à Fundação Theatro Municipal, é uma das vítimas da crise. Ao Sambarazzo, ele lamenta a situação vivenciada por ele e outros servidores.

– É o meu salário, o que faz jus ao meu trabalho. O carnaval é mais um trabalho que tenho, graças ao teatro. É uma vergonha ter 55 anos de idade e não ter meu salário. Pra qualquer ser humano, qualquer pai de família, a situação é deprimente. Se fosse por um motivo justo, a gente aceitaria. Sempre vamos abraçar o nosso estado. O problema é que foi por essa roubalheira toda, pela irresponsabilidade de determinados líderes do nosso governo. O Municipal é um celeiro de artistas pro país, inclusive pro carnaval – afirma.

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Coreógrafo do Salgueiro e diretor da divisão de dança do Theatro Municipal, Hélio Bejani protestou contra o fatiamento dos salários dos servidores estaduais: “Uma vergonha” | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

O coreógrafo, que desenvolve as criações em dupla com a mulher, Beth Bejani, destacou todo o descontentamento com a classe política responsável pelo estado fluminense:

– É uma grande loucura desses caras, que não dá mais nem pra chamar de pessoas idôneas. São “caras” mesmo. O Rio hoje é o pior estado do Brasil. É uma vergonha o que está acontecendo.

Carnaval é a salvação: “É o que está segurando todo mundo”, diz coreógrafa

Há 18 anos ocupando o posto de primeira bailarina do Municipal, Claudia Mota vai coreografar a comissão de frente da Imperatriz pela primeira vez no ano que vem. O trabalho na agremiação tem sido, segundo ela, um alívio para quitar as contas no fim do mês.

– Se não fosse o carnaval, eu não sei como estaria hoje. Graças a Deus tenho como fazer gala (de balé) fora e recebo alguma coisa que me ajuda, ajuda a minha família. Não quer dizer que eu esteja bem. Preciso receber pelo trabalho que faço. O meu emprego é o Theatro Municipal – explica a dançarina, que criticou a ausência de outros colegas, também prejudicados, na manifestação e disse estar comovida com o caso de um servidor que relatou ter recebido uma parcela do salário no valor de R$ 64,53.

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Em família, as irmãs Priscilla (à esquerda) e Claudia Mota (à direita) vestiram, literalmente, a camisa do Municipal para participar da manifestação | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Claudia e a irmã, Priscilla Mota, responsável pela abertura dos desfiles da Grande Rio, participaram de duas performances de dança durante o protesto (referentes aos clássicos “Carmina Burana” e “Carmen”). Bailarina do Municipal há 14 anos, Priscilla também tem encontrado no samba um motivo a menos para se preocupar com as contas, mas participou ativamente do ato de maneira solidária.

– O carnaval é o que tá segurando todo mundo que também trabalha no Municipal. Mas, nesse momento, a gente tem que se solidarizar com todo mundo e, independentemente de estar ou não passando dificuldades, precisamos estar ao lado deles. Mesmo tendo ensaiado de madrugada, acordei cedo pra estar aqui junto com meus companheiros. Todos estamos sem receber – diz a profissional, que trabalha ao lado do marido, Rodrigo Negri, nos projetos que desenvolve para a Passarela do Samba. Ele, assim como Priscilla, é veterano na dança e tem 18 anos de carreira no tradicional teatro da Cinelândia, e também esteve presente na manifestação.

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Ao lado de outros bailarinos, Priscilla e Claudia participaram de uma performance em meio ao protesto dos servidores do Theatro Municipal | Fotos: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Medo de repressão não afastou coreógrafo: “Momento de correr o risco”

Saulo Finelon, que atua ao lado do companheiro Jorge Teixeira nas comissões de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel e da Alegria da Zona Sul, preocupou parentes e amigos quando contou que estaria na Alerj. Apesar de temer conflitos entre manifestantes e a polícia, como tem ocorrido em outras ocasiões, o bailarino (que tem duas décadas de atividades no Municipal) fez questão de sair de casa para fazer parte do momento.

– A gente acha uma injustiça o servidor ter que pagar por toda a corrupção que está acontecendo no estado. Infelizmente, é o povo que paga. Ficam todos (parentes e amigos) com medo (da repressão). Geralmente, fazemos um movimento mais cultural e tentamos chamar a atenção de outra maneira. Mas é o momento de sair de casa e correr o risco, porque se ficarmos na zona de conforto, as coisas não vão mudar – conclui Saulo, que no último carnaval participou da idealização de uma crítica política inserida na comissão de frente da Mocidade, que encenou a prisão dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff em plena Avenida.

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Responsável pelas comissões de frente da Mocidade e da Alegria da Zona Sul, Saulo Finelon não viu na possibilidade de tumulto um motivo para não participar do protesto | Foto: Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Manifestação parou o trânsito e mobilizou policiais

O ato começou às 9h30 em frente ao Theatro Municipal, que está com as atividades paralisadas desde a segunda-feira passada, 14, quando os servidores deliberaram pela greve. Sessões da ópera “Jenůfa”, programadas para acontecer no último final de semana, foram canceladas e o público que comprou ingressos antecipados precisou pegar o dinheiro de volta.

A manifestação lotou o espaço que fica à frente da Alerj, localizada ao lado da Praça XV, no Rio de Janeiro | Foto: Irapuã Jeferson
A manifestação lotou o espaço que fica à frente da Alerj, localizada ao lado da Praça XV, no Rio de Janeiro | Foto: Irapuã Jeferson

Para tentar reverter o quadro, os manifestantes chegaram à Alerj por volta das 10h30 e interromperam o trânsito de automóveis na Rua Primeiro de Março até as 16h. Embora tenha mobilizado dezenas de policiais em frente à Assembleia, o protesto ocorreu sem tumultos e teve como trilha sonora alguns clássicos musicais que marcaram a história do Municipal, como “Trenzinho Caipira”, do maestro Heitor Villa-Lobos.

Confira o vídeo da performance feita pelas coreógrafas Priscilla e Claudia Mota:

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Por Redação

Que a crise está aí, corroendo as finanças do brasileiro, não é novidade pra ninguém. E é claro que essa retração nacional não passaria sem deixar rastro no Carnaval. Com menos dinheiro em caixa, custos majorados e a sempre presente cobrança em fazer jus ao chamado maior espetáculo da terra, os presidentes das escolas de samba têm de se virar nos “30”.

Com a desafiadora missão de fechar as contas, tá valendo de tudo dentro do barracão de algumas escolas de samba do Rio de Janeiro. Na Unidos da Tijuca, por exemplo, o presidente Fernando Horta está querendo economizar pela conta de luz. Para não deixar cair o nível do desfile da azul e amarelo, o comandante da escola do Pavão prefere ficar no calorão e manda desligar o ar-condicionado, quando acha que não há tanta necessidade de refrescar o ambiente de trabalho.

– Está muito difícil para a gente fechar essas contas. Pode ser que em janeiro as coisas sejam diferentes, mas vamos tentar. Temos que superar isso tudo com criatividade e imaginação, pra fazer esse grande espetáculo. Mando desligar a luz quando não é necessário, mando desligar o ar-condicionado… O que não podemos é deixar cair o nível do nosso carnaval – diz Horta, que viu a Tijuca fechar seu balanço do último ano sem nenhuma dívida, mas ainda não sabe como ficará a situação após o desfile de 2016.

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Presidente da Tijuca, Horta não está nem aí para os 40° graus do verão: o negócio é manter o desfile tijucano em alto nível – Foto: Divulgação/Mauro Samagaio

“Que as pessoas que prometeram ajuda não falhem”, pede presidente da Ilha

É verdade que a União da Ilha não tem nenhum título no Grupo Especial (seu melhor resultado foi um segundo lugar com “Bom, bonito e barato”, em 1980), mas o mês de dezembro era um dos períodos do ano mais vitoriosos para os torcedores da tricolor. No que já vinha se transformando numa tradição recente do Carnaval, a escola do presidente Ney Filardi estava sempre um passo à frente da maioria das agremiações na confecção do desfile nas dependências da Cidade do Samba, na Gamboa, Zona Central do Rio. Mas, também sofrendo os piores efeitos da crise financeira, a representante da Ilha do Governador já não ostenta mais aquele adiantamento no trabalho no complexo de barracões.

– Em relação aos outros anos, já era para ter 80% das coisas prontas. A crise também chegou na escola que eu dirijo. Espero que algumas promessas sejam traduzidas em realidade e as pessoas que me prometeram ajuda não falhem. O cronograma é totalmente diferente. O dinheiro faz uma falta terrível. Mas nada desesperador, é a crise. Tudo vai sair, a hora vai chegar – assegura Ney, com certo otimismo.

Carnaval da Ilha está atrasado quando comparado aos cronogramas dos últimos anos | Foto: Divulgação
Carnaval da Ilha está atrasado quando comparado aos cronogramas dos últimos anos – Foto: Divulgação

Presidente da Viradouro, da Série A, acha que quitaria dívidas com verba do Especial

Se no Grupo Especial, que é a elite do Carnaval carioca, a coisa já está preta, imagine na Série A, que não tem os mesmos contratos e nem os mesmos repasses generosos, tampouco a mesma força dos holofotes… Presidente da Unidos do Viradouro, escola rebaixada no último desfile, Gusttavo Clarão vem sentindo na pele o peso da queda para o “segundo grupo”.

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Presidente da Viradouro afirma que se tivesse ficado no Grupo Especial teria chances de quitar as dívidas da escola – Foto: Irapuã Jeferson

– Vou ser bem sincero. Nessa época de crise, acho que a gente está tirando leite de pedra. Desde que assumi, a escola tinha dívidas. Consegui abater muita coisa. Muito processo trabalhista, muito bloqueio, mas as coisas continuam. Se a gente continuasse no Especial, acredito que teríamos sanado essas dívidas.

Colaboraram: Luiz Felippe Reis, Leonardo Lupi e Rafael Arantes

 

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Por João Paulo Saconi

Na Marquês de Sapucaí, o grito de guerra de Wantuir de Oliveira, da Portela, é um dos mais notáveis e conhecidos pelo público folião. Nos arredores da residência do intérprete, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o som que ganha espaço semanalmente é o tradicional barulho dos comerciantes e moradores em sua habitual negociação, da qual o cantor faz parte desde garoto. Casado com a funcionária pública Rosilene Pereira há dois anos, é o maridão quem faz as compras da casa e faz questão de ir à feira para encher as sacolas e garantir a dispensa cheia, a um preço camarada.

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Com um bom poder de barganha, Wantuir nunca deixa a feira que frequenta em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, de mãos abanando – Foto: Irapuã Jeferson

Com a maior lábia, o cantor oficial da Portela solta a voz na hora de pagar menos por mais.

– Quando chego, faço a minha caminhada pela feira estudando o preço. Não compro nada muito maduro, porque dura pouco e estraga logo. Gasto de R$ 20 a R$ 30 reais, depende do que vou comprar lá pra casa – conta o mais famoso feirante de Caxias, conhecido e querido por todos os vizinhos e comerciantes.

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Encontro de “coirmãos”! Com a camisa da Portela, Wantuir compra bananas com um vendedor salgueirense: amizade de quem se encontra na feira há muitos carnavais – Foto: Irapuã Jeferson

Para não ter erro nas compras da semana, Rosilene, a mulher de Wantuir, prepara uma lista dos produtos, que o intérprete, que divide o microfone portelense com o recém-chegado à escola Gilsinho, segue à risca. Mas, se faltar qualquer item dos pedidos, Wantuir já sabe que deve correr para o mercado e comprar.

– Minha mulher faz uma lista e eu vou à feira. Como ela trabalha como funcionária pública, eu preciso ir. É ela quem cozinha em casa. Se falta algo, ela não fica brava, mas eu vou no mercado e compro o que faltou – diz o músico, que tem a carne assada preparada pela amada como sua comida favorita, sempre acompanhada de uma salada com ingredientes que ele arruma com aquele desconto em suas frequentes idas à feira.

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Intérprete compra alface para a salada que acompanha seu prato favorito: carne assada – Foto: Irapuã Jeferson

Com os anos de experiência quando o assunto é feira, Wantuir sai de casa todas as quartas-feiras para escolher a dedo as frutas e os legumes que vai comprar. Sem pressa, o artista fica circulando entre as barracas até a hora da xepa.

– Vou há bastante tempo, desde criança. Tenho poucas lembranças sobre esse tempo, eu ia mais pra acompanhar o pessoal lá de casa – relembra o cantor da azul e branco de Madureira, que tem 58 anos e é nascido na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte.

Foto de capa: Irapuã Jeferson