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Por Redação

Quem já teve a honra de conversar com Laíla sabe: o papo sempre rende. O “problema” é que quando a prosa é com um jornalista fica difícil até escolher a frase mais impactante pra virar aspa central da matéria. É que o diretor de carnaval da Beija-Flor (quase 50 anos de serviços bem prestados ao samba nas costas) sabe das coisas, e, pra alegria de quem vos escreve, também gosta de falar.

Sem fugir de pergunta alguma num ano atípico para a festa – o Carnaval 2017 foi marcado por trágicos acidentes na Sapucaí, drásticos cortes de verba pelas mãos de um prefeito evangélico e interdição dos barracões a três meses do desfile -, o mandachuva da Beija-Flor soltou o verbo na entrevista ao Sambarazzo.

“Estão querendo regredir pra 1950, quando crioulo não podia cantar samba”

Para o líder da comissão carnavalesca da azul e branco de Nilópolis, o Carnaval do Rio de Janeiro vive um período de retrocesso e censura, que remete à época em que ser sambista era coisa de marginal.

– Acho que estão querendo regredir. Estão querendo trazer o espetáculo de volta pra 1950, quando o samba era proibido, quando crioulo não podia cantar samba, quando as escolas eram perseguidas diretamente – sintetiza.

Apesar do protesto, e convicto de que há clara tentativa de esvaziar a festa, Laíla contemporiza na hora de supor os motivos que teriam levado o prefeito do Rio Marcelo Crivella (PRB) a cortar metade da grana que as agremiações vinham recebendo.

– Não quero acreditar que o prefeito seria louco de querer prejudicar o Carnaval por causa da intolerância religiosa. A gente se pegar por uma guerra religiosa… não pode ser isso. Sou espírita declarado, mas não posso acreditar que ele esteja misturando as coisas. Ele deve estar buscando dentro da cabeça dele segurar o estado, fazer a cidade voltar a ter as rendas habituais. Acho que fez mais pela administração mesmo – pondera.

Barracões interditados: “O Ministério do Trabalho não tá errado”

A respeito das interdições dos 13 barracões da Cidade do Samba, Laíla também não passa a mão na cabeça das escolas. Mas considerou inoportuno o momento para tais fiscalizações, que obrigaram as chamadas “fábricas dos sonhos” a ficar de portas fechadas a três meses do evento na Sapucaí – a liberação aconteceu esta semana.

– O Ministério do Trabalho não tá errado, só acho que essa fiscalização foi tardia e aconteceu na hora errada, faltando pouco tempo pro desfile. Mas tenho certeza de que havia necessidade disso. Estávamos habituados a trabalhar no ‘bota pra lá, bota pra cá’. Não tinha segurança. Mas que local de trabalho não deve ser seguro? Todos devem ser – frisa.

As vistorias nos barracões atrasaram – e muito – o Carnaval 2018.

– Tá tudo bastante atrasado. Hoje, estamos só com 30% da escola pronta. Mas, quando chegar na semana do Carnaval, vamos terminar tudo, como sempre – garante Laíla, adiantando que ano que vem a Beija-Flor vai desfilar com 3300 pessoas, cinco carros alegóricos e um tripé.

“Custou a acontecer”, diz Laíla sobre acidentes do Carnaval 2017

Concluídas as fiscalizações, e agora tocando o carnaval em ambiente considerado mais seguro pelos órgãos competentes, Laíla fica à vontade para falar dos chocantes acidentes da Sapucaí este ano, que tiveram contornos dramáticos e triste fim: a radialista Liza Carioca, atropelada por uma desgovernada alegoria da Paraíso do Tuiuti, no Domingo de Carnaval, morreu após meses de internação:

– Custou a acontecer. Não deveria ter tragédia, mas, da maneira como era tocado, custou a acontecer. Infelizmente, acidentes acontecem, mas a prevenção é sempre bem-vinda. Agora, acidente sempre teve, sempre teve carro que bateu, destaque que caiu, até na Beija-Flor… Mas nada nessa proporção.

Fim de uma era? Laíla e o cancelamento dos ensaios técnicos

Outra notícia que deu um balde de água fria nos amantes do samba foi o fim dos ensaios técnicos no Sambódromo, que deixam o calendário oficial da cidade após 15 anos de treinos de graça, com arquibancadas lotadas.

– Sugeri à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) um ensaio técnico coletivo, em reunião com a presença de diretores de todas as escolas. Sugeri de, na lavagem da Sapucaí, cada escola levar componentes e fazer um grande desfile com todas, cantando sambas como um pout-pourri, emendando um no outro. Teve um ato lá da Igreja Evangélica, por que o samba não poderia se manifestar assim? Mas depende da liga. A ideia foi dada, e seria um ato lindíssimo – acredita.

Apesar de lamentar o cancelamento dos treinos técnicos no palco principal da festa, Laíla acha que as escolas pouco vão sentir, na prática, a falta do ensaio na Avenida, que pra ele tinha pouca valia no aspecto técnico:

– O ensaio é muito bom pro povo que não tem condições de assistir no dia do desfile oficial. Mas você faz um ensaio técnico hoje, e no desfile é completamente diferente. Dá até pra consertar, corrigir alguma coisa que poderia dar errado no dia do desfile, mas vale muito mais como festa. Proveito mesmo você só tira no dia. Já aconteceu da Beija-Flor fazer um ensaio ótimo e no dia do desfile estar uma escola morna. Mas é pena acabar, já tinha virado hobby pro sambista.

“Faria de novo”, garante Laíla sobre botar 100% dos componentes fantasiados de índio

Os jurados não curtiram e avaliaram mal o quesito “Fantasias” da Beija-Flor no último carnaval – foram sete décimos perdidos, sem considerar o descarte da nota mais baixa (9,7 – 9,9 – 9,9 – 9,8). Laíla acreditou que daria certo a ideia de vestir a escola inteira de índio dentro do enredo “A virgem dos lábios de mel – Iracema”, inspirado no clássico de José de Alencar. Mas arrependimento é uma palavra que não compõe o dicionário do diretor.

– Faria de novo. Considero a ideia magnífica pra diminuir um pouco do modelo antigo, e fazer uma nova linguagem. Mas não soubemos fazer uma execução excelente. Foi um problema artístico, e nisso me incluo. A responsabilidade é minha – assume.

“Se o Paulo Barros fizer amanhã, vão dizer que ele é gênio”

Seguidor da doutrina espírita e muito atento às energias que movem o mundo, Laíla afirma que a torcida contra ajudou a fazer a ideia dos índios não dar certo.

– Foram 12 escolas de samba, e as 11 não queriam que desse certo. Porque iria revolucionar. Aí, toma-lhe porrada. Hoje, é tudo igual nos desfiles. É muito comum encher tudo de pluma e enganar trouxa. Mas aí o componente balança a cabeça e tá todo mundo emocionado. Na verdade, o desfile de escola de samba perdeu padrão artístico. Todo mundo tem direito de gostar ou não gostar dos índios, mas teve pessoas de conhecimento carnavalesco que elogiaram. Se o Paulo (Barros) fizer amanhã, vão dizer que ele é um gênio. Mas é aquilo, estou sempre tentando o diferente. Pode não dar certo, mas tô tentando – avalia.

“Não sou brigão. Defendo aquilo que faço”

Embora faça o mea-culpa em relação às fantasias pouco variadas, Laíla aproveita pra reclamar da alternância de créditos na alegria e na tristeza.

– Funciona assim: deu certo, as 'garotas' aparecem. Deu errado, o velho segura. Não me arrependo de nada na minha carreira. Sou brigão? Não sou brigão. Defendo aquilo que faço. Estou há 23 anos aqui, e se ficar mais 23 a porrada vai ser pior. Toda carreira tem altos e baixos. Mas tenho pontuado muito nesse tempo todo. Acho que tive muitos acertos – opina.

Para 2018, Laíla vai dividir a glória ou a derrota com uma comissão composta por Cid Carvalho (de volta à escola após mais de uma década longe), Victor Santos, Bianca Behrends, Léo Mídia e Rodrigo Pacheco, além do luxuoso auxílio do coreógrafo Marcelo Misailidis, idealizador do enredo "Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu", e Gabriel David, herdeiro do patrono Anísio Abraão David e que, aos 20 anos, cada vez ganha mais espaço na escola.

– Temos um pensamento coletivo. Hoje, temos poder de criação, de ideias na parte alegórica, com o Marcelo, com as novas ideias novas e modernas do Gabriel, e com o conhecimento e habilidade de cada um da equipe. Cada um tem uma função. Eu sou o da porrada e ao mesmo tempo o de passar a mão na cabeça – diz.

Crise? Que crise? “A Beija-Flor não vai parar de gastar. Não nos falta nada”

Ficar em sexto lugar na última temporada fará a Beija-Flor surgir na Passarela do Samba em 2018 mais moderna, apesar da crise financeira que assola o país.

– Depois do carnaval deste ano, decidimos que alegoricamente a gente deveria mudar. Dentro desses caminhos novos, tem que diminuir as despesas, fazer alguns ajustes. Se antes tinha 100 esculturas, passa a ter 10. Mas é muito simples: estamos em crise, mas qual é a escola que vai deixar de fazer carnaval pra ganhar? Não nos falta nada. Mas não se joga dinheiro fora como antes. A estrutura mudou – explica.

Aos 74 anos, Laíla diz que ganha bem com o carnaval: “Tô rico de experiência”

Falando em dinheiro, Laíla não revela quanto ganha, mas diz ser o suficiente para um profissional de seu gabarito. E, aos 74 anos, diz que ainda há muitos sonhos a realizar:

– Rico? Tô rico de felicidade, de experiência. Gosto de receber o que recebo, tô satisfeito. Tinha outras formas de ganhar mais, saía muito pra fazer trabalhos em escolas fora do Rio. Mas hoje a idade pesa um pouquinho.

“Jamais pensei que seria referência”

Luiz Fernando do Carmo virou Laíla e entrou pra história da festa popular mais famosa do planeta ao trilhar uma bem-sucedida trajetória. Embora não buscasse isso, é ciente de que virou referência quando o assunto é direção de carnaval. No entanto, não aponta um sucessor.

– Acho válido uma escola ter diretor de carnaval a partir do momento que esse profissional tenha conhecimento. Esse cargo surgiu pra banir a direção de harmonia. Eu, aqui na Beija-Flor, assumi direção de carnaval e harmonia pra não ter ninguém me mandando que saiba menos que eu. Jamais pensei que seria referência. Mas não indico ninguém. Ninguém me indicou pra nada – lembra Laíla, que já emprestou seu talento a outras bandeiras, como Salgueiro, Unidos da Tijuca e Grande Rio.

Apesar do vasto currículo e de uma vida dedicada ao samba – em 2018, Laíla completa 50 anos como diretor de carnaval -, ele não fala em aposentadoria.

– Ninguém se realiza antes da morte. Ainda tenho muita coisa pra fazer. Na vida pessoal, não quero mais nada. Na vida profissional, estou sempre buscando – conclui.

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De férias na Itália, mas ligada em tudo o que rola no Brasil, Marcella Alves aproveitou a viagem de lazer para fazer uma fezinha.

Sidclei Santos e Marcella Alves formam o casal de mestre-sala e porta-bandeira principal do Salgueiro | Foto: Valéria del Cueto

Impactada, como a maioria dos sambistas, com a notícia de que a prefeitura do Rio decidiu reduzir em 50% a subvenção às escolas de samba, e ciente de que a Liesa divulgou comunicado suspendendo os desfiles de 2018, alegando não ter condições de produzir o espetáculo da Sapucaí, a porta-bandeira do Salgueiro resolveu levar a bandeira da vermelho e branco pra ser abençoada no Vaticano, sede e símbolo mundial da Igreja Católica.

– Que Deus nos ajude e que a manifestação cultural do nosso povo continue recebendo a devida importância. Não deixem o samba morrer – clamou Marcella na sagrada terra onde vive Papa Francisco, após tirar foto com o pavilhão salgueirense ao lado de um padre carioca.

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Por Redação

Uma das figuras mais representativas do Carnaval do Rio, Neguinho da Beija-Flor está descontente com o corte em 50% da verba que a prefeitura vinha cedendo às escolas de samba. Para o intérprete mais famoso da festa – que segundo a Riotur atraiu para a cidade na última temporada 1,1 milhão de turistas, gerando uma arrecadação para o município de aproximadamente R$ 3 bilhões -, o evento mais popular do planeta não tem culpa da crise que assola o Rio de Janeiro. Nesta semana, a Liesa decidiu suspender os desfiles de 2018, alegando que a redução da subvenção inviabiliza a produção do espetáculo.

– Espero que o prefeito tenha a sensibilidade de rever a decisão dele. Eu, que faço parte dos desfiles há 41 anos, conheço muito bem a importância das escolas como manifestação cultural. Ele (prefeito Marcelo Crivella) pede sacrifício de todos, dizendo que o cofre do município tá vazio, mas não foram as escolas que botaram a prefeitura do Rio no vermelho. E a situação financeira da cidade vai piorar. Se não tiver desfiles, ele não vai poder contar nem com os 3 bilhões de reais que o carnaval rendeu pra cidade este ano. Então, nada tá tão ruim que não possa piorar, né prefeito? – disse Neguinho ao Sambarazzo.

Na manhã desta sexta-feira, 16, a Riotur emitiu um comunicado à imprensa falando em crise. Num trecho, informa que os gastos gerados pelo evento são muitos e que a manutenção do Sambódromo é cara e que gastou, somente em iluminação nos dias de desfiles, mais de R$ 600 mil reais. O texto, que ainda reconhece a relevância do Carnaval como gerador de empregos, ainda afirma a pretensão do órgão em buscar ajuda da iniciativa privada, já que a Liesa frisa não ter condições de produzir os desfiles das escolas de samba com 50% a menos da subvenção da prefeitura (menos R$ 1 milhão para cada uma).

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Por Redação

Após a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro anunciar a suspensão dos desfiles de 2018, alegando ser inviável produzir a festa com o corte de 50% da subvenção da prefeitura, que passaria a ser de R$ 1 milhão de reais para cada escola, a Riotur emitiu nesta sexta, 16, um comunicado no intuito de dar fim à polêmica. Para a empresa de turismo do município, mesmo com a redução na verba é possível que as agremiações coloquem seus carnavais na rua.

No texto enviado à imprensa, o órgão de turismo – comandado na gestão de Marcelo Crivella pelo xará Marcelo Alves – informa que os gastos com a festa já são muitos: “Em 2017, só para arcar com os custos da iluminação da Passarela do Samba nos dias de desfile, o município desembolsou R$ 655 mil”, diz trecho do comunicado.

Foto: Tatá Barreto/Riotur

Leia a íntegra do email da Riotur enviado à imprensa:

“A Riotur esclarece que o remanejamento de uma parte da verba destinada às escolas de samba do Grupo Especial não significa que o município deixará de apoiar os desfiles promovidos pelas agremiações. A medida foi tomada em virtude das limitações orçamentárias que já foram amplamente divulgadas pela imprensa desde o início do ano. A revisão de custos e a redução de gastos também foram adotadas em todos os órgãos e contratos da estrutura direta e indireta da administração municipal.

Diante da crise, deve-se priorizar o que é essencial e nesse momento aplicar recursos na educação e na alimentação das crianças nas creches é primordial.

A prefeitura e a Riotur reconhecem a importância da maior festa popular do mundo, que faz da cidade do Rio de Janeiro um dos principais destinos turísticos no período, gerando emprego e renda para a população. Por esse motivo, o Carnaval carioca continuará recebendo o incentivo e recursos do poder público municipal. O repasse da prefeitura para as escolas de samba para o Carnaval 2018 vai chegar a R$ 13 milhões de reais.

A Riotur já estuda o desenvolvimento de mecanismos para que sejam captados investimentos da iniciativa privada. O lançamento de um caderno de encargos, como já é feito para o desfile de blocos que fazem parte da programação do Carnaval de rua, está sendo avaliado.

É importante ressaltar que o repasse de recursos às escolas de samba não é único investimento da prefeitura para o desenvolvimento e realização do Carnaval. O município tem um gasto anual enorme com a manutenção da estrutura do Sambódromo. Em 2017, só para arcar com os custos da iluminação da Passarela do Samba nos dias de desfile, o município desembolsou R$ 655 mil. Além disso, efetivos dos mais diversos órgãos são mobilizados para garantir o sucesso da operação do evento.

Finalizando, não existe motivo para polêmica. O Carnaval do Rio está garantido. E vai continuar sendo o maior espetáculo do planeta.”

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*Foto de capa: Fernando Grilli/Riotur

Por Luiz Felippe Reis

Com passagens por escolas como Beija-Flor, Mangueira, Mocidade e Vila Isabel, o carnavalesco Cid Carvalho, hoje na Cubango (Série A), já fez diversos carnavais baseados no luxo e que custaram milhões aos cofres das agremiações do Grupo Especial. Agora no Acesso, o artista experimenta a sensação de ter que estimular ao máximo sua criatividade pra fazer da verde e branco de Niterói campeã da Série A em 2016 e levá-la pela primeira vez na história à elite da festa mais popular do Brasil.

Carnavalesco da Cubango, Cid Carvalho marcou presença no Sambanet
Carnavalesco da Cubango, Cid Carvalho abriu o verbo e criticou administrações de algumas escolas do Carnaval carioca: “estão deixando de pagar profissionais” – Foto: Sambarazzo

Dono de um tetracampeonato (pela Beija-Flor, em 1998, 2003, 2004 e 2005) no Carnaval, que o gabarita para falar, Cid analisou a atual crise financeira, que paira sobre escolas do Rio de Janeiro. Se mostrando bem lúcido, o carnavalesco acredita que ainda há uma solução para tirar as agremiações do vermelho. Pelo bem da festa, o artista sai em defesa dos operários dos barracões que trabalham ano a ano fazendo possíveis as belas alegorias e fantasias nos desfiles exibidos para o mundo inteiro.

– Deveria se tirar cada vez mais dinheiro do espetáculo plástico e investir no profissional. É muito dinheiro em iluminação, movimentos e tecnologia, e estão deixando de pagar profissionais contratados pra fazer o básico. O aderecista, a costureira, o escultor, o pintor de arte… Essa gente tem que ser respeitada e valorizada, tem que pagar essa gente. Que o Carnaval volte a ser mais criativo pra colocar em teste as fortunas que são pagas, abrindo mão de outros que ganham tão pouco, e não recebem. É a hora. Rever conceitos. Tô aqui tentando apontar um caminho. Acho triste escolas de samba patinando em dívidas. Acho triste o espetáculo tentar manter uma grandiosidade que não lhe é mais possível – opina Cid Carvalho, que em 2014, no meio da confecção do desfile, saiu da Vila Isabel alegando que estava com salários atrasados, assim como toda sua equipe de barracão. Poucos meses depois, o carnavalesco entrou num acordo com a agremiação e concluiu o trabalho. A azul e branco terminou em 10° lugar.

Cid Carvalho
Cid Carvalho teve duas passagens pela Vila Isabel: em 2007 e 2014. Na última experiência, o carnavalesco não tolerou problemas financeiros da escola e abandonou o barco por dois meses, mas acabou retornando para finalizar o projeto – Foto: Fernando Azevedo/Divulgação

Lembrando da atitude de abandonar o Carnaval da Vila no meio do caminho, Cid amplia a questão e acredita que tem faltado peito para a classe dos carnavalescos lutar por uma relação mais profissional no dia a dia das escolas de samba, principalmente no que diz respeito ao pagamento de salários.

– Todos têm famílias. Todo mundo tem gente pra cuidar, que se pague essa gente. Falta a eles (os carnavalescos) exigirem o tratamento de artista e profissional e de exigir pra sua equipe esse mesmo tratamento. Me perguntaram se tenho medo de ficar queimado. O correto não seria ficar queimado quem não paga? Acho que falta a imprensa dar o peso necessário da reivindicação de quem diz “não recebi”. Prefiro me queimar. Carnaval me deu tudo, sou muito grato ao Carnaval, mas se tiver que sair queimado por estar reivindicando… eu fico fora, então… não tem problema nenhum – garante.

Em 2015, Cid Carvalho foi da Mangueira e não teve um bom resultado – Foto: Felipe Araújo

Pelas palavras do experiente carnavalesco, a Cubango, nova casa de Cid, parece ser um ponto fora da curva, em meio a essa falta de organização infiltrada nas escolas. Satisfeito na representante de Niterói, o artista é só elogios à administração do presidente Olivier Luciano, o “Pelé”.

– A Cubango tem um lado positivo. Ela não fala que vai pagar R$ 2 milhões. Ela fala que vai pagar R$ 100 mil, mas paga os R$ 100 mil. Para o profissional, é melhor esse jogo. O jogo aberto, franco… Não é aquela escola de samba que come sardinha e arrota caviar. É uma escola muito bem pensada, muito bem dirigida, pé no chão. É uma escola inteligente, essa é a palavra. Tem consciência do que pode e deve gastar – elogia Cid.

Para fazer da Cubango campeã em 2016, o carnavalesco prepara o enredo “Um banho de mar à fantasia”. A verde e branco será a última a desfilar, no Sábado de Carnaval, pela Série A, fechando as apresentações do Grupo de Acesso.

 

Por Redação

Que a crise está aí, corroendo as finanças do brasileiro, não é novidade pra ninguém. E é claro que essa retração nacional não passaria sem deixar rastro no Carnaval. Com menos dinheiro em caixa, custos majorados e a sempre presente cobrança em fazer jus ao chamado maior espetáculo da terra, os presidentes das escolas de samba têm de se virar nos “30”.

Com a desafiadora missão de fechar as contas, tá valendo de tudo dentro do barracão de algumas escolas de samba do Rio de Janeiro. Na Unidos da Tijuca, por exemplo, o presidente Fernando Horta está querendo economizar pela conta de luz. Para não deixar cair o nível do desfile da azul e amarelo, o comandante da escola do Pavão prefere ficar no calorão e manda desligar o ar-condicionado, quando acha que não há tanta necessidade de refrescar o ambiente de trabalho.

– Está muito difícil para a gente fechar essas contas. Pode ser que em janeiro as coisas sejam diferentes, mas vamos tentar. Temos que superar isso tudo com criatividade e imaginação, pra fazer esse grande espetáculo. Mando desligar a luz quando não é necessário, mando desligar o ar-condicionado… O que não podemos é deixar cair o nível do nosso carnaval – diz Horta, que viu a Tijuca fechar seu balanço do último ano sem nenhuma dívida, mas ainda não sabe como ficará a situação após o desfile de 2016.

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Presidente da Tijuca, Horta não está nem aí para os 40° graus do verão: o negócio é manter o desfile tijucano em alto nível – Foto: Divulgação/Mauro Samagaio

“Que as pessoas que prometeram ajuda não falhem”, pede presidente da Ilha

É verdade que a União da Ilha não tem nenhum título no Grupo Especial (seu melhor resultado foi um segundo lugar com “Bom, bonito e barato”, em 1980), mas o mês de dezembro era um dos períodos do ano mais vitoriosos para os torcedores da tricolor. No que já vinha se transformando numa tradição recente do Carnaval, a escola do presidente Ney Filardi estava sempre um passo à frente da maioria das agremiações na confecção do desfile nas dependências da Cidade do Samba, na Gamboa, Zona Central do Rio. Mas, também sofrendo os piores efeitos da crise financeira, a representante da Ilha do Governador já não ostenta mais aquele adiantamento no trabalho no complexo de barracões.

– Em relação aos outros anos, já era para ter 80% das coisas prontas. A crise também chegou na escola que eu dirijo. Espero que algumas promessas sejam traduzidas em realidade e as pessoas que me prometeram ajuda não falhem. O cronograma é totalmente diferente. O dinheiro faz uma falta terrível. Mas nada desesperador, é a crise. Tudo vai sair, a hora vai chegar – assegura Ney, com certo otimismo.

Carnaval da Ilha está atrasado quando comparado aos cronogramas dos últimos anos | Foto: Divulgação
Carnaval da Ilha está atrasado quando comparado aos cronogramas dos últimos anos – Foto: Divulgação

Presidente da Viradouro, da Série A, acha que quitaria dívidas com verba do Especial

Se no Grupo Especial, que é a elite do Carnaval carioca, a coisa já está preta, imagine na Série A, que não tem os mesmos contratos e nem os mesmos repasses generosos, tampouco a mesma força dos holofotes… Presidente da Unidos do Viradouro, escola rebaixada no último desfile, Gusttavo Clarão vem sentindo na pele o peso da queda para o “segundo grupo”.

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Presidente da Viradouro afirma que se tivesse ficado no Grupo Especial teria chances de quitar as dívidas da escola – Foto: Irapuã Jeferson

– Vou ser bem sincero. Nessa época de crise, acho que a gente está tirando leite de pedra. Desde que assumi, a escola tinha dívidas. Consegui abater muita coisa. Muito processo trabalhista, muito bloqueio, mas as coisas continuam. Se a gente continuasse no Especial, acredito que teríamos sanado essas dívidas.

Colaboraram: Luiz Felippe Reis, Leonardo Lupi e Rafael Arantes