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enredo da Beija-Flor

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Por Redação

Cantora pop das mais festejadas em 2017, Pablo Vittar começou 2018 curtindo as vibrações do samba da Beija-Flor de Nilópolis. Figura certa no desfile, da escola nilopolitana, a drag queen mais famosa da hora caiu na festa da azul e branco no ensaio realizado nesta quinta-feira, 25, em Nilópolis, na Baixada Fluminense.

Pablo não se negou a posar para as fotos com os fãs da Beija-Flor, curtiu mais um treino pesado da escola 13 vezes campeã rumo ao Carnaval e aproveitou pra sentir o clima da agremiação onde vai desfilar na Segunda-feira de festa.

Confira as imagens – Foto: Eduardo Hollanda/Beija-Flor

 

Confira outras imagens do ensaio da Beija-Flor:

 

Por Luiz Felippe Reis

Quem é ligado em Carnaval sabe da importância da família Abraão David – principalmente na figura de Anísio – para formação, crescimento e consolidação da Beija-Flor de Nilópolis entre as maiores escolas de samba do Rio de Janeiro. Aos 80 anos, o homem forte da azul e branco sabe que inevitavelmente vai chegar a hora de passar o bastão da escola para um sucessor. E, já que alguém terá de substituí-lo mesmo, por que não o próprio filho?

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” é o enredo – criado pelo coreógrafo Marcelo Misailidis -, que vai fazer a Beija-Flor não se esconder da reflexão ante o dramático cenário de desigualdades, injustiças e amarguras sociais que emolduram a história brasileira. A sacada para falar de algo tão triste e atual foi de Gabriel David, filho do patrono Anísio Abraão David, talvez na maior intervenção do herdeiro nos caminhos da escola de samba até hoje.

Como ele confessa, Gabriel chegou a ficar ‘travado’ na hora de opinar, mas contou com a abertura da comissão de carnaval e tem conseguido, aos poucos, dar uns toques e participar mais ativamente do processo de criação no desfile do ano que vem.

– Meu pai me deu total condição de entrar no barracão e fazer o que eu quisesse, com respeito, com tudo, mas tive possibilidade de conversar com o Laíla, de todo mundo me ouvir e conversar de volta, que é o mais importante. Não adianta eu chegar, falar, todo mundo ouvir e fazer. O legal é que rolou uma sinergia. Eu ficava meio travado de chegar na comissão, porque eu tava me metendo no trabalho dos caras, mas eles foram muito positivos. Eles ouviram as ideias, rebateram, e a gente consegue conversar. Não imaginava que o Laíla fosse aceitar as minhas ideias. Ele ouve muito, muito – revela Gabriel.

Com aval de Laíla, Gabriel David, filho de Anísio Abraão David, tem ganhado força na Beija-Flor de Nilópolis: ‘Não imaginava que o Laíla fosse aceitar as minhas ideias. Ele ouve muito, muito

O dirigente da nova geração tem como objetivo atrair o público mais jovem, por isso a criação de um tema sobre desigualdades sociais, algo tão presente no cotidiano. Gabriel, no entanto, sabe que é fundamental ouvir as vozes da experiência para achar uma mescla no pensamento, capaz de renovar sem tirar as identidades.

– Eu tenho que pegar mais experiência ainda. As pessoas mais velhas pensam diferente, é normal. Tem um contraste. Mas quando o contraste é construtivo, aí pode ser positivo pro Carnaval. Eu tento trazer isso pro Carnaval, mas eu tenho 20 anos… Tem uma equipe forte por trás. Pessoas mais velhas, mais novas, que pensam o tempo todo pra chegar as conclusões. Claro que às vezes a gente quer dar um passo maior que a perna, sempre tem alguém pra travar, isso é muito importante – ponderou.

Em 2018, a Beija-Flor será a sexta e última a desfilar na Segunda-feira de Carnaval, pelo Grupo Especial. A escola busca o 14° título na história. A azul e branco é a maior campeã do Século XXI com sete campeonatos (2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2011 e 2015).

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Por Redação

Fim da linha para o período mais misterioso do Carnaval: o da escolha dos enredos. Todas as 13 escolas do Grupo Especial já sabem – e todo mundo também – sobre o que vão falar no próximo desfile.

O resgate de temas críticos se destaca. Pelo menos cinco enredos abriram as portas a reflexões de toda sorte, seja de caráter social ou cultural. Racismo (Tuiuti), xenofobia (Portela), preconceito contra mulheres (Salgueiro), desigualdade social (Beija-Flor) e até um debate mais profundo sobre os destinos da festa na Sapucaí, com a Mangueira. Outras narrativas históricas e culturais também compõem uma safra de enredos digna de aplausos.

DOMINGO

Na estreia pelo Império Serrano, o carnavalesco Fábio Ricardo aposta na cultura milenar da China para manter a verde e branco nove vezes campeã da festa na elite. A ideia é mostrar, além da riqueza histórica dos chineses, que a escola da Serrinha e o país asiático têm mais coisas em comum do que se possa imaginar.

 

 

Jorge Silveira estreia no Especial e leva pra Avenida “Academicamente popular”, sobre os 200 anos da escola de belas artes do Rio de Janeiro, a mais importante da América latina. A sacada do artista é levar as artes plásticas ao público, com uma linguagem popular, alegre, mas cheia de conteúdo histórico que o tema exige.

 

Atual campeão pela Portela, Paulo Barros foi para a Vila Isabel e vai transportar todo mundo na Sapucaí pra tempos que ainda virão. “Corra que o futuro vem aí” promete esbanjar tecnologia e impactar com muitas imagens de leitura direta e objetiva. Pra onde vamos? Como será o amanhã? Perguntas que a Vila se propõe a responder em ritmo de samba em 2018.

 

 

Na Tuiuti, Jack Vasconcelos propõe reflexão com “Meu Deus, Meu Deus. Está extinta a escravidão?”. Após 130 da Lei Áurea, os negros ainda vivem sob as amarras do racismo e da falta de igualdade das oportunidades -uma “bondade cruel”, como definiu o carnavalesco na sinopse. Uma leitura histórica, imersa numa crítica atualíssima.

 

 

O renomado casal de carnavalescos Renato e Márcia Lage e a Grande Rio brindam com alegria a Sapucaí no Domingo de Carnaval. “Vai para o trono ou não vai?” homenageia José Abelardo Barbosa, o gigante Chacrinha, um dos maiores comunicadores da história da televisão brasileira e figura emblemática da cultura nacional.

 

 

Leandro Vieira meteu o dedo na ferida. “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” critica os destinos escolhidos pelo Carnaval e desbrava os porquês do evidente distanciamento popular das escolas. Reflexão imediata a partir do corte de verba da prefeitura de Marcelo Crivella, que não será poupado no desfile.

 

Atual campeão, Alexandre Louzada aposta na mesma fórmula vitoriosa de 2017. Pra quem uniu Brasil e Marrocos num desfile vencedor, “Namastê… A estrela que habita em mim, saúda a que existe em você” forma um elo do nosso país com a exuberante Índia do gigantesco Mahatma Ghandi.

 

SEGUNDA

O multifacetado Miguel Falabella é o dono dos holofotes da Tijuca em 2018. Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo lançam “Um Coração Urbano: Miguel, o arcanjo das artes, saúda o povo e pede passagem”, que mostra vida e obra do artista, um dos grandes escritores nacionais de entretenimento do país.

 

 

 

Em sua volta à Portela, a professora Rosa Magalhães dá mais uma aula com “De repente de lá pra cá e dirrepente daqui pra lá”. Uma crítica atual que aborda intolerância e xenofobia dentro de uma história encantadora de judeus fugidos da Europa, com destino ao Nordeste do Brasil, que contribuíram na formação de Nova York.

 

 

Severo Luzardo põe a mesa, a Sapucaí come com os olhos e a União da Ilha experimenta um enredo sobre culinária: “Brasil bom de boca”. A ideia é mostrar os hábitos alimentares do brasileiro, passando pela influência estrangeira em nossos pratos. Da mesa de jantar ao galpão do boteco, tem pra todos os gostos.

 

 

 

Sob o comando artístico de Alex de Souza, o Salgueiro se reencontra com um tema afro. “Senhoras do ventre do mundo” exalta históricas mulheres negras, que, apesar de seus feitos, tinham de lidar com o preconceito em suas épocas. Embora não seja focado na crítica, o enredo deixa uma mensagem contra a intolerância.

 

 

 

Pela Imperatriz, Cahê Rodrigues faz “Uma noite real no Museu Nacional”, contando a história de 200 anos do espaço cultural, artístico e científico do Rio de Janeiro. O palácio serviu de casa para a família real, o que deve devolver à Imperatriz a cara suntuosa da década de 1990, quando a escola levou quatro campeonatos.

 

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” é o enredo que vai fazer a Beija-Flor não se esconder da reflexão ante o dramático cenário de desigualdades, injustiças e amarguras sociais que emolduram a história brasileira. Um tema atual e mais um a lançar críticas sociais abrangentes.

 

O Carnaval do Grupo Especial começa em pouco mais de seis meses, a partir do dia 11 de fevereiro.

 

Foto de capa: Cezar Loureiro/Riotur

Por Redação

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” é o enredo que vai fazer a Beija-Flor não se esconder da reflexão ante o dramático cenário de desigualdades, injustiças e amarguras sociais que emolduram a história brasileira. A sacada para falar de algo tão triste e, infelizmente, atual, foi de Gabriel David, filho do patrono Anísio Abraão David.

O dirigente de 20 anos de idade fez questão de conversar com várias cabeças brilhantes da Beija-Flor para buscar uma sacada para virar enredo e não abria mão de um tema: problemas sociais do Brasil. Quem fez a ligação com a obra literária “Frankestein, ou o moderno Prometeu” e levou a ideia formatada foi Marcelo Misailidis, que é coreógrafo da própria escola. A partir daí, Gabriel e todo time da azul e branco abraçaram o projeto.

Gabriel David foi o responsável pela ideia de um enredo – posteriormente criado por Marcelo Misailidis – que abordasse problemas sociais para aproximar os mais jovens – Foto: Divulgação

– Quando eu conversei com quase todo mundo na escola, falei que queria que a gente falasse dos problemas sociais. A minha geração se preocupa muito com isso. Quero aproximar o público jovem, eu falo isso o tempo todo.  A gente vive num mundo que não se sabe o que vai acontecer amanhã. Eu queria fazer algo sobre os problemas sociais, e o Marcelo veio com a ideia do monstro, e o negócio decolou – disse.

Agradar os mais jovens e, claro, renovar o público que curte a festa é um dos objetivos de Gabriel David. Levar pra Avenida um enredo atual, do cotidiano e que todos, sem exceção, se interessam é uma estratégia exatamente pra isso.

– Tem coisas no Carnaval que podem começar a mudar. A mudança é necessária. O Carnaval só tem a ganhar. Você fala para uma cidade, um país inteiro. Então, você precisa passar uma mensagem que todo o país precisa ouvir… O Carnaval é fantástico pra isso, então vamos usar isso pra melhorar. Tanta coisa ruim no mundo acontecendo, vamos combater essas coisas ruins com o Carnaval – comentou Gabriel, que costuma levar a galera dele pra conhecer a Beija-Flor.

– Trago meus amigos pra ficar aqui comigo, e os amigos começaram a trazer outros amigos. No último Carnaval, todo mundo começou a vir, então não tinha espaço físico, meio que rolava um revesamento. Mas todo mundo que vem aqui sempre gosta. É uma energia muito positiva, né? O bloqueio morre quando você entra aqui. Você chega na quinta-feira e vê um ensaio, você se arrepia – disse.

Gabriel com amigos na quadra da Beija-Flor, acompanhado pelo mestre de bateria Rodney, incluindo Enzo Celulari (de preto), filho do ator Edson Celulari e da atriz Claudia Raia – Foto: Rodrigo Mesquita/Divulgação

Para ser atual e mais próximo do que se fala no Brasil, Gabriel David e a Beija-Flor se apegaram no enredo, que é criado por Marcelo Misailidis. O coreógrafo acredita que um tema como o apresentado pela azul e branco, 30, é capaz de aumentar o interesse pelos desfiles de 2018.

– A provocação do Gabriel era buscar um enredo pra despertar o interesse no espetáculo. Eu sou um homem de espetáculo. E uma forma de despertar um espetáculo é você forçar o argumento pra que se tenha uma linha dramática. É funcionar como um pano crítico dos problemas sociais. E o sentido estético precisa ser forte lá na frente. Nada mais atual. Nenhuma pessoa do Rio de Janeiro hoje sai sem medo de alguma coisa. A cidade está mergulhada num filme de terror. É o momento de desenvolver uma narrativa nesse sentido – opinou Misailidis, coreógrafo da comissão de frente da Beija-Flor desde 2014.

Um dos carnavalescos da comissão de carnaval, Cid Carvalho vê que já era hora do Carnaval resgatar enredos que coloquem os dedos nas feridas do Brasil.

– A crítica social se perdeu faz tempo. As escolas de samba, que tiveram sempre isso como fator histórico, se perderam nisso de repente. Um enredo, infelizmente, oportuno. O abandonado é vítima, não é um monstro. O monstro é quem abandona. A Beija-Flor quer é alertar, ser porta-voz, um grito, desabafo, mas com o jeito carioquês de mostrar as coisas… Mas não vamos transformar o desfile numa tragédia – sintetizou Cid.

‘A Beija-Flor quer alertar, ser porta-voz, é um grito, um desabafo’, decretou o carnavalesco Cid Carvalho – Foto: Irapuã Jeferson

A Beija-Flor tem um bom histórico com enredos críticos sociais. Em 2003 com “O povo conta a sua história: Saco vazio não para em pé. A mão que faz a guerra faz a paz” foi campeã, iniciando uma série de três campeonatos seguidos. Em 1989, não levou, mas entrou para a história com “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, vice-campeão daquele ano, mas até hoje festejado pelos torcedores da “Deusa da Passarela” e amantes da festa.

Em 2018, a Beija-Flor será a última a desfilar na Segunda-feira de Carnaval pelo Grupo Especial.

Foto de capa: Eduardo Hollanda/Divulgação

Por Redação

A sensibilidade fez a Beija-Flor cair dentro das críticas sociais para fazer refletir no Carnaval 2018. Politizado, o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu” não escolhe um político ou uma corrente ideológica para responsabilizar pelas mazelas e desigualdades intimamente brasileiras que serão retratadas na narrativa.

Também não vai sobrar para o prefeito Marcelo Crivella, que recentemente cortou metade da verba municipal para os desfiles das escolas de samba, embora trechos da sinopse denotem certas cutucadas no bispo licenciado da Igreja Universal: “enquanto falsos profetas, em templos colossais, cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações culturais e fomentam uma espécie de “Guerra Santa”: o sagrado versus o profano, a batucada proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco; tudo é coisa do “coisa ruim”!

O enredo foi uma criação do coreógrafo Marcelo Misailidis e será desenvolvido pela comissão de carnaval, que tem Cid Carvalho, Bianca Behrends, Victor Santos, Rodrigo Pacheco e Léo Mídia – Foto: Divulgação

O foco mesmo é ampliar o debate, sem personificar diretamente um vilão, como indicou o diretor de carnaval e geral harmonia Laíla, durante coletiva na quadra no último domingo, 30.

A abordagem mais extensa é uma vontade do patrono Anísio Abraão David. O ímpeto por um tema que falasse dos problemas sociais brasileiros vem do filho de Anísio, Gabriel David, que cada vez mais está integrado no Carnaval da maior campeã do Século XXI.

– A crítica é para todos os falsos profetas em geral. Em todas as religiões nós temos. Não só porque nós temos um bispo na prefeitura que só entre os evangélicos têm falsos profetas, nós temos no Candomblé, na Umbanda, na Igreja Católica. O texto, aliás, começa com os pedintes na escadaria. A crítica não é direcionada a nenhum segmento religioso, a nenhum político também – explicou o carnavalesco Cid Carvalho.

Laíla fez questão de explicar não há no enredo um ataque direto ao prefeito da cidade, que bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus – Foto: Irapuã Jeferson

Laíla foi ainda mais incisivo e tratou de reforçar a isenção da nilopolitana no desfile do ano que vem.

– Eu sou espírita. Confundem minha religião pra caramba, através das minhas rezas que eu peço paz pras pessoas. Mas também existe coisa errada. Mas não vamos falar de nenhum pai de santo. É um grito de alerta, botem isso na cabeça de vocês. Não vamos atacar ninguém, até porque o patrono não quer e não foi esse o pedido do Gabriel pra gente – reforçou.

A Beija-Flor de Nilópolis encerra o Carnaval 2018, fechando a segunda-feira de festa.

Por Redação

A Beija-Flor de Nilópolis encerrou na tarde deste domingo, 30, a série das escolhas de enredo para o Carnaval do Grupo Especial de 2018. E a ideia é expôr as desigualdades sociais e as mazelas nossas de cada dia, sem deixar de tornar claro o descaso dos governantes ao longo de décadas. “Monstro é aquele que não sabe amar” será assinado pela comissão de carnaval da Beija-Flor, capitaneada por Laíla e Cid Carvalho.

O enredo é uma inspiração na obra praticamente bicentenária “Frankstein, ou o moderno Prometeu”, de 1818.

Emoção! Uma performance marcada pela pluralidade do Brasil, com toques de violência, desigualdades sociais e raciais, amor e solidariedade marcou o encerramento da apresentação do enredo I Irapuã Jeferson/Sambarazzo

Confira a sinopse

MONSTRO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR!
Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu.

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de
repudiar o que é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.
O ser criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente, e da
ausência de ética e de limites, não foi reconhecido como um semelhante porque possuía
aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.
A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se
transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o
criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?
Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que
atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade onde a desigualdade
se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos, vitimada pelo abandono
e que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes
parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e
jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A
criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor
com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças.

Somos parte de um sistema doentio, gerador de criaturas que falam línguas diferentes e
aparentemente indecifráveis para os governantes, e que perambulam incompreendidas e
esquecidas pelos becos, ruas e vielas dessa selva de pedra que um dia já foi o paraíso.
Mas, o sonho de uma criança ainda é pintar o futuro em folhas brancas da imaginação e traçar
o mundo inteiro na palma da própria mão. Porém o que vemos são crianças abandonadas
pelos pais, longe das escolas, vendendo balas nos semáforos ou se transformando em pivetes
e disparando balas de armas que cospem fogo e dor. Por sua vez, os filhos jogam os pais idosos
em asilos, feito fardos pesados demais, numa espécie de reflexo invertido.

É a carência de amor escancarada pela ausência de opção ou pela falta de pão, levando irmão
a matar irmão. São pedaços de família, soltos, desapegados, sem ligação. São retalhos de uma
sociedade refém de uma violência cruel que corrói a nossa dignidade e espalha o medo que
nos devora a alma em cenas trágicas que passam diante de nossos olhos como um filme de
terror, retratando vidas que se perdem num instalar de dedos em cenários reais e
angustiantes. São as casas gradeadas, feito fortalezas de proteção, onde temos a sensação que
nós é que estamos na prisão, numa banalização do mal, do sofrimento alheio e da própria vida
humana, que transforma a luta diária, em luto constante.

São os Cavaleiros do Apocalipse político, camuflados com ternos, gravatas e hipocrisia,
cavalgando no lombo da ambição e espalhando a falta de esperança. São as filas, as falhas e
falcatruas alimentando saúvas e adoecendo a saúde; são zumbidos perdidos, sem direção,
assustando a população e matando o futuro na nação. É a paz escondida na tristeza de cada
olhar, na saudade doída dos que se foram, na fatalidade do silêncio dos que já não podem
chorar. É o refugiado da seca que ainda não encontrou a terra prometida; é o brasileiro
acuado, sem ter para onde fugir. Mas, na delação do “boca de sabão”, certo e errado pode ser
apenas uma questão de ocasião.
Será que há salvação?

Será que no final do túnel haverá luz?
Ou será que carregaremos eternamente essa cruz?
Sentado na escadaria, um pedinte estende as mãos implorando esmolas, disputando com
terços e santinhos a atenção de quem passa para se ajoelhar diante do altar de ouro; numa
encruzilhada adiante, aproveitadores da boa fé despacham oferendas sem axé que servem
para aliviar a fome e a sede do morador de rua; enquanto falsos profetas, em templos
colossais, cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações
culturais e fomentam uma espécie de “Guerra Santa”: o sagrado versus o profano, a batucada
proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco; tudo é coisa do “coisa ruim”!
Porém, tudo que se constrói ou se destrói, se começa pela base, porque se não se fortalece a
base, toda a edificação estará fadada ao desmoronamento. E a base, a estrutura de uma
sociedade é a cultura. É preciso voltarmos às nossas raízes e nos reinventarmos. E se
reinventar não significa mudar a essência ou renegar as origens. Reinventar tem um quê de
renascimento, de tornar a ser criança, de redescobrir o poder de amar. Somente o amor e a
valorização da cultura impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se
multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico.
Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com
estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas
roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto.
Algumas vezes nos negaram a alma, outras tantas nos deram uma alma demoníaca, mas nunca
conseguiram nos calar, silenciar as nossas vozes e os nossos tambores, porque somos das ruas,
das praças, dos botecos, somos malandros boêmios e carregamos na alma a alegria que
debocha das dificuldades, mas, se for o caso, afogamos as tristezas com uma cerveja bem
gelada.

É chegada a hora de juntarmos os retalhos das nossas consciências que deixamos no baú
empoeirado do nosso comodismo e costurarmos as fantasias dos abandonados e dos
excluídos. Nesse cortejo popular, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem
máscaras para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas!
Que a Maria, a nossa Pietà, com seu filho nos braços e a lata d’água na cabeça, seja o retrato
da luta de todos que apenas desejam ser amados e respeitados.

Que as ruas voltem a ser o grande tabuleiro da pluralidade da nossa gente, onde as peças
dançarão ao som de uma batucada democrática. Que o nosso “rei” que é Momo, que é da
folia, que é do povo, junte realeza e “peões”, derrube a “torre” da intolerância e dê um xeque-
mate na tristeza. E assim, a Escola de samba e a comunidade, ali costuradas pelo amor a nossa
cultura, se tornarão um só corpo novamente e o samba triunfará mais vivo do que nunca.
Que nesse arrastão de alegria, as drags e meretrizes encontrem um amor de carnaval; o velho
arlequim nunca desista de beijar a colombina; o malandro continue caindo de paixão pela
sedutora cabrocha e o pierrot, levante a cabeça, dê a volta por cima e, dance apaixonado com
a passista formosa. Porque o samba é o palco mais democrático da nossa cultura popular e
une irmãos de todos os cantos e bandeiras, festejando as diferenças e celebrando a paz sob
um céu azul e branco.

Mas, se ainda assim você nos descrimina e não entende o nosso jeito de ser feliz, não nos leve
a mal, o monstro é você!
Largue o nosso carnaval!
Afinal, monstro é aquele que não sabe amar!

 

Foto de capa: Riotur

Por Redação

Parece ironia, brincadeira, mas não é. A Feijoada da Beija-Flor, evento que movimenta a quadra em Nilópolis há cinco anos, nunca contou com a voz mais famosa da azul e branco. A festa, até pouco tempo, não era comandada pela diretoria da escola, e sim terceirizada, estava sob os cuidados de uma empresa, que jamais convocou a principal figura musical da agremiação para cantar no evento.

Esse tabu acaba no próximo domingo, 30, quando Neguinho finalmente será o protagonista da Feijoada da Beija-Flor, realizada na quadra em Nilópolis, Baixada Fluminense, que excepcionalmente nesta edição, está sendo chamada de Feijoada da Sorte, porque vai rolar uma distribuição de prêmios ao público. O responsável pela estreia necessária, ainda que tardia, é o vice-presidente da Beija, Almir Reis – o mesmo sortudo que fez sucesso no sorteio da ordem dos desfiles do Grupo Especial e colocou a maior campeã do Século XXI pra encerrar a Segunda-feira de Carnaval.

O evento marca também o lançamento do enredo da Beija-Flor, última escola de samba a definir a narrativa do desfile que virá.

Neguinho ficava chateado por ser preterido pelos antigos administradores da feijoada, mas agora ele tá empolgado com a chance de estar perto dos torcedores.

– Nunca cantei na feijoada porque nunca fui convidado. Até pouco tempo, a feijoada era terceirizada e os responsáveis sempre me ignoravam, preferindo convidar outros artistas. Aquilo me chateava, mas eu ficava na minha. Fiquei feliz quando Almir (Reis, vice-presidente), me chamou para participar neste domingo. Por incrível que pareça, será minha estreia na feijoada da minha escola. E eu estarei lá, sem ganhar cachê, com a minha banda, fazendo um show com sucessos e com várias inéditas que estarão no meu próximo CD – promete o intérprete que em 2018 completará 42 anos como voz oficial da escola.

A Feijoada da Sorte começa às 13h e o ingresso custa R$ 20, com direito ao almoço e a um cupom pra sorteio. A quadra da Beija-Flor fica na rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025, no Centro de Nilópolis.

Por Luiz Felippe Reis

Carnavalesco da Mocidade, Alexandre Louzada resolveu botar pra fora toda a experiência na festa – chancelada por mais de 50 desfiles assinados e sete títulos – para analisar o que as escolas coirmãs podem fazer no Grupo Especial versão 2017.

Pra lá de satisfeito com o desempenho no barracão da verde e branco, o veterano, pelo visto, também está otimista com as possibilidades de bons desfiles das adversárias na briga pelo caneco. Aliando o conhecimento carnavalesco a um palpite despretensioso, Louzada aposta que a Grande Rio, com o enredo sobre a cantora Ivete Sangalo, tem tudo para ser um sucesso na Avenida. No embalo, Alexandre aproveita para elogiar os enredos similares sobre música de Vila Isabel e Tijuca, e o da Beija-Flor, que conta a história de amor de Iracema – a virgem dos lábios de mel do conto de José de Alencar.

‘Acho que a Grande Rio vai ser um sucesso’, decreta Louzada, que esteve na final de samba-enredo da tricolor de Caxias – Foto: Michele Iassanori

– Respeito muito o trabalho dos meus colegas. A gente só toma conhecimento do enredo, em si, quando o samba é escolhido. Não querendo ser visionário, mas acho que a Grande Rio vai ser um sucesso. Estive lá na final e vi a energia que esse enredo tem. Tem enredos que esbarraram um no outro, mas são grandes enredos, como Vila e Tijuca. Enredo da Beija-Flor eu acho muito bom, o da Rosa (Na São Clemente, “Onisuáquimalipanse”) é sempre espetacular. Eu vim de um enredo criticado, uma sinopse criticada, e hoje todo mundo já esqueceu isso. É melhor você começar desacreditado e crescer no conceito das pessoas – opina o artista, que pretende lançar um livro sobre a trajetória no samba.

Artista também revela os sambas favoritos

E já que o lance é projetar os desfiles de Domingo e Segunda-feira, não dá pra esquecer dos sambas de enredo, que emolduram cada ato dos carnavais apresentados. Pra Alexandre Louzada, Mocidade, Beija-Flor, Portela e Vila Isabel largaram na frente no quesito. Além dessas obras favoritas, ele ainda elogia os sambas da Grande Rio e da São Clemente.

– De sambas, tem cinco que eu gosto muito. Do meu (Mocidade), da Portela, da Vila, Beija-Flor… Acho que essa paridade que colocaram entre Mocidade e Beija-Flor é verdade pra mim. Aos poucos, você começa a prestar atenção em outros sambas. Eu gosto do samba da Grande Rio, podem me bater, mas eu gosto. O da São Clemente tem partes que me agradam também – opina.

Felicidade em dose dupla. Assim dá pra definir a alegria de Alexandre Louzada com os sambas-enredo das escolas em que trabalha. A Vai-Vai, agremiação paulistana onde o carnavalesco também dá expediente, assim como a Mocidade tem a trilha sonora elogiada pela crítica especializada.

– Dei sorte, Vai-Vai tem um grande samba lá em São Paulo – finaliza.

Por João Paulo Saconi

Raíssa de Oliveira é a prova viva de que nem só de samba no pé vive uma rainha de bateria. A majestade dos ritmistas da Beija-Flor, no posto há 14 anos, está tão interessada em se aprofundar no enredo da escola para o Carnaval 2017 que resolveu reler ‘Iracema’, clássico da literatura brasileira escrito por José de Alencar. A gata nilopolitana leu o livro na época do colégio mas, por causa do desfile preparado pela azul e branco, fez questão de providenciar um repeteco.

– Fiz uma prova sobre o livro, mas não lembro a nota que eu tirei. Sei que não foi ruim. Eu amei a história. Como faz muito tempo que li, estou revisando, porque acho muito bonita e interessante. A comunidade está muito feliz com o enredo e se identificou muito com a história da Iracema – conta Raíssa, que pouco antes do Carnaval já tinha apostado no “Vale a pena ver de novo” ao estrelar pela segunda vez um ensaio sensual do Sambarazzo.

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Aplicada! Raíssa está relendo o livro de José Alencar que inspirou o enredo “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema” da Beija-Flor para 2017 | Foto: Gabriel Santos/Riotur

Rainha não se identifica com protagonista do romance: “Só morreria pela minha mãe”

Ainda que tenha escolhido como parte favorita da história o amor da índia Iracema por Martim, guerreiro branco inimigo da tribo da amada, Raíssa afirma que não se identifica com a personagem principal. Enquanto a “virgem dos lábios de mel” morre de tristeza ao ser abandonada pelo marido, a sambista diz que só faria o mesmo pelo amor que sente pela mãe, Lúcia Cristina.

– Toda a história do livro te pega muito, do começo ao fim. Achei muito interessante a parte quando o Martim volta e a Iracema já morreu de amor, deixando o filho. É muito marcante e mostra que ela tinha um grande sentimento e morreu por ele. Eu gostei muito. O único amor pelo qual eu morreria seria a minha mãe. Acho que, por esse amor, vale a pena morrer – finaliza Raíssa.

Por Luiz Felippe Reis

O Carnaval 2017 teve que esperar até julho deste ano para conhecer todos os enredos que estarão na Avenida em fevereiro próximo. Enquanto o público apaixonado esfrega as mãos para saber quem vai chegar com força aos desfiles, as escolas e, especialmente, os carnavalescos começam a tocar os trabalhos para o desenvolver dos temas, que se apresentam com leituras bem distintas entre si.

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Diversidade! Vários tipos de temas aguardam o Carnaval 2017 – Foto: Fernando Grilli/Riotur

Última campeã da festa, a Mangueira deixou a linha de homenagear uma personalidade no passado inesquecível do Carnaval 2016 e buscou um enredo com um viés popular, buscando levar pra Sapucaí a relação íntima do povo brasileiro com as imagens religiosas; Salgueiro e Beija-Flor se inspiraram na literatura para o desenvolver de suas histórias; Tijuca e Vila Isabel vão soltar o som e buscar as origens da música, sendo que a escola do Borel foca mais na musicalidade norte-americana.

A Portela se propõe a um mergulho nas águas doces do mundo, num tema cheio de história, que também é amplamente abordada na São Clemente com o seu “Onisuáquimalipanse”, que vai mostrar as ambientações para a construção do Palácio de Versalhes. E ainda tem a Tuiuti com uma reverência ao movimento tropicalista, marcante durante os anos 1960 no Brasil.

A Imperatriz quer defender e exaltar os índios; a Grande Rio é Ivete Sangalo; a Mocidade vai mostrar as belezas e a rica cultura de Marrocos, país do extremo noroeste africano; e a Ilha vai com um enredo afro.

Domingo

Enredo “superbacana” na Tuiuti

O movimento Tropicalista influenciou a geração nos idos de 1960, embalada por artistas de diversas vertentes, incluindo a música, a poesia e as artes plásticas. Pegando um gancho no Movimento Modernista, do manifesto antropofágico, o carnavalesco Jack Vasconcelos desenvolve o “Carnavaleidoscópio tropifágico”, numa visão romântica, crítica, mas sem perder o bom-humor e altamente carnavalizada daquele período histórico brasileiro.

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O Domingo de Carnaval vai ser dia de Ivete para a Grande Rio

Uma das divas contemporâneas da música popular brasileira, a baiana Ivete Sangalo é a grande homenageada da Grande Rio, através do enredo “Ivete do rio ao Rio”, do carnavalesco Fábio Ricardo. O tema quer, além de levantar a poeira e fazer rolar a festa na Sapucaí, mostrar a história artística e de vida da cantora, passando pela origem familiar da famosa até o desabrochar de uma das artistas mais veneradas do país.

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Foto: Irapuã Jeferson

 

Visão social não escapa aos olhos da Imperatriz em homenagem aos índios do Xingu

Pra exaltar a cultura, a história, os legados e a riqueza indígena, a Imperatriz Leopoldinense não pretende escapar as questões sobre os direitos desse povo tão presente na história de fundação do país. “Xingu – O clamor que vem da floresta”, de Cahê Rodrigues, além de reverenciar os índios e homenagear os 50 anos do Parque Indígena do Xingu, quer também servir de proteção e deixar a mensagem da importância da preservação das áreas dos povos do Xingu.

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Foto: Leandro Ribeiro

 

Origem africana dos ritmos na Vila

Última escola a divulgar enredo para o Carnaval 2017, a Vila Isabel se propõe a um desbravar histórico sobre a origem africana dos estilos musicais pelo continente americano. “O som da cor” é um enredo autoral do carnavalesco Alex de Souza, que vai para o segundo ano seguido na azul e branco de Noel.

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A inspiração literária do Salgueiro

Adaptado da obra literária do italiano Dante Alighieri, “A divina comédia” o enredo “A divina comédia do Carnaval”, que é desenvolvido pelos carnavalescos Renato e Márcia Lage, pretende levar a “Academia” ao décimo título da galeria. Escrita no Século XIV,  o poema narrativo mostra uma trajetória pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, como uma trilogia, descrevendo cada etapa da viagem. Ao final, numa espécie de paraíso do samba, a vermelho e branco oferece o desfile a três dos maiores carnavalescos da história: Fernando Pamplona, Joãosinho Trinta e Arlindo Rodrigues.

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Beija-Flor apaixonada pela virgem dos lábios de mel

“Iracema – A virgem dos lábios de mel”, desenvolvido pela comissão de carnaval da Beija-Flor, quer emocionar o público da Avenida e fechar com muito amor o Domingo da festa mais popular do Brasil. Baseada no romance “Iracema – a lenda do Ceará”, escrito por José de Alencar, uma das pérolas da literatura brasileira, a azul e branco desbrava a história de amor entre a personagem principal da trama com o navegador português Martim, que, juntos, dão origem a Moacir, o primeiro cearense miscigenado.

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Segunda-feira

União da Ilha é afro

Fazia um bom tempo que a Ilha não se reencontrava com uma narrativa toda ela baseada na estética afro. E não teve como adiar. A pedido da comunidade, esse tipo de enredo foi o eleito pelo presidente Ney Filardi, e “Nzara Ndembu – Glória ao senhor do tempo” será desenvolvido pelo carnavalesco Severo Luzardo. O tema promete levar para Avenida uma mensagem poética sobre a relação da humanidade com o tempo.

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Especialidade de Rosa Magalhães na São Clemente

“Onisuáquimalipanse” é o enredo desenvolvido pela carnavalesca campeoníssima Rosa Magalhães para a São Clemente. A narrativa com viés histórico lembra, e muito, o tipo de tema que mais consagrou a artista durante a década de 1990 em seus diversos títulos com a Imperatriz. A criação do Palácio de Versalhes num ambiente da França do Século XVII devem dar uma linha mais requintada no carnaval da escola de Botafogo.

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Mocidade pra lá de Marrakech

Para fazer a Mocidade retornar ao protagonismo do passado, a dupla de carnavalescos formada por Alexandre Louzada e Edson Pereira prepara um enredo sobre Marrocos, país do extremo noroeste da África. “As mil e uma noites de uma Mocidade pra lá de Marrakech” vai exaltar a cultura marroquina, capaz de dar cores e variados elementos à confecção de desfile da verde e branco.

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Foto: Reprodução/internet

 

Direto dos Estados Unidos, Unidos da Tijuca solta o som

Com um estilo todo moldado na comunicação fácil com o público, a Tijuca lança um enredo pra lá de popular e que vai mexer com os fãs de várias partes do mundo. “Música na alma, inspiração de uma nação”, desenvolvido pela comissão de carnaval, formada por Mauro Quintaes, Annik Salmon, Marcus Paulo e Hélcio Paim, parte de um encontro acontecido em 1957 entre Louis Armstrong e Pixinguinha para unir Brasil e Estados Unidos, levando pra Avenida um pouco da história dos ritmos mais consagrados em terras americanas com homenagens especiais a alguns ídolos dos “States”.

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O rio que passou na vida da Portela

A Portela se propõe a um mergulho nas águas doces do mundo, fazendo menção, claro, à música composta por Paulinho da Viola, um dos grandes artistas portelenses. Desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros, “Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar” vai falar sobre aspectos culturais, religiosos e costumes de alguns rios do planeta.

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Com a ajuda do santo, Mangueira espera o bi

A busca pelo bicampeonato mangueirense vem acompanhada de um enredo ‘popular’, como define o carnavalesco Leandro Vieira, que desenvolve “Só com a ajuda do santo”, que revela um pouco da relação bem íntima do povo brasileiro com o sacro, de como as pessoas comuns lidam com as imagens religiosas, num desfile que promete tirar um retrato três por quatro da devoção brasileira.

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Foto: Michele Iassanori

 

Por Redação

Historicamente resguardadas à função de apresentar a escola na Avenida, as comissões de frente do Carnaval carioca ganharam asas cada vez mais espetaculares e hoje se apresentam como um dos momentos mais aguardados dos desfiles da Marquês de Sapucaí. Com mais modernidade, recursos, e, eventualmente alguma pirotecnia, os coreógrafos da festa têm surpreendido e se superado a cada ano, com demonstrações capazes de arrancar os mais empolgados aplausos do público.

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Fotos: Riotur/Reprodução TV Globo

Mas o quesito que mais passou por mudanças nos últimos anos não para de se atualizar e de encontrar novos caminhos para agradar o povo e a crítica. Alvo de ponderações negativas, a volumetria dos tripés, utilizados como palco para as encenações mais esperadas da pista de desfiles, foi revista e, no último Carnaval, os elementos cenográficos foram sentidamente reduzidos em algumas escolas de samba.

Um dos mais premiados e consagrados coreógrafos do Grupo Especial, Marcelo Misailidis, da Beija-Flor, acredita que a tendência natural é de fato a diminuição dos tripés com uma valorização acentuada para o trabalho humano, destacando-se, portanto, a coreografia e a dança dos bailarinos.

– Quando você depende das questões humanas torna a coisa mais complexa, a cenografia te auxilia em aspectos, você tira a necessidade humana de resolver coisas. Mas é uma questão de uma possibilidade de tendência de diminuição pra se justificar cada vez mais o quesito, isso é positivo. Quanto mais as comissões conseguirem se firmar na questão humana melhor ela se estrutura no conceito do que é uma comissão de frente. É importante que a gente valorize mais a questão humana, em relação à cenografia – opinou Misailidis, que vai para o quarto ano seguido na azul e branco de Nilópolis.

Erudito e popular! Misaillidis será homenageado no documentário "Alegoria do cisne": "Quero esperar ver" - Foto: Reprodução/Divulgação
‘É importante que a gente valorize mais as questões humanas’, diz Marcelo Misailidis sobre a importância da preconização da dança e das coreografias em relação a cenografia proporcionada pelos tripés – Foto: Divulgação

Embora admita as exigências que se implicam ante a festa mais popular do Brasil, vista por todo o mundo, o coreógrafo da Beija-Flor acredita que tornar o espetáculo maior não resulta necessariamente em aumento de volumetria nos elementos.

– Eu fui um dos precursores da volumetria nas comissões de frente, quando ela era necessária dentro da justificativa temática, onde você precisava trazer elementos associados à apresentação. O importante nos trabalhos é o conteúdo do que se quer dizer como mensagem, sem desprezar que o Carnaval cada vez mais é um show, um espetáculo, que extrapola as fronteiras nacionais, e isso te faz exigir de um espetáculo maior. Mas maior não tem a ver com tamanho, tem a ver com intensidade – explica.

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“De fato nilopolitano”! Renovado, o coreógrafo vai para o quarto Carnaval seguido na Beija-Flor de Nilópolis – Foto: Jorge Luiz Castro

Em 2017, por mais uma temporada, Marcelo Misailidis estará no comando da comissão de frente da Beija-Flor, que será a última a desfilar no Domingo de Carnaval, pelo Grupo Especial, com o enredo “A virgem dos lábios de mel – Iracema”, desenvolvido por um colegiado de carnavalescos.

Por Redação

Já nas altas horas da madrugada do Domingo de Carnaval o clima de romance vai tomar conta da Sapucaí, quando a Beija-Flor de Nilópolis iniciar o derradeiro desfile da primeira noite de apresentações da Avenida.

É que o tema oficial da maior campeã do Sambódromo é uma narrativa baseada no romance “Iracema – a lenda do Ceará”, escrito por José de Alencar, uma das pérolas da literatura brasileira. A virgem dos lábios de mel – Iracema – virou um símbolo da história do estado nordestino por retratar o amor entre a personagem principal da trama com o navegador português Martim, que, juntos, dão origem a Moacir, o primeiro cearense miscigenado. Tudo isso diante do cenário histórico da colonização européia no continente americano no início do século XVII.

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Mas o belo conto, pra virar enredo, teve que ganhar uma disputa interna contra um tema-homenagem ao ex-comunicador José Abelardo Barbosa Medeiros, o Chacrinha, que tinha força também na azul e branco. O duelo entre os enredos foi duro. Entre conversas, argumentações e convencimentos, foram uns 3 meses de angústia para o nilopolitano. Ao final, deu Iracema pra alegria da comunidade e da comissão de carnaval, que estava na torcida pelo anúncio da virgem dos lábios de mel.

– Houve a história do Chacrinha, que era muito bom, mas era mais uma homenagem, e isso pesou. Iracema é uma história de amor. Foi naturalmente, não foi algo forçado. É como uma corrida, né? E ela foi vencendo, foi passando à frente, então ela venceu pela própria força dela. A história está fazendo 150 anos, e é super atual. O que mais se fala hoje é a presença da mulher na política, na vida social, e ela é uma guerreira do amor, a Iracema, e daí nasceu o Moacir, o primeiro miscigenado, e o Carnaval precisa desse tipo de história – opina Fran Sérgio, um dos integrantes da comissão da Beija-Flor, ao lado de Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, todos liderados por Laíla.

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Comissão da Beija-Flor, que queria e conseguiu emplacar Iracema como enredo, já tem o projeto da narrativa quase pronto – Foto: Rodrigo Mesquita

Através do Facebook, os torcedores da Beija-Flor fizeram a diferença para a definição de Iracema. Cada postagem de um apaixonado pela escola na rede social era um pontinho a mais na disputa interna para a escolha do tema.

– Comunidade foi essencial. As pessoas, conforme sabiam, achavam lindo e postavam. Eles participaram muito dessa disputa de fazer um enredo que você acha que é legal pra escola no momento certo. Iracema nada mais é que a nossa própria origem. Nós somos indígenas. Ela é um anagrama de América. Como a América foi colonizada, da forma que foi, a paixão dela pelo português, o Martim. É uma história cheia de encantos. A gente tem certeza que fará um grande Carnaval, rústico, primitivo, bem na base indígena – adiantou o carnavalesco octocampeão da festa mais popular do Brasil.

Maior campeã da Século XXI, com sete títulos, a Beija-Flor de Nilópolis será última a desfilar no Domingo de Carnaval, pelo Grupo Especial, buscando o décimo quarto campeonato na história.

Por Redação

A linda história de amor entre Iracema e o navegador Martim estará na Avenida em 2017 com a Beija-Flor de Nilópolis. O martelo foi batido, e a azul e branco definiu que o romance indianista de José de Alencar vai ser mesmo o tema para a próxima temporada.

O romance “Iracema – a lenda do Ceará”, escrito por José de Alencar, é considerado uma das joias da literatura brasileira. A virgem dos lábios de mel – Iracema – virou um símbolo da história do estado nordestino por retratar o amor entre a personagem principal da trama com o navegador português Martim, que, juntos, dão origem a Moacir, o primeiro cearense miscigenado. Tudo isso diante do cenário histórico da colonização européia no continente americano no início do século XVII.

Iracema interna

A narrativa será desenvolvida pela comissão de carnaval formada por Fran Sérgio, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo, todos capitaneados por Laíla. Em 2016, a Beija-Flor ficou com o 5° lugar no Grupo Especial.

A Beija-Flor é a sétima escola de samba do Especial a definir oficialmente o enredo para o próximo ano. Antes, a Grande Rio lançou o “Ivete do rio ao Rio!”, em homenagem à cantora Ivete Sangalo. Depois, foi a Mocidade a contar que Marrocos, país do extremo noroeste da África, era o tema para 2017. A São Clemente terá “Onisuáquimalipanse”. A Imperatriz Leopoldinense vai reverenciar os 55 anos do Parque Indígena do Xingu: “Xingu – o clamor que vem da floresta”. A Tuiuti lançou “Carnavaleidoscópio Tropifágico”, sobre o movimento tropicalista.  E, há algumas semanas, o Salgueiro anunciou “A divina comédia do Carnaval”

Mangueira, Unidos da Tijuca, Vila Isabel e União da Ilha ainda não anunciaram as narrativas de 2017.

Por Redação

Terminado o Carnaval, e todas as escolas de samba, menos a grande campeã, querem saber: “Onde foi que eu errei?”.

Com as justificativas dos jurados, divulgadas normalmente de quatro a cinco semanas após a Quarta-feira de Cinzas, a planta é dada, e então as diretorias começam a se mexer pra modificar ou pelo menos apurar o desenvolvimento de cada quesito afetado no desfile que passou.

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Fotos: Irapuã Jeferson

Para os donos das notas 40, os elogios e louros da perfeição até a próxima festa. Para os mal aventurados na temporada, a corneta soa em tom de crítica, muitas vezes feroz e injusta.

De olho nas avaliações dos jurados da Liesa, a Liga Independente das Escolas de Samba, que é quem rege o Grupo Especial, o Sambarazzo quis saber quem está melhor em cada um dos quesitos nos últimos cinco anos. E nesta terça-feira, 5, prosseguimos a série de apuração dessa meia-década com o item Enredo, que ano após ano molda os caminhos de cada escola naquela temporada e roteiriza a apresentação na Avenida.

Diferentemente de Samba-enredo, que a Portela pulverizou qualquer tipo de disputa acirrada, com uma sequência ininterrupta de notas dez, nos temas a competição é mais apertada de 2012 pra cá. No certame específico das narrativas, Unidos da Tijuca e Salgueiro ficaram rigorosamente empatadas na ponta da tabela, e olha que nem adiantou usar o critério desempate de maior número de notas 10. A igualdade foi estabelecida.

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Em 2016, o Salgueiro apresentou o enredo “A ópera dos malandros”, sob a batuta de Renato Lage, e conquistou os 40 pontos. “Semeando Sorriso, a Tijuca festeja o solo sagrado”, da comissão de carnaval formada por Mauro Quintaes, Marcus Paulo, Hélcio Pain e Annik Salmon, deu um 10 e três 9,9 à azul e amarelo – Fotos: Irapuã Jeferson e Michele Iassanori

A escola do Borel teve nos enredos construídos pelo carnavalesco Paulo Barros as três melhores avaliações: Luiz Gonzaga (2012), perdendo apenas um décimo, que foi dizimado no descarte regulamentar da Liesa; e Alemanha (2013) e Ayrton Senna/velocidade (2014), ambos nota 40. A “Academia” impulsionou a pontuação nos temas sobre a literatura de cordel (2012), a criação do universo (Gaia, 2014) e os malandros (2016), todos com avaliações impecáveis e sempre com a assinatura luxuosa de Renato Lage.

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“É o amor… que mexe com a minha cabeça e me deixa assim. Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil”, por Cahê Rodrigues, homenageou os irmãos sertanejos, Zezé Di Camargo e Luciano – Foto: Michele Iassanori

O eterno camisa 10 do Flamengo e da seleção brasileira, Zico, manteve a tradição do número na Imperatriz: dez, nota dez. O melhor enredo da escola, segundo o júri da Liga, nos últimos cinco anos. Os temas do Pará (2013) e o afro Axé Nkenda (2015) deram ótimos motivos para as renovações seguidas do carnavalesco Cahê Rodrigues e serviram também para colocar a verde e branco no terceiro lugar do Ranking.

Jorge Amado, um dos escritores recordistas de vendas de livros no Brasil, não bateu tantos recordes no Carnaval carioca. Enredo na representante de Ramos em 2012, a história do intelectual não foi aprovada pelo júri. Sete décimos escorreram pelas quatro canetas.

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“Maria Bethânia: a menina dos olhos de Oyá” não só foi nota 40 como lançou a verde e rosa ao campeonato que não se realizava há 14 anos – Foto: Rodrigo Mesquisa

Pela primeira vez em cinco anos, a Mangueira conseguiu uma nota 40 em enredo: a cantora Maria Bethânia e Leandro Vieira, o artista responsável pela homenagem, foram os condutores desse feito inédito de 2012 até aqui. A campeã de 2016, que passou bem longe do título nos anos anteriores, não sabia o que era um 10 no quesito há duas temporadas.

Em 2015 e 2014, as narrativas sobre mulheres e festas brasileiras, respectivamente, deram à verde e rosa uma coletânea de 9,9 e afastaram a Estação Primeira da ponta do Ranking.

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“No voo da águia, uma viagem sem fim…”, do carnavalesco Paulo Barros, ajudou a Portela a voltar ao pódio do Carnaval ao faturar o terceiro lugar na festa em 2016 – Foto: Michele Iassanori

A nossa campeã no Samba, sustentando a marca de 20 notas dez seguidas no quesito, perde um pouco da “majestade” no Enredo. Quarenta pontos, de 2012 pra cá, apenas na homenagem aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, isso em 2015, sob comando de Alexandre Louzada. A segunda melhor avaliação veio no último desfile, na estreia de Paulo Barros, com as suas viagens. Apenas dois décimos ficaram para trás.

E se viajar deu certo na pontuação, ficar em casa não muito. É que em 2013, quando reverenciou o bairro de Madureira, de onde é originária, a Portela perdeu oito décimos nos quatro jurados.

Grande Rio, União da Ilha, Vila Isabel, Beija-Flor, Mocidade e São Clemente, que completam o G-11 das escolas que se mantêm no Especial há pelo menos cinco anos, fecham o ranking.

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Por Redação

Os três primeiros meses de pós-Carnaval podem até ser os menos agitados dentro das quadras das escolas de samba. É aquele clima de ressaca após os desfiles da Marquês de Sapucaí. Mas nos bastidores a coisa esquenta.

É neste período de entressafra que as postulantes ao título do ano seguinte armam o terreno para conquistar o topo na próxima festa. Entre definir a equipe e o enredo para a temporada que se aproxima, uma decisão equivocada pode custar caro e um mínimo acerto pode levar à consagração. Por isso, todo cuidado é pouco.

Na Beija-Flor, a discussão é mesmo o enredo. E uma das possibilidades mais fortes para virar o tema oficial da maior campeã do Sambódromo é uma narrativa baseada no romance “Iracema – a lenda do Ceará”, escrito por José de Alencar, uma das pérolas da literatura brasileira. A virgem dos lábios de mel – Iracema – virou um símbolo da história do estado nordestino por retratar o amor entre a personagem principal da trama com o navegador português Martim, que, juntos, dão origem a Moacir, o primeiro cearense miscigenado. Tudo isso diante do cenário histórico da colonização européia no continente americano no início do século XVII.

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Iracema! O romance indianista de José de Alencar é um dos mais conhecidos e venerados da literatura brasileira… e a história é uma das mais cotadas para virar enredo na Beija-Flor – Foto: Reprodução/Internet
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Um das estátuas de Iracema fica localizada na lagoa de Messejana, em Fortaleza, capital do estado do Ceará – Foto: TV Verdes Mares/Reprodução

Dentro da própria Beija-Flor, outro tema ganhou força nas últimas semanas: um enredo-homenagem ao ex-comunicador José Abelardo Barbosa Medeiros, o Chacrinha. 2017 é ano do centenário de nascimento do apresentador de TV e rádio dos mais famosos entre as décadas de 1950 e 1980.

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Abelardo Barbosa, o Chacrinha, também está cotado para virar enredo na azul e branco de Nilópolis para 2017 – Foto: Reprodução/Memória Globo

Leia mais – Boato fenomenal! Enredo da Beija-Flor sobre Ronaldo ‘nunca existiu’, diz carnavalesco

 

Por Luiz Felippe Reis

Esta poderia ser mais uma matéria da seção “Lado B”, onde o Sambarazzo mostra a outra profissão dos sambistas. Mas a função de ator se transformou no único lado profissional do carnavalesco Ubiratan Silva, o Bira, após o artista pedir dispensa da comissão de carnaval da Beija-Flor de Nilópolis, em maio deste ano, para se dedicar integralmente à arte da atuação. Com sua companhia “Amor & Arte”, o camarada saiu dos barracões para ganhar o Brasil com seus espetáculos teatrais.

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Ex-integrante da comissão de carnaval da Beija-Flor agora leva vida viajando pelo país com sua companhia de teatro – Foto: Arquivo pessoal

“A Beija-Flor consumia todo o meu tempo”, diz o carnavalesco

Hoje mais preocupado com os textos e as cenas, o carnavalesco deu um tempo de alegorias e fantasias para se focar nos palcos. Mas o desligamento não foi dos mais fáceis para Bira, que lembra da comoção na azul e branco quando anunciou sua saída. Até o patrono da Beija-Flor, Anísio Abraão David, fez um singelo pedido ao ator para que ele não se afastasse da atual campeã da festa.

– Todo mundo pediu muito para que eu não saísse. O “Seu” Anísio mesmo. Ele falava ‘Ô, meu filho, dá pra ficar na escola, você pode continuar fazendo suas coisas de teatro, faz os dois’. E eu respondi ‘Tô tentando há 22 anos’. E não dava mais mesmo. A Beija-Flor consumia todo o meu tempo. Meu mundo se dividia em dois. O teatro, como o Carnaval, demanda muita entrega, nunca deu pra conciliar. São minhas duas paixões, mas está na hora de me entregar ao teatro – garante Bira, que é oito vezes campeão do Carnaval integrando a comissão de carnaval da Beija.

No vídeo abaixo, Bira interpreta grandes cenas de filmes agraciados com o Oscar, (premiação da Academy of Motion Picture Arts and Sciences), nos últimos cinco anos.

Milton Cunha já dirigiu o artista

Desde menino, o destino parecia encaminhar a união das duas artes na vida de Bira. Aos 14 anos, quando apenas sonhava em ser um ator famoso, o artista teve logo quem como diretor de teatro? Milton Cunha. Não deu outra. O experiente carnavalesco logo percebeu o talento de Ubiratan para os desenhos, e o levou para o Carnaval, assim que foi chamado pela Beija-Flor, em 1993.

– Na época, eu ajudava o Milton a desenhar os figurinos e cenários que a gente usava no teatro. Daí, quando ele foi pra Beija-Flor me levou junto. Em 1997, quando ele saiu de lá, o Laíla veio com a ideia de montar a comissão, e eu fiquei. Sempre ensaiava os grupos que faziam alas teatralizadas. Eu organizava, trabalhava e transformava os passistas em verdadeiros atores – conta Ubiratan Silva, que teve Milton Cunha como professor na AFE (Associação Fluminense de Educação) , atual UNIGRANRIO, em Duque de Caxias.

Atualmente, Bira roda o país com o espetáculo “O aniversário do Chaves”, de criação da Cia. Amor & Arte. O carnavalesco interpreta o protagonista da história – Foto: Arquivo pessoal

Seis meses afastado da Beija-Flor, Bira, no entanto, frequenta a escola. Na verdade, o carnavalesco, que se diz um “beija-floriano doente”, acompanha todo o desenrolar do enredo em homenagem ao político Marquês de Sapucaí, que a escola prepara para o Carnaval 2016. Para o ano que vem, só falta decidir se ele vai desfilar ou se vai ficar na plateia só assistindo, algo que não acontece há mais de duas décadas:

– Vou lá toda semana. Vejo tudo, olho os figurinos, vou na quadra, participo dos ensaios quando dá. E tô empolgado com possibilidade de assistir o desfile. Quero desfilar, mas ao mesmo tempo dá vontade de só assistir, porque por todos esses anos eu não via. Lá na hora você está preocupado com outras coisas, você não assiste, né? Mas gostaria de assistir.

Por Redação

Se tem uma pessoa que pode falar com propriedade sobre a Beija-Flor de Nilópolis, esse alguém é o diretor de carnaval e geral de harmonia Laíla. Com 40 anos de casa, um dos mais respeitados líderes de escola de samba disse, em entrevista à primeira edição do jornal “O Beija-Flor” – publicação institucional da agremiação -, que a chamada “Deusa da Passarela”, treze vezes campeã da festa, sofre preconceito.

Em entrevista ao periódico, de distribuição gratuita, o diretor desabafa, num papo que mostra um pouco mais de seu perfil de cacique da escola.

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“A gente apanha muito”, comenta Laíla, o comandante absoluto da direção de carnaval da Beija-Flor – Foto: Eduardo Hollanda/Jornal O Beija-Flor

Mesmo na posição de maior campeã do Século XXI, com sete campeonatos em 15 possíveis, eventualmente algum sabichão desmerece os feitos da representante do menor município do Rio de Janeiro. Laíla sabe bem o motivo.

– A Beija-Flor sempre sofreu preconceito por ser da Baixada (Fluminense, região do Rio que engloba vários municípios, entre eles Nilópolis, onde é situada a sede da Beija-Flor). Noto isso desde que cheguei aqui, com João Trinta (carnavalesco, que morreu em 2011), em 1976. O trabalho que fizemos ao longo dos últimos anos diminuiu um pouco o preconceito, mas ainda existe. A gente apanha muito – reclamou.

Líder na Beija-Flor, Laíla serve como uma espécie de guru para as demais agremiações. Inclusive, o diretor da atual campeã do Carnaval é o produtor musical do CD das escolas de samba já há alguns anos. A moral é tanta que uma sugestão dele costuma ser avaliada como verdade inquestionável e muitas vezes prontamente seguida pelos presidentes coirmãos. Vai aí, de certo, uma dose de confiança na sabedoria singular do veterano sambista.

"Os jovens não conversam mais" Laíla faz algumas críticas ao uso exagerado da internet - Foto: Reprodução / Internet
Além das guias, Laíla carrega a sabedoria adquirida em seis décadas de Carnaval – Foto: Reprodução/Internet

Espelho a ser seguido por outros comandantes, Laíla deu dicas de como ser tão respeitado. Embora gabaritado, o poderoso chefão da comissão de carnaval da Beija-Flor, no alto de seus 72 anos, não se utiliza de qualquer personalismo e divide o mérito com toda a turma de Nilópolis.

– Entender que se trabalha em equipe, defender sua comunidade com unhas e dentes, cobrar dela até o limite do seu potencial e, ao mesmo tempo, ser leal, amigo, dedicado. Isso é o básico. Acreditar nos homens, nos quadros da escola. Carnaval é obra coletiva, e a Beija-Flor pratica isso – pontuou Laíla, entre outras revelações ao jornal.

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“Penso em Carnaval o tempo todo”, diz Laíla – Foto: SRZD

Outro fator que coloca Laíla no alto da prateleira das grandes personalidades do Carnaval certamente é a entrega assídua pela festa, a qual se doa em todos os últimos 64 anos. Desde garoto metido nessa história de samba, Luiz Fernando do Carmo (nome de batismo de Laíla) pensa no maior espetáculo da terra em todos os momentos.

– Trabalho desde os oito anos no Carnaval, quando fundei a Independente da Ladeira, escola mirim lá no Morro do Salgueiro, onde nasci e me criei. Tudo que tenho consegui com meu trabalho, é dele que tiro meu sustento. Não peço nada a ninguém, nunca pedi. Por isso, penso em Carnaval o tempo inteiro. Serei assim enquanto papai do céu permitir – finalizou.

Sob o comando de Laíla, a Beija-Flor de Nilópolis vai em busca do 14° título de sua história no Carnaval. A azul e branco será a terceira a desfilar no Domingo de Carnaval, com o enredo “Mineirinho Genial! Nova Lima – Cidade Natal. Marquês de Sapucaí– O Poeta Imortal”, que está sendo desenvolvido pela comissão de carnaval formada por Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Cláudio Russo.

“O Beija-Flor” começa a circular nesta quinta-feira, 5, com uma tiragem inicial de cinco mil exemplares. Na capa, um emblemático personagem da história da azul e branco: Cabana, sambista dos bons, que foi peça fundamental no processo de transformar, em meados de 1953, o então bloco Associação Carnavalesca Beija-Flor em escola de samba.

A distribuição do jornal acontecerá toda primeira quinta-feira do mês. Os fãs da agremiação que quiserem conferir a novidade podem conseguir em alguns pontos-chave: na quadra da Beija-Flor, nas lojas do Babado da Folia e na Cidade do Samba, na Gamboa.

 

*Foto de capa: Eduardo Hollanda/Jornal O Beija-Flor